Sou herdeira daqueles que criticaram o Marxismo, dentre eles W. Reich, Edgar Morin e Fernando González Rey. Eles são pensadores e atores de uma luta pelo fim das clivagens. Eles buscam integrar e não separar. E me ensinaram a ir além dos reducionismos, linearidades e simplificações, que são tipos de problemas mentais. Se preciso demarcar um lugar de partida, essa herança seria ele.
Por vivermos no mundo do contraditório e do paradoxal, nem sempre conseguimos harmonizar as partes que nos compõem e eu gosto de entendê-las como quatro campos, quatro dimensões interdependentes. O que acontece numa, acontece na outra também e elas, portanto, precisam estar em diálogo harmônico. Essas partes seriam a Physis, a Anima, o Logos e o Spiritus. Cada uma tem uma vida própria e tem também uma vida em relação com as outras camadas. Assim que traduzo o uno múltiplo do humano, conceito que aprendi com Edgar Morin. O uno múltiplo é multidimensional, mas eu resumo nesses quatro campos para facilitar uma pedagogia com meus pacientes. Faço isso para dar um limite plausível ao ilimitado. A metáfora é de quatro corpos a alinhar ou sintonizar, sincronizar.
Coloco essa metáfora só para deixar claro que a complexidade do assunto que aqui me proponho é gigante e que nenhum pequeno texto conseguirá abarcá-lo. Se falo de movimento de massa falo da integração de singulares complexos dentro de uma unidade complexa: a massa humana.
No nosso mundo de hoje entendemos que à distribuição socioeconômica corresponde uma distribuição ideológica e vivemos atualmente uma guerra no plano das ideias, ou seja, digladiamos pela forma de pensar e não mais pela garantia de recursos materiais ou sobre o "fazer". Isso já começou nos tempos da segunda grande guerra e agora está cada vez mais evidente com o advento da comunicação via internet e redes sociais. Temos que investir urgentemente no "aprender a pensar", pois, atualmente o pensamento está dado e as pessoas não precisam mais gastar energia para pensar. Muitos estão pensando por elas, entregando conteúdos prontos e sem nenhuma formação de uma avaliação crítica e um fornecimento coerente de recursos imateriais.
Existe um movimento psíquico nas massas populares. Podemos pensar como uma subjetividade social (González Rey) que se organiza como configuração subjetiva dinâmica, Compreender a organização psíquica das massas e a sua relação com a base econômica da qual ela se origina é um bom trabalho a ser feito. Mas o assunto não só econômico, uma vez que muitos elementos compõem a dinâmica psíquica das massas, tais como: papéis de gênero, diferenças morfológicas, processo histórico, símbolos culturais, entre outros.
O fascismo é um movimento de massas e produz espaços relacionados ao mundo que mudou após o advento da industrialização, fomentado pela revolução francesa e pela revolução industrial, tecnológica e científica. Para compreender esse fenômeno, que vem mascarado pelo econômico e pelo político, precisamos agregar ao debate os aspectos da estrutura de caráter da massa e o efeito social do misticismo (W. Reich). Esse assunto não é só objetivo, pois nele entram os fatores subjetivos da história e também a construção das ideologias de massas. Aqui eu faço um link aos campos que compõe uma pessoa singular humana, ou seja, seu existir multidimensional enquanto ser aí no mundo.
Quais parâmetros usar para compreender o movimento das massas? Nesse estudo precisamos conjugar o medo do desconhecido, a passividade da pessoa e o assassinato do sujeito. O comportamento das massas é irracional. Por qual razão eu defendo um modelo que pressupõe minha própria escravidão? Por que é possível perceber o ditador, mas não tanto a ditadura?
Importante salientar que nosso código moral não é divino, é humano e desejos e proibições remetem ao medo. A psicanálise explica o movimento de massas pela castração, ou seja, o objetivo da moralidade seria a criação do indivíduo submisso, pois ele se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação.
A Família, para Reich, é o Estado autoritário em miniatura e o resultado disso é a mentalidade reacionária. A ideologia autoritária da família possui uma habilidade de manejar a emoção e evitar argumentações objetivas. O racional fica cego, preso a um processamento irracional.
Por que motivo as massas se mostram receptivas ao engodo, ao embotamento ou a uma situação psicótica? Precisamos saber o que se passa nas massas cujas pessoas apoiam a sua própria opressão e isso não pode ser esclarecido pela política ou pela economia. Isso precisa ser esclarecido pela psicologia de massas.
Por qual motivo as massas se deixam iludir politicamente? E religiosamente também? Pela promessa de um objetivo final. Isso está ligado ao "dar um sentido ao sem sentido".
O êxito do opressor não se deve exclusivamente à sua personalidade, nem ao papel objetivo da sua ideologia, pois a massa se movimenta por sua própria organização, que é contraditória e é na maioria formada por uma "classe média" que é conservadora e de organização familiar patriarcal hierárquica. O comportamento da massa flui na pulsão opressão - opressor - oprimido e existe uma tensão entre "código de restrição" e "código de liberação".
Podemos falar aqui em micro políticas e em macro políticas. Espaços socias são sistêmicos e vivos por si só. São organizações subjetivas, como possibilidades de produções de sentidos que podem colapsar em uníssono. Nicolélis sugere a existência de "brainnets" e eu gosto de imaginar o quão material e imaterial é esse processo da organização subjetiva social.
As pessoas mostram quem elas são quando assumem uma ou outra postura. Mas como explicar quando eu assumo uma postura que vai contra mim mesma? Ser reacionário está relacionado aos movimentos que tendem a anular os efeitos de uma revolução ou de uma mudança ou até mesmo impossibilitar as mudanças. Cientificamente falando, sabemos que as mudanças vem da esquerda e as resistências às mudanças vem da direita. Sabemos também que eu não mudo a mente do outro, só a minha!
Portanto, quero convidar aos que estão atentos e ativos (no seu lugar de sujeito da ação, tal qual aprendi com González Rey) que precisamos abandonar o lugar do descontente bem sucedido (Tart) e do inocente útil (Baldani). O movimento das massas é um tema em voga, assim como as vias de comunicação em massa. Para mim, como pensadora em inquieta, cada vez mais o assunto do sujeito e do assujeitamento se torna importante e necessário.