Minha razão

Olá!!
Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Psicologia de massas

    Sou herdeira daqueles que criticaram o Marxismo, dentre eles W. Reich, Edgar Morin e Fernando González Rey. Eles são pensadores e atores de uma luta pelo fim das clivagens. Eles buscam integrar e não separar. E me ensinaram a ir além dos reducionismos, linearidades e simplificações, que são tipos de problemas mentais. Se preciso demarcar um lugar de partida, essa herança seria ele.

    Por vivermos no mundo do contraditório e do paradoxal, nem sempre conseguimos harmonizar as partes que nos compõem e eu gosto de entendê-las como quatro campos, quatro dimensões interdependentes. O que acontece numa, acontece na outra também e elas, portanto, precisam estar em diálogo harmônico. Essas partes seriam a Physis, a Anima, o Logos e o Spiritus. Cada uma tem uma vida própria e tem também uma vida em relação com as outras camadas. É assim que traduzo o uno múltiplo do humano, conceito que aprendi com Edgar Morin. O uno múltiplo é multidimensional, mas eu resumo nesses quatro campos para facilitar uma pedagogia com meus pacientes. Faço isso para dar um limite plausível ao ilimitado. A metáfora é de quatro corpos a alinhar ou sintonizar, sincronizar.

Coloco essa metáfora só para deixar claro que a complexidade do assunto que aqui me proponho é gigante e que nenhum pequeno texto conseguirá abarcá-lo. Se falo de movimento de massa falo da integração de singulares complexos dentro de uma unidade complexa: a massa humana.

No nosso mundo de hoje entendemos que à distribuição socioeconômica corresponde uma distribuição ideológica e vivemos atualmente uma guerra no plano das ideias, ou seja, digladiamos pela forma de pensar e não mais pela garantia de recursos materiais ou sobre o "fazer". Isso já começou nos tempos da segunda grande guerra e agora está cada vez mais evidente com o advento da comunicação via internet e redes sociais. Temos que investir urgentemente no "aprender a pensar", pois, atualmente o pensamento está dado e as pessoas não precisam mais gastar energia para pensar. Muitos estão pensando por elas, entregando conteúdos prontos e sem nenhuma formação de uma avaliação crítica e um fornecimento coerente de recursos imateriais.

Existe um movimento psíquico nas massas populares. Podemos pensar como uma subjetividade social (González Rey) que se organiza como configuração subjetiva dinâmica, Compreender a organização psíquica das massas e a sua relação com a base econômica da qual ela se origina é um bom trabalho a ser feito. Mas o assunto não é só econômico, uma vez que muitos elementos compõem a dinâmica psíquica das massas, tais como: papéis de gênero, diferenças morfológicas, processo histórico, símbolos culturais, entre outros.

O fascismo é um movimento de massas e produz espaços relacionados ao mundo que mudou após o advento da industrialização, fomentado pela revolução francesa e pela revolução industrial, tecnológica e científica. Para compreender esse fenômeno, que vem mascarado pelo econômico e pelo político, precisamos agregar ao debate os aspectos da estrutura de caráter da massa e o efeito social do misticismo (W. Reich). Esse assunto não é só objetivo, pois nele entram os fatores subjetivos da história e também a construção das ideologias de massas. Aqui eu faço um link aos campos que compõe uma pessoa singular humana, ou seja, seu existir multidimensional enquanto ser aí no mundo.

Quais parâmetros usar para compreender o movimento das massas? Nesse estudo precisamos conjugar o medo do desconhecido, a passividade da pessoa e o assassinato do sujeito. O comportamento das massas é irracional. Por qual razão eu defendo um modelo que pressupõe minha própria escravidão? Por que é possível perceber o ditador, mas não tanto a ditadura? 

Importante salientar que nosso código moral não é divino, é humano, e desejos e proibições remetem ao medo. A psicanálise explica o movimento de massas pela castração, ou seja, o objetivo da moralidade seria a criação do indivíduo submisso, pois ele se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação.

A Família, para Reich, é o Estado autoritário em miniatura e o resultado disso é a mentalidade reacionária. A ideologia autoritária da família possui uma habilidade de manejar a emoção e evitar argumentações objetivas.  O racional fica cego, preso a um processamento irracional.

Por que motivo as massas se mostram receptivas ao engodo, ao embotamento ou a uma situação psicótica? Precisamos saber o que se passa nas massas cujas pessoas apoiam a sua própria opressão e isso não pode ser esclarecido pela política ou pela economia. Isso precisa ser esclarecido pela psicologia de massas. 

Por qual motivo as massas se deixam iludir politicamente? E religiosamente também? Pela promessa de um objetivo final. Isso está ligado ao "dar um sentido ao sem sentido".

O êxito do opressor não se deve exclusivamente à sua personalidade, nem ao papel objetivo da sua ideologia, pois a massa se movimenta por sua própria organização, que é contraditória e é na maioria formada por uma "classe média" que é conservadora e de organização familiar patriarcal hierárquica. O comportamento da massa flui na pulsão opressão - opressor - oprimido e existe uma tensão entre "código de restrição" e "código de liberação".

Podemos falar aqui em micro políticas e em macro políticas. Espaços socias são sistêmicos e vivos por si só. São organizações subjetivas, como possibilidades de produções de sentidos que podem colapsar em uníssono. Nicolélis sugere a existência de "brainnets" e eu gosto de imaginar o quão material e imaterial é esse processo da organização subjetiva social.

As pessoas mostram quem elas são quando assumem uma ou outra postura. Mas como explicar quando eu assumo uma postura que vai contra mim mesma? Ser reacionário está relacionado aos movimentos que tendem a anular os efeitos de uma revolução ou de uma mudança ou até mesmo impossibilitar as mudanças. Cientificamente falando, sabemos que as mudanças vem da esquerda e as resistências às mudanças vem da direita. Sabemos também que eu não mudo a mente do outro, só a minha!

Portanto, quero convidar aos que estão atentos e ativos (no seu lugar de sujeito da ação, tal qual aprendi com González Rey) que precisamos abandonar o lugar do descontente bem sucedido (Tart) e do inocente útil (Baldani). O movimento das massas é um tema em voga, assim como as vias de comunicação em massa. Para mim, como pensadora em inquietação, cada vez mais o assunto do sujeito e do assujeitamento se torna importante e necessário.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Natal

Família reunida para o Natal.

Parece que estamos falando de Lula e Bolsonaro.

Mas não.

Estamos falando de

Materialismo ou espiritualidade.

Patriarcado e liberdade.

Amor e ódio.

Essa é a nossa dicotomia, que começa no medo e segurança.

São configurações de valores.

São produções de sentido - manutenção ou transformação?

Coragem e ousadia ou "melhor ficar onde já conhecemos"?

Atentem aos seus códigos e seus símbolos.

E deixa o outro em paz com o símbolo dele e as crenças que ele sustenta.

Mas cuidem para não perder o humanismo e o profundo respeito aos códigos da vida.

Se é tempo de Natal, é tempo de valorizar o pensamento crítico que o próprio Jesus trazia em sua missão de vida.

O que foi feito dessa Festa? De onde ela veio e para onde ela vai? Quem a instituiu e como?

Não embarca desavisado, senão corre o risco de passar mal na viagem.

Nesse caldeirão de almas, tem uma da qual você é o único responsável: a sua! Que não está lá no céu te esperando na hora da morte. Está aqui e agora contigo, o tempo todo, se impregnando das múltiplas vivências que emergem no teu caminhar na vida.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O amor incondicional

Relativizar-me

Desmoronar-me

Desentronizar-me

Desmentir-me

Desmascarar-me

Reconhecer-me

Harmonizar-me

Descortinar-me

Perder-me

Abrir-me

Dezarrazoar-me

Arriscar-me confiante

Saber dar nome aos demônios e aos deuses

Desmonte o falso realismo

Integrar-me

Sentir-me

Cuidar-me

Amparar-me

Romper a dicotomia preto-branco; bom-mau

Sujeito - agir - apareça

Ação - apresentar-se

Olhar para si mesma e conjugar as aprendizagens.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

E tudo é aprendizagem ...

Os dons da plasticidade nos permitem adaptação a uma ampla gama de ambientes. E tudo se produz via aprendizagem.

Nosso cérebro não é algo "preso às estruturas", pois ele é dinâmico, cria a si mesmo e cria a realidade. Foi essa capacidade de se modificar que permitiu avançarmos no tempo e no espaço, fazendo cultura e fazendo a história que nos modifica. A cultura agiu no cérebro, que agiu na cultura em movimento dialógico. Por ser cerebral, é biológico, mas, por ser cultural e histórico, é também subjetivo.

Quando uma criança aprende a falar ela recapitula o processo filogenético da espécie. Da mesma forma, quando aprender a ler. Nessa dinâmica de transformação neural a criança refaz o percurso que a humanidade fez até aprender a ler e também escrever. Começa nos 35 mil anos passados (ou mais) dos primeiros registros rupestres, algo que remonta a existência de umas 580 gerações, em estimativa livre. Nesses avanços culturais começamos a integrar sistemas motores e visuais. Daí passamos aos hieróglifos, ainda ligando imagem e significado. Os hieróglifos são formas de representação que usam figuras para designar objetos. Daí passamos ao alfabeto fonético e isso é um grande avanço, pois integramos sistemas visuais, motores, de representação e sentido e também o auditivo. E um sistema altamente complexo que nos possibilita ler e escrever e que foram necessários milhares de anos para desenvolver.

E esses três sistemas básicos, que são o auditivo, o visual e o cinestésico (do movimento), proporcionam a emergência de um outro sentido, o da propriocepção. Nossas linguagens integram sistemas corticais de imagens, sons, representações, memórias, signos e significados. Somos portadores das chamadas funções psíquicas superiores por um processo filogenético que levou longo tempo para se organizar. Somos hoje representativos e proprioceptivos como resultado de um caminhar pelo planeta ao longo de muitos e muitos anos.

As partes integradas geram um todo maior e, portanto, o paradigma que nos auxilia a compreender nossa biologia é o da complexidade. O sentido de partes e todo, de caos e ordem e, de redes integradas são os pressupostos que sustentam a compreensão de nossa multissensorialidade.

O cérebro é um órgão que se modificou e o nosso não é igual ao de nossos ancestrais e antepassados. Essas mudanças derivam da cultura. Da mesma forma, todas as espécies vivas possuem sistema nervoso neuroplástico. O que vai nos diferenciar de outras espécies antropoides é a quantidade de neurônios que temos, que é maior do que alguns símios. Isso é o que faz grande diferença na hora de produzir cultura e linguagem.

E para nossas crianças a cultura passa a ser uma segunda natureza, marcando profundamente a sua configuração cerebral. É por isso que muitas vezes aprender um segundo idioma torna-se algo tão difícil. Estar em outra cultura será sempre um "choque cerebral". Mudar de país sempre vai resultar em algum tipo de traumatização em tecidos cerebrais, merecendo cuidados e atenção neuroplástica.

Tudo é aprendizagem e tudo é também ação. Quanto menos faço algo, menos quero fazer. Se estacionei e não quero mais desenvolver, não mais desenvolverei. Da mesma forma, quanto mais faço, mais sinto vontade de fazer. Quanto mais aprendo, mais tenho energia e vontade para aprender. Esse é o princípio do use ou perca, uma das leis da neuroplasticidade e considerar isso é vital para ajudar pessoas que não conseguem avançar e desenvolver.

No caso de nossas obsessões, de nossos transtornos compulsivos, aprendemos a travar nosso cérebro e ficamos com muita dificuldade de avançar, de virar a página e continuar o enredo. Ficamos parados em um ponto. Para conseguir virar a página precisamos nos conscientizar: "sim, eu tenho um problema, mas não é o evento e sim a forma como o evento está configurado em minha programação". Em outras palavras, precisamos agir na forma e não no conteúdo da questão. Jogar a pessoa no conteúdo (tenho medo de avião, fechei a porta da casa? ou minha família é tensionante) não ajuda a mudar o processo. Precisamos trabalhar na forma, que seria afirmar-se "sim, tenho um problema, mas não é minha família, é só minha obsessão". Com o tempo vou observando os efeitos do conflito (medo de avião) e vou me afastando deles (isso não sou eu, é só uma parte de mim mesmo que eu posso alterar). Quanto mais foco no conteúdo (minha família é um estresse e é feita por pessoas desreguladas), mais eu aumento o problema em termos de assembleias neuronais, mais eu recruto neurônios para sustentar essa questão. Existe sim uma forma universal de transtorno obsessivo compulsivo (pensamentos ansiosos e impulsos que invadem a consciência), mas os conteúdos são singulares (será mesmo que fechei a porta da casa? Vou voltar e conferir!).

Portanto o melhor é não mergulhar os pacientes nos conteúdos e sim no exercício de desmontar a armadilha. Precisamos trabalhar na forma, trabalhar nos defeitos fazendo algo para mudar a marcha. manualmente. O sujeito da ação é que tem a capacidade de usar o córtex para refocalizar e trabalhar no pensamento concentrado, buscando também as ações diferenciadas e suficientemente boas para liberar a dopamina necessária para firmar o novo comportamento e fazer com que o cérebro o busque mais e mais. E isso requer treino cotidiano. Não adianta querer mudar e não praticar a mudança. Precisa de ação concreta periódica, com tempo de pelo menos 30 minutos a cada vez.

Isso é resultado de aprendizagem, ou seja, aprender um novo jeito de ser. Quanto mais cristalizado um Eu doente, mas persistência, compromisso e ação essencial são necessários para alterar seus próprios mapas cerebrais.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A balança

Buracos Negros e explosão de galáxias

Entropia e Neguentropia

Contração e expansão

Destruição e criação

Hilotrópico e holotrópico

Inconsciente e consciente

Irracional e racional

Aqui em nosso mundo ocorrem as duas possibilidades.

Hora uma sendo oficial e outra sendo anti-oficial

E nos meio das duas a massa oscilante.

Melhor posicionar-se logo e deixar de ser oscilante junto com a massa.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Os 14 subsistemas de A. R. Müller

      Eu já fiz um vídeo sobre os 14 subsistemas sociais de Müller ...



... mas é importante também esclarecer teoricamente o que é cada um desses subsistemas, exercício que faço dentro de uma livre interpretação minha, baseada no tudo o que pude ler de Waldemar De Gregori, professor de sociologia daqui de Brasília.

A preocupação dos estruturalistas da antropologia na época de Müller era chegar à organização social básica comum a todas as sociedades, desde as menores até as maiores, das mais urbanizadas às mais rurais ou tribais. E Müller, orientado por Radclif-Brown, chegou a esses 14 núcleos por onde uma sociedade consegue se organizar como um todo. Mesmo sendo categorias estruturalistas, podemos levá-las à uma compreensão de organização de Todo e de Ecologia Humana, uma vez que podem ser compreendidas como partes que só fazem sentido quando são relacionadas ao todo que as mesmas compõem. São eles:

S1 - Parentesco - Cada pessoa tem um grupo próximo ao qual se referencia. Nesse grupo desenvolvemos alguns papéis, tipo mãe ou pai, filha ou filho, tia ou tio, sobrinha ou sobrinho, avó ou avô, dentre tantos outros. Esses papéis ajudam a configurar a nossa personalidade e também nos instigam a pensar valores relacionados às etnias, aos gêneros, à família, à moral, à sexualidade. Esse subsistema nos organiza em crenças, atitudes, potenciais. Muitas vezes nos compõem em espaços aprisionados que desafiam nossa força de libertação e transformação. É o primeiro subsistema por estar na base da formação humana, ou seja, qualquer pessoa social viva nasceu de um outro ser humano que foi fecundado por um terceiro, Qualquer pessoa viva é uma unidade que precisa ao menos de mais dois para existir. Sem três (eu, minha matriz e meu progenitor) não há (ainda) vida humana.

S2 - Saúde - Cada ser humano social vivo habita um corpo fisiológico coordenado por uma biológica, ou lógica de vida. Esse subsistema coloca nas sociedades aquele personagem responsável por cuidar disso, seja um pajé, um xamã ou mesmo um médico, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo e outros muitos profissionais da saúde. Por aqui passam os aspectos de higiene e as políticas de manutenção da vida. Nesse subsistema entram todas as medidas preventivas e curativas que as sociedades criaram ao longo do tempo. Nesse subsistema estão os trabalho de consciência da vida em sua plenitude e também em sua finitude. Trabalhar a morte e todo o medo vinculado a ela fazem parte deste subsistema. Aqui entram também os sentidos de libertação e transformação social, dando um caráter biológico ao viver e morrer.

S3 - Manutenção - Todos os grupos humanos se organizam em torno da sobrevivência de cada um e de todos e esse subsistema trabalha isso: alimentar para viver e compartilhar aquilo que nos sustenta. Aqui cada sociedade desenvolve a melhor estratégia de manutenção pessoal e coletiva. Como produzir, o que produzir de acordo com a geografia, como armazenar, como distribuir e cooperar para a sobrevivência de todos. Aqui são trabalhados os excessos e harmonias. Sociedades consumistas derivam de uma desregulação desse subsistema, pois estimulam o consumir mais por prazer do que por necessidade, comprometendo nossa lógica de vida ou biologia. Comer, beber, dormir, vestir são alguns dos aspectos que compõem esse subsistema.

S4 - Lealdade - Nossa capacidade afetiva nos fez seres gregários. Nesse subsistema entram todos os códigos criados a partir dessa capacidade. As rodas de celebração ou os clubes das grandes cidades são expressões desse subsistema. O sentido de pertencer, as agremiações, o desenvolvimento da capacidade afetiva verbal ou não verbal, saber dar e também saber receber afeto fazem parte desse subsistema social e cultural. Os partidos políticos que traduzem nossas visões de mundo, as cooperativas que nos ajudam a distribuir nossas produções, saber distinguir quem são os amigos e que são os inimigos, enfim, tudo que esteja relacionado a nossa capacidade de associação e construção de grupos cabe dentro desse subsistema e cada sociedade possui as expressões do mesmo.

S5 - Lazer - Toda sociedade vive de trabalho e lazer. Uma sociedade que é só trabalho, sem os momentos de lazer, é uma sociedade humanamente desregulada. Nesse sentido, cada agrupamento constrói suas possibilidades de lazer. Descansar no ócio, passear, apreciar a natureza, ler um bom livro ou assistir um bom filme, desenvolver os hobbies, cuidar de si e do outro, contar "causos" nas rodas, rir de si  e sentir prazer em viver, estar contente e produzir contentamento nos demais são expressões desse subsistema social. Nossa sociedade criou as horas de trabalho e nos fornece os períodos de férias e os finais de semana, que são os momentos dedicados ao lazer. Sem lazer não há vida saudável. Balancear o trabalho e o descanso é fundamental para a manifestação de uma sociedade saudável. Todos nós temos direito ao trabalho e ao descanso.

S6 - Viário - Esse subsistema ressalta a importância do ir e vir e do comunicar. Desde os tempos mais remotos os seres humanos criaram as suas formas de comunicação para facilitar a sobrevivência e a parceria. Quando inventou a roda, nossa espécie facilitou o encurtamento das distâncias. Isso foi refinado ao ponto de termos hoje nossa rede mundial de computadores, onde estamos todos interconectados em tempo real sem precisarmos sair de nossas casas. Nesse sentido, esse subsistema fala de uma de nossas características mais marcantes: o gostar de nos aproximar. Ainda que existam teorias que defendam que o ser humano é um animal por natureza competitivo, esse subsistema e tudo o que pôde ser desenvolvido dentro dele indica o quanto somos cooperativos e precisamos uns dos outros. Criamos meios de transporte cada vez mais eficientes pela terra, pelo mar ou pelo ar e fizemos nossas mensagens viajar à velocidade da luz. Aprendemos as línguas estrangeiras para melhor nos comunicarmos no planeta e temos como um dos programas favoritos da maioria das pessoas o conhecer outras nações, outras culturas, outros saberes. Somos mestres nas construções e compartilhamentos de informações.

S7 - Educação - Não seríamos o que somos se uns não educassem os outros. Aquilo que aprendi passo em frente aos pequenos que chegam. Aquilo que alguém criou passa a ser conteúdo ou prática transmitida aos outros. Produzimos informações e a organização delas em campos maiores é feita pelas vias da educação. Sistematizar e transmitir informação faz com que nos ternemos sábios. É por essa razão que só a informação não basta. Ela precisa ser aperfeiçoada e transmitida, e isso cabe a este subsistema. Assim, com o tempo fizemos escolas, faculdades, instituições de qualificação e aperfeiçoamento. Não é possível afirmar que "estamos prontos e não temos mais nada a aprender". A vida é uma constante troca de experiências e de novas aprendizagens. Nosso cérebro é plástico e está sempre em transformação. Mesmo que eu esteja plenamente capacitada em uma área preciso sempre estar em reciclagem. Nascemos inacabados e assim morreremos.

S8 - Patrimonial - Esse subsistema é controvertido, pois fala de patrimônio e isso pode abrir brechas para a defesa da propriedade privada. Na verdade a vida é um patrimônio de todos e de qualquer um, assim como a terra para nos sustentar enquanto seres vivos. Esse subsistema destaca a consciência do "piso mínimo e do teto máximo", ou seja, todos tem direito ao mínimo necessário para viver em termos de abrigo, alimento, lazer, ar puro, água potável e devem também respeitar o máximo de forma a não se tornar escravo do material. A humanidade criou as vias de troca e isso culminou naquilo que chamamos "economia". Atualmente o patrimônio está vinculado ao valor monetário do capital, mas ele não pode ficar preso a isso. É "patrimônio" todos aqueles bens culturais e sociais que são imateriais. Se pensarmos que todas as comunidades possuem esse subsistema, de acordo com a tese de Müller, temos que considerar que o patrimônio é aquilo que é comum também, pois em certas tribos existe a compreensão que o que é da Terra não pode ser apropriado por uma pessoa exclusivamente. Aqui a sociedade capitalista tem muito a aprender com outras sociedades para poder avançar mais na direção de uma sociedade mais equânime e justa.

S9 - Produção - Esse subsistema envolve a dimensão da criação, da produção de bens e arte e todos os tipos de trabalho que existem, dos mais concretos aos mais abstratos. Toda sociedade se organiza em torno dos trabalhos e das especializações. Esse subsistema é o que atua quando um jovem escolhe uma carreira e aprimoramos uma profissão, que é um lugar que eu ocupo na sociedade. Esse subsistema nos lembra que todas as práticas profissionais são dignas e necessárias ao sistema macro social e, portanto, todas devem ser valorizadas e dignificadas.  Nesse subsistema habita a lembrança de que não basta ser um "bom empresário", sendo também fundamental ser um "empresário bom". Como espécia viva e cultural produzimos conhecimento, práticas, arte, saberes. São muitos e variados os campos de produtividade e criatividade. Todas as nossas manifestações de criatividade plástica estão representados nesse subsistema. O ser humano produz, é criador.

S10 - Religioso - O medo do desconhecido nos fez criar as divindades. No começo elas eram poderosas e ameaçadoras, depois passaram a ser a fonte da certeza de uma vida mais digna após a morte. Um dos subsistemas mais controvertidos é o religioso, pois ele não é da dimensão da razão e, todavia, é por ela apropriado. Quando FÉ passa a ser razão entram em campo as guerras religiosas. O coerente é saber respeitar as múltiplas leituras de religiosidade, pois cada sociedade e cada cultura irá forjar a sua. O que é comum a todas as sociedade é a necessidade de achar uma via de esclarecimento ao imponderável. É por essa razão que as primeiras formas divinas estavam diretamente associadas às expressões da natureza: o trovão, o arco-íris, a força da terra e a força da água, a força do fogo e a força do vento. Há aqueles que veneram o Deus antropomórfico e há aqueles que defendem que a experiência divina é a conquista da dissolução de si enquanto ser antropomórfico. A religiosidade e a busca constante pelo diálogo com o invisível e seus poderes é algo que acontece em todos os agrupamentos humanos, dos mais arcaicos aos mais atuais.

S11 - Segurança - Quando encontramos um território com terra boa e água corrente acampamos aí para descansar a caravana. Segurança está relacionado à certeza e à garantia de sobrevivência. Com o passar do tempo fizemos nossos exércitos e desenvolvemos armas cada vez mais potentes. Tudo para garantir essa sensação de "segurança". Dessa forma, todas as organizações humanas possuem seus guerreiros. Todavia esse arquétipo tornou-se também uma categoria controvertida. Na verdade a segurança nasce do medo, sentimento básico que nos garante a sobrevivência e a chance da vida perpetuar a si mesma. O que precisamos é a paz como certeza de harmonia entre seres vivos. Mas a natureza é implacável e muito mais poderosa que nós, enquanto espécie. Daí a sensação de estarmos sempre numa incerteza geradora de insegurança. O dia em que compreendermos bem esse subsistema conseguiremos um mundo mais unitário, constituindo cada um de nós em um cidadão planetário. Isso tem relação com a capacidade de compreender o "medo" e o "inimigo". Uma base fundamental de nossa psique.

S12 - Político - Grandes Todos precisam de organização. Essa organização funciona por retro-alimentação, vinda de nossos próprios recursos. Esse subsistema caracteriza, então, a capacidade do Todo em organizar-se. Assim nós criamos lugares sociais de gestores, líderes, organizadores, planejadores, administradores. Esse é o sentido de política, que é o lugar que pode ser ocupado por aqueles que conseguem ter visão de todo e conseguem nos organizar como o Todo que somos. É o mais perigoso dos subsistemas, pois lida direto com o poder. Esse poder pode desviar o sentido do subsistema, pois posso usar o poder para mim ou para o outro. Nessa díade básica de organização (eu-outro) psíquica encontramos uma das maiores armadilhas do ser humano, pois à custa disso toda a sociedade pode sair perdendo. Passamos a ser diferentes e não iguais, quando a nossa igualdade é o que garante a manifestação de nossa diversidade. Sobre esse subsistema digo: basta olhar o mundo que aí está e ver no que se converteu nossa necessidade política.

S13 - Jurídico - Por compreender que somente o político não resolve nossa organização social, criamos os grupos de pessoas que precisam conhecer os dois lados da moeda dicotômica (eu-outro), para poder resolver impasses e tensões encontrando o melhor caminho do meio. Assim fomos imprimindo nos papéis nossas regras, nossas leis, nossas morais e transformamos isso em conduta social a ser manifestada na prática de vida. O subsistema jurídico é fundamental em todas as sociedades para produzir a justiça social e a garantia da vida no planeta. O direito, a justiça e as normas, mas também saber que sou parte de um todo e que só vou conhecer meu lugar aí se eu conhecer esse todo. A maioria de nós está sujeito à leis que não conhece. Portanto, aqui vale mais questionar do que afirmar: Conheço as diretrizes? Compreendo a ética? Conheço minha identidade social? Tenho uma visão de mundo? Quais seriam as leis que eu gostaria de defender?

S14 - Precedência - Esse é o subsistema que mais demorei para compreender. Ele aparecia colocado como o "êxito", a "elegância", a "promoção" e isso me chegava muito como o "triunfo do ego". Mas a maturidade me fez compreender esse subsistema. Ele representa aquilo que cada um conseguiu conquistar na construção e configuração de se Eu no mundo. Somos seres sociais e precisamos uns dos outros para sobreviver. Somos uma espécie na qual natureza e cultura são elementos essências para constituir o que somos e cada um precisa alcançar a consciência desse lugar. Precedência seria "daquilo que vem antes, do que precede". Aquilo que vem antes é minha formação, aquilo que me constitui, os caminhos que andei que me fazem Eu. Mais do que bem vestir-me ou bem apresentar-me, esse subsistema lembra que eu preciso construir esse caminho, cada um de nós, mirando sempre a humanidade como um corpo único que precisa crescer e se desenvolver. Com precedência, todos nós, chegaremos no respeito.

E para terminar esse longo texto lembro que, como psicóloga, preciso dominar a ciência do todo e a ciência da parte. Esse é um dos lugares desafiantes de nossa sociedade, um dos papéis mais difíceis. pois lidando o tempo todo com as representações sociais que confunde-se na fronteira entre o senso-comum e o científico. Eu gosta de primar pelo científico e o vejo camuflado em todos os subsistemas que aparecem nessa categorização de Müller. Gosto de transcender, mas gosto fazer isso com asas fortes. Esse trabalho que apresento é o resultado de uma pesquisa. Sem nossos cientistas, nada disso que coloquei acima nesse texto teria sido possível. A ciência pode ser considerada, também, um de nossos subsistemas básicos, pois ela surge da dúvida e da necessidade de encontrar caminhos para sobreviver. E é a própria ciência que está nos levando ao sentido de Todo novamente. Por isso um dos marcadores desse texto é ECOLOGIA.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Quem adoece é o todo e não a parte

       Nossos sintomas são nossos parceiros de caminhada. Quando aparece um sintoma, seja ele psíquico ou fisiológico, importante compreendermos o que esse sinal procura alertar. Posso passar por ele mais descompromissada, olhando-o como se ele fosse isolado de um todo maior. Entretanto, quando permito ampliar meus receptores, percebo que esses sinais fazem parte de um caminho de desenvolvimento e podem me ajudar a crescer e transformar.
       Já comentei em outras postagens que transformar dá trabalho e assim adiamos a transformação para um dia qualquer, que não sabemos bem qual é. Todavia, quando emerge um sintoma forte o sistema está falando: luz vermelha, há algo em seu percurso que é necessário atentar. Um sintoma que cresce sem desvios pode levar o sistema todo a colapsar.
       Mas existem os remédios e eles aplacam os sintomas. Quantos são os pacientes que perdi para os remédios! Nem tenho como contar. "Ah, agora estou tomando remédio e dormi bem!" ou "Ah, agora estou tomando o remédio e consegui acordar bem!" ou "Ah, agora estou tomando o remédio e consigo o foco no meu trabalho e estou mais calmo com meus filhos!" E por aí afora!
       Só que desconsideramos que nosso cérebro, por funcionar por auto-regulação, pode produzir substâncias por ele mesmo que podem regular meus sinais psíquicos e corporais. Só que para conseguir isso, não posso adiar uma transformação para um dia qualquer que nunca chegará.
       Quando falamos em sintomas fisiológicos soma-se a possibilidade de compreendermos que o sintoma "veio por agente externo". Uma gripe foi um vírus, uma inflamação foi uma bactéria, um desarranjo foi um fungo. Só que com isso anestesiamos a noção de que o fungo, ou bactéria ou vírus se desenvolveu em mim, um corpo integrado. São níveis qualitativos distintos, um fisiológico, um emocional, outro racional, mas todos são camadas da mesma unidade.
       Não sou a primeira que vou defender isso e nem serei a última, mas considero relevante aproveitar o sintoma para crescer, para desenvolver, para transformar. Existem livros que universalizam os signos, mas defendo que os mesmos precisam fazer parte de um diálogo com o ser singular que apresentou o sintoma. Talvez uma reação alérgica nos pés (muitas vezes resultantes de uma colônia de fungos que escolheu esse local para se desenvolver) pode significar "não quero caminhar", mas talvez possa significar "cansei de caminhar". Quem sabe possa ainda significar "quero alguém para caminhar comigo" ou "cansei de caminhar ao lado desse alguém". Não temos como determinar, não temos como precisar. Estaria algo nos pés ligado ao caminhar? Ou estaria ligado ao suportar, ao estabilizar, ao parar? Muitas possibilidades se abrem.
       Daí a importância de falarmos em sujeito. O sujeito do sintoma. Nenhum profissional tem o direito de marcar um singular com o social, ainda que de saída saibamos que esse sujeito só existe por ser social. O singular precisa do direito de fala. Nosso trabalho é encontrar armadilhas, desarmar contradições, indicar confluências, sinalizar gatilhos, apontar desdobramentos.
       Um bom profissional de saúde educa para a consciência e não se sobrepõe, assumindo um lugar de dono do saber, de portador de todos os códigos e de detentor da resolução. Podemos conhecer as medicinas, podemos colocar em confrontos as experiências daqueles que nos procuram, mas jamais devemos assumir o lugar de soberano ante todo o saber.
         

Pierre Rivière e as traduções de sua ação

       Aos que estudam psicologia, e querem sustentar o título de profissional do psique, recomendo a leitura de "Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão", coordenado por Michel Foucalt e publicado em 1973.
       Essa obra mostra o cuidado que precisamos ter ao estarmos no nosso lugar de "intérpretes" do psiquismo. Primeiro por que Foucalt sempre lembra da relação entre poder e conhecimento. Depois por que, ao estarmos cientes da subjetividade, sabemos que não basta ouvir por uma via, pois isso despreza todas as outras múltiplas vias de compreensão de uma história. E, por fim, por nos ensinar sobre as disputas entre saberes que levam ao assassinato do sujeito da ação. 
       O assassinato do sujeito da ação nessa obra culmina com o desrespeito ao sentido que o sujeito queria dar à sua vida, que seria a sua morte. No caso relatado, um fato ocorrido em 1835, uma ação revela alguém que matou para morrer. Um Eu que não matou, mas que morreu. Um Eu que matou para matar a si. Como condenar? Como traduzir?
       A discussão que está em foco é a disputa entre dois saberes superiores: o médico e o jurídico. Esses dois saberes, no tempo em questão, divergem sobre a razão e a des-razão. Se a ação é um discurso, o que ela fala? Quem eu vejo na ação? Um louco ou uma besta? Um delírio ou uma intenção? O curioso é que aquilo que para uns era sinal de loucura, para outros era sinal de lucidez.
       Destaca-se o contexto tão bem trabalhado pelos autores do livro, uma época em que a morte entra em foco e a justiça debate o matar em glória de soldado, que é o matar autorizado pela sociedade, e o matar do assassino frio, aquele sem louvor e colocado em tom de desprezo. Ambos são matar, mas são pesos distintos numa sociedade que se faz hipócrita. O assassinato torna imortal o guerreiro, mas garante o nome sombrio do criminoso. Que linha tênue habita o intervalo entre o legítimo e o ilegítimo na ação de finalizar a vida de outrem. É o próprio Foucalt que debate o cuidado em que se operam as divisões entre o "gesto glorioso do soldado" e o "ato vergonhoso do assassino". Nessa linha se forma uma sociedade patriarcal que tem no poder da vida e da morte o seu desdobramento. Como manter a integridade social quando alguns são autorizados a matar?
       O encanto nessa obra mora na elucidação de quatro vozes: a do sujeito da ação, a do povo em torno da ação, a do saber judiciário e a do saber médico. Quatro séries de discursos que indicam deslizamentos de sentidos e contradições. O objetivo do grupo de trabalho que Foucalt coordenou e que resultou na obra publicada foi: "explicar como se operam os deslizamentos, como se determinam estas contradições" partindo de confrontações entre essas quatro narrativas.
       O mais incrível dessa aventura é ver que numa mesma ação interpreta-se o sujeito como louco ou como um gênio, como um idiota ou como um ser extremamente sagaz. Na verdade, o que está em jogo é o assassinato do sujeito, só que no caso de Pierre Rivière não conseguem. Ele se faz sujeito de sua intenção até o fim.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O Eu virtual e o Cérebro (neuro)plástico

       A neuroplasticidade é a propriedade que possibilita ao cérebro modificar sua própria estrutura e seu funcionamento em resposta às atividades concretas e experiências mentais. São atividades concretas aquelas que entram no sistema via captores de externalidade. Audição, visão, olfato, paladar e toque, são as mais conhecidas, mas temos também o sentido proprioceptivo, um sistema multi-sensorial/sensitivo. A propriocepção existe por existirem sistemas sensoriais/sensitivos particularizados. Ela é um todo que não é igual à soma de suas partes. Ela integra o todo material e imaterial de nosso corpo. Localização, limiares, expressões, amplitudes, postura, movimento - ser aí no mundo sendo um cérebro neuroplástico em vida.
       A neuroplasticidade substitui a ciência do localizacionismo, sistema teórico que defende o cérebro como determinado, particularizado e fixo. Da mesma forma, com a neuroplasticidade alcançamos um sentido de Eu que perde o determinismo, a particularidade e a fixidez. Nesse universo o Eu passa a ser um todo formado por partes, sendo que as partes só existem por existir um todo e o todo só existe por existirem as partes. Este é, portanto, um Eu virtual, pois é não localizado, globalizado e inter-atuante.
       Os avanços dos estudos sobre a neuroplasticidade corroboram pensamentos teóricos de Freud, Jung e até mesmo de Reich e sua percepção corporal da formação do caráter. Há uma confirmação científica de que a construção do Eu, na relação com o outro, nos transforma em Eus virtuais. Somos imagem de Eu, não uma fonte emanadora de sentido exclusivo, mas um jogo de espelhos que não nos permite definir onde está o objeto. Somos todos loucos em um descontrolado looping cerebral e isso está ligado à nossa história pessoal e ancestral.
       Sabendo o Eu que não existe o que poderia acontecer?
       Esse conhecimento é a curva, a chance de ir para entropia ou anatropia. Daí a importância de inserir a discussão sobre a intenção e a consciência. Pelo que existe, precisamos ser um Eu para estar no mundo, compondo o mundo com uma multiplicidade de Eus.
      Temos na propriocepção, então, uma via de trabalho da auto-regulação, sendo este um trabalho fácil e difícil ao mesmo tempo. Transformarmos a nós mesmos e proporcionarmos nossa saúde tem na plasticidade neural sua benção e sua maldição. Entendi isso ainda mais neste janeiro de 2019 com a ajuda da leitura do livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti, da Cia. das Letras, 1997. Eu levei comigo para as férias o livro O cérebro que cura, de Norman Doidge (2016), pois queria aprofundar o estudo do Eu virtual e dos jogos de intenção e compor esse post. Todavia, chegou em minhas mãos o livro sobre o  auto-engano de surpresa e com a leitura desse livro fortaleço essa discussão, pois com ele compreendi que a propriocepção é um sistema montado sobre o auto-engano. E agora? Como trabalhar para que o Eu pare de se auto-enganar e possa, assim, se auto-regular? E mais: como fazer isso se não existe um Eu?
       Esse trabalho é complexo pois, de acordo com a neuroplasticidade, precisamos integrar neurônios que estão separados e separar neurônios que estão integrados. Precisamos despertar aqueles bons que estão adormecidos e adormecer os ruins que estão ativados. As dores derivam de plasticidades descontroladas, pois áreas que regulam certas atividades vitais foram sequestradas para processar o sinal da dor. Já falei em outra postagem sobre o cérebro ruidoso e, para que o entendimento se amplie, preciso compartilhar o tema do Eu virtual e provocar o debate defendendo que o Eu só será real quando estudarmos em ciência de primeira pessoa. Os estudos neuroplásticos confirmam que descobertas científicas são feitas quando os médicos profissionais se tratam (Doidge, 2016). Muitos avanços partiram de pessoas que adoeceram e fizeram ações concretas para a sua recuperação. Saúde, dor, neurose são campos de ação da neuroplasticidade e precisam de um Eu intencionado para se transformar. Se eu crio a dor, eu também a des-crio mas, sendo o Eu virtual, quem cria e des-cria?
       O Eu virtual, na verdade, começa com o corpo virtual. Temos uma imagem corporal formada na mente e representada no cérebro e daí, inconscientemente, projetada no corpo. É um corpo virtual, pois possui certa independência do corpo físico. É uma imagem construída a partir de múltiplos estímulos de diversos mapas cerebrais que envolvem principalmente a visão, o tato e a propriocepção, assim como de qualquer mapa que possua registro informacionais de sensitividade e emoções em nosso sistema neural. A imagem corporal representa "o conjunto dos diferentes estímulos dos vários sentidos para o cérebro, mas inclui também as ideias carregadas emocionalmente que a própria pessoa tem sobre seu corpo." (Doidge, 2016, pag. 48).
      O Eu é e não é em um corpo imaginário projetado no real. As construções que fazemos de saúde ou de doença são produtos dessa plasticidade do ser e não ser em projeção. O paradoxo está em que é no Eu virtual que reside a entrada e a saída do sistema. O Eu que é e que não é é quem vive e dita o que vai viver. Não somos loucos, não temos dores. A única coisa que temos é, talvez, um cérebro que tenha dificuldades de virar páginas. Sou um Eu virtual que acredita que vive o que vive. E quanto mais eu fixar, mais neurônios eu vou sequestrar para essa fixação.
      Para um outro post merecemos falar sobre a humanidade como um grande cérebro que tem um Eu virtual. Tal como os neurônios de nosso corpo, que estão todos interligados, os humanos também estão por suas tramas sociais e culturais-históricas. Mas isso é a delícia do tema da subjetividade social, que merece mesmo debates dialógicos próprios. Para finalizar, deixando o gancho, só peço com gentileza ao seu Eu virtual que se recorde que está no mundo e que o mundo existe. Ou não?
       E lembro que a psicologia ajuda cérebros a virar páginas. Esse tem sido o nosso trabalho cotidiano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Para a Psicologia Comunitária e além

       Um dos campos que estudei com mais profundidade nos últimos quatro anos foi a Psicologia Social Comunitária. Esse campo de estudos e de ação (pois em meu entender pode ser considerado uma ciência aplicada) tem nuances desafiadoras, pois trabalha a integração entre a pessoa e seu espaço coletivo e/ou social.
       Para ampliar minha compreensão sobre esse tema da relação entre o singular e o coletivo plural tenho dedicado anos de estudos a alguns autores, dentre eles Edgar Morin, Humberto Maturana, Ilya Progogine, Fernando González Rey, dentre tantos outros. Recentemente tenho dado tempo de estudos à propriocepção e à neuroplasticidade, linhas complementares ao ser psicóloga. Atualmente estou em parceria com Francisco Varela e sua possibilidade de consolidação da ciência em primeira pessoa, estudos que fundamentam a defesa de minha tese da pedagogia de si em si. Talvez eu tenha entrado em campo obscuro, mas talvez eu esteja em campo muito fértil para os tempos atuais do viver humano. O que me faz sentir segurança é Capra e Luisi em seu "A visão sistêmica da vida", laço importantíssimo na tecitura dos nós e fios que sustentam a rede que me sustenta em meus saltos.
          As epistemologias de complexidade e subjetividade nos indicam vias de compreensão do funcionamento dos grupos e dos coletivos. A subjetividade é uma categoria que consegue reunir o todo no campo da psicologia e merece ser estudada para ser bem compreendida, reverberando isso na operacionalização do Todo. A complexidade é o tudo no todo e se auto-define. Eu as trago aqui como fundamento e plataforma.
       Por muito tempo a subjetividade foi tomada só pela singularidade e, portanto, sua compreensão como algo passível de abarcar o grupo demorou para acontecer. Todavia, atualmente já temos a categoria subjetividade colocada como possibilidade de compreensão do todo complexo e as conversas podem subir alguns tons e, quem sabe, algumas escalas.
       Quando falo de psicologia comunitária, falo de trabalho nos sistemas e falo em multidimensionalidades. Na ação concreta de profissional preciso conscientizar-me de qual sistema trabalho: se é o grupo ou a comunidade ou ainda, a sociedade. Esses agrupamentos possuem diferenças qualitativas, mas possuem semelhanças funcionais. Respondem aos mesmos princípios por serem sistemas, mas guardam sempre em si sua característica singular. Esse pensamento os colocam em semelhança, mas nunca em igualdade.
       Nós, como espécie humana, formamos grupos para a nossa sobrevivência e, enquanto grupo, precisamos nos autorregular. Da mesma forma que um sistema vivo se autorregula na sua singularidade (um corpo biológico), também um grupo se autorregula como unidade, como um corpo.
      Como integrante do grupo eu preciso visualizar o que o grupo precisa, para além do que o que eu preciso, ou melhor, do que o Eu precisa. É um exercício difícil conjugar o Eu no Todo sem perder o Eu e sem perder o Todo. E, como tensão inerente, o maior medo do Eu é perder-se para sempre no Todo. Aqui evidencio o que muitos autores colocam como "a morte do ego".
       Um dos tópicos que defendo é que nessas investigações de psiquismo é bom usar o "si mesmo" para descrever ou avaliar uma situação. A referência seria: qual a experiência do "si mesmo"?
       Em tempos de defesa de meu doutorado e não compreendia muito bem, mas hoje entendo por qual razão os doutores e doutoras de minha banca de defesa me interpelaram: que "si mesmo" é esse? - colocando no debate um tom de temor!
       Na minha inquietação sobre o si mesmo, que não pararam após minha defesa de tese, encontrei os debates sobre o self, categoria controvertida nos campos de pesquisas de meus pares. O self fala de si quando deveria falar do outro? Como falar do outro se não por meio do self? Como é possível considerar isso ainda científico? O self existe? Ou ele é um puro reflexo do Outro? Como validar um espelho sem ter clareza do objeto que produz a imagem?
       Aquilo que posso chamar de meu contexto histórico e cultural coloca na conversa assuntos curiosos do tempo contemporâneo em que percebo a Inteligência Artificial não mais como "ficção científica de filme", mas como realidade factual de nosso cotidiano. Ver eleições presidenciais sendo decididas em espaços de IA me indicam isso claramente. Temos ao nosso favor um espaço cognitivo que, cada vez mais, atua de forma interventiva no sentido de ser humano subjetivo no mundo. Estamos vivendo novos modos de subjetivação e ainda não conseguimos alcançar plenamente o que isso representa. A realidade está claramente manipulada e posta ao serviço do imaginário social.
       Então, a Psicologia Comunitária precisa se apropriar cada vez mais do entendimento do que são redes, do que são conexões, do que são tensões e processos, do que são os encapsulamentos, do  que são as ativações, do que é o conhecimento e qual sua relação com a ação, do que é o Todo e do que é o self.
     Como profissional da psicologia prefiro usar a categoria subjetividade à categoria comportamento. Comportamento é uma categoria da mente analítica e essa mente corre o risco de tomar a parte pelo todo. A subjetividade, por sua vez, coloca em evidência a parte, o todo, o passado, o futuro, o singular e o coletivo e auxilia na produção da mente não-analítica e não-linear.
       Subjetividade é o que vivemos agora e no agora está o sujeito. Sujeito, na teoria da subjetividade  de González Rey e também no pensamento de Touraine, é a tensão do singular com o social, algo inerente à condição de ser. Sujeito desperto é bom, mas não é fácil! Muitas vezes a pessoa defende estar posicionada em sua opinião, mas ela está sendo levada pelas tensões do Todo e do histórico-cultural. O estruturalismo defendeu que somos vividos pelo coletivo, que não tem sujeito, Mas a sociologia se curvou ao sujeito, dando seu lugar novamente após seu martírio científico. Como fazer para eu saber se sou sujeito ou se estou assujeitado?
       Nesse sentido, recomendo o espetáculo Nanette, de Hannah Gadsby, disponível na Netflix. A autora e intérprete mostrou seu trabalho com a tensão e fez uma leitura de mundo de impressionar. Seu trânsito pela subjetividade (social, para não perder o sentido de dialógica singular e todo) foi magistral. E ela apresenta o mundo em mudança e a relação da mudança com a resistência.
       Gostei muito desse espetáculo, pois como psicóloga, trabalho com tensão. E é só olharmos um mínimo mais atentos que vemos o quanto nosso mundo de hoje está em tensão. E tensão é espaço para emergência de sujeitos. Ou não!
       Na relação entre o singular e o todo, entre o pessoal e o social, existe um fenômeno que é:
- quanto maior o posicionamento do sujeito, maior a tensão. Essa tensão ou fará revolução ou fará o extermínio do sujeito. É aí que temos as histórias dos heróis, dos mártires e também dos anônimos que vivem um dia após o outro sob uma tensão coletiva que sisma em mover o curso da história.
       Lembro que o foco desse texto é a produção de uma mensagem para a psicologia comunitária. Lembro que não existe outra possibilidade de olhar o mundo que não seja a partir do Eu. Lembro que os estudos do Eu estão entrando nas vias da "mind with no self" e que o Eu precisa ser um agente duplo que transita entre o universo da mente e da não-mente, do ser e do não-ser, do todo e da parte.
       Quando falamos de revolução, de que REVOLUÇÃO estamos falando?
       Eu falo de revolução de percepção! O mundo irá mudar muito quando a percepção mudar. E precisamos considerar nosso lugar de Eu no todo e desenvolver os estudos em primeira pessoa e a partir daí validarmos nossas teorias, ou não.
      Reflexão, posicionamento, ação e conexão. Essas são nossas possibilidade enquanto elétrons disponíveis para um sistema maior. Essa é a dica que dou para os trabalhos sociais comunitários: trabalhar nessas quatro instâncias da circunstância: REFLEXÃO; POSICIONAMENTO; AÇÃO; CONEXÃO.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Jung e o diálogo do coletivo com o individual

       Esse post começou a ser gestado em julho, agosto desse ano. E precisou ficar no forno por duas razões. A primeira, uma certa falta de tempo e oportunidade de estar sentada com o livro, numa mesa adequada e conseguir organizar minhas notas de leitura em um texto mais ou menos coerente. A segunda foi um total respeito à Jung e ao que ele falou. Não poderia ser leviana e colocar um post de Jung com superficialidade, com tentativas de me mostrar dominando o tema, com desrespeito ao que a leitura do livro O Eu e o Inconsciente me suscitou. Assim, considerando essas duas razões abro a permissão para falar sobre Jung e seus pensamentos.
       Eu acredito que compreendo o pensamento de Jung por ser uma jovem garota de 50 anos que estudou com bons professores e que já faz parte de um tempo novo nas linhas do conhecimento. Só por essa razão me atreveria a debater aqui suas ideias, pois ser especialista em ecologia humana me facilita a compreensão de muitos códigos.
       Eu estudei Jung mais profundamente para colocá-lo em nosso primeiro livro (A subjetividade social na escola, 1999), pois imaginava que ele poderia dialogar com a subjetividade de González Rey, e também por um respeito histórico a alguém que falou em inconsciente coletivo num tempo, o que me validaria estar falando em subjetividade social naquele meu hoje.
       Esse ano voltou um chamado para ler Jung e um encontro com esse livro na minha estante. Tenho uma coleção de livros de Jung que herdei de uma professora querida. Eu os tenho para ler quando tiver o tempo. Assim, vendo os muitos, resolvi retomar esse estudo por esse livro citado, cuja leitura me revelou coisas importantes, e que busco aqui-agora compartilhar.
       Estudar Jung esse ano foi como mergulhar nos mares que abriram as portas para o entendimento de uma psicologia transpessoal. Quando ele propõe que o inconsciente tem uma dimensão que é coletiva, ele proporciona uma amplificação ao sentido da personalidade, do psíquico e do diálogo do singular com o coletivo. A pessoa individual, formatada biologicamente pelo corpo, nasce una. Mas é engolida pelas ondas das matrizes arquetípicas que dão a este antropomórfico uma corrente de influências inconscientes que lhe ajudam a organizar o ser Eu no Todo do humano no mundo.
       Anterior a muitos outros, pois esses escritos são de 1916, 1928, ele ousa trazer ao científico o marginal subjetivo. Freud forjou o inconsciente do eu e colocou o objeto fora, no outro. Jung forjou o inconsciente criativo, pulsante de possibilidades, magnificamente compartilhado no tempo e no espaço, desde que o humano fez-se humano, e por onde e quando ainda for fazer-se. O inconsciente não como um depósito da história pessoal, mas como conteúdos psíquicos transpessoais não inertes ou mortos e que não podem ser manipulados à vontade, pois são entidades vivas e que exercem força de atração sobre a consciência (p. 20).
       Assim, estranhos caminhos pode seguir a personalidade ao tentar lidar com sua individualidade (temperamento?) e sua coletividade (caráter?). Completamente jogada no círculo sem fim dos pares de opostos, vive a tensão entre o ser lúcida e não ser. Ser Eu e não ser. E, por incrível que pareça, em Jung a morte do singular impede o avanço do coletivo. Transpessoal e paradoxal é a vivência do psíquico, pois existe um realizar de si mesmo que seria o mais singular. Se vou muito ao coletivo, alieno-me. Por outro lado, o coletivo precisa que eu faça esse caminho de individuação. O coletivo e o individual possuem um diálogo mágico de auto-criação e criação mútua.
       O individuação seria o processo de despojar-se (o si mesmo) dos invólucros falsos de uma persona e de poderes sugestivos de imagens primordiais. Seria a possibilidade de ser singular sabendo-se no e do todo.
       Para Jung o inconsciente e o consciente não operam por oposição e sim por um princípio dialético e o "si mesmo" é os dois em um. Para que isso fique claro, a pessoa precisa conhecer em si mesma esses conceitos e fazer o caminho do auto-conhecimento. Esse ponto é importante que eu traga, pois é um dos pontos de divergência com a teoria da subjetividade de González Rey, que prefere falar que o conhecimento de si é algo que não existe. E aqui cabe uma questão: o que seria o conhecer? Quem é o conhecedor? Onde habita o conhecimento?
       Outra questão importante, que não coloco como interrogação, mas como ponto de reflexão, é que encontro em Jung a menção à ciência em primeira pessoa. Em algum momento do texto ele ressalta: não basta ler minhas palavras (ou mesmo ouvi-las) para compreender os meus conceitos. Imprescindível vivê-los.
       Meu primeiro professor de Jung foi Doro, que foi também meu primeiro professor de psicoterapia e  foi a primeira pessoa que me levou ao processo de formação e conhecimento em primeira pessoa, então, posso afirmar que compreendo Jung, pois vivi em mim o processo da construção de si no todo. Os arquétipos, os mitos, a vida se misturando com o sonho, a plena incerteza de ser e até mesmo de estar, tudo em mim vivido e compreendido.
       Grata Jung! Grata Doro!
       Os estudos sempre continuam, mas a confirmação que certos saberes chegam somente em primeira pessoa é o que me anima a continuar e continuar a aprender e trabalhar. A difícil teoria de Jung nem precisa ser toda estudada e dominada para compreender que o que ele defendia era a integração do sujeito com o objeto e por aí devem seguir os caminhos de uma psicologia transpessoal. O viver é um jogo de espelho que mistura o individual com o coletivo e cada um deverá empenhar-se no seu próprio caminho de tradução de imagens que são realidades e de realidades que são meras imagens.
       Como tenho ainda um tanto de vida, ainda um tanto tenho para aprender sobre isso ...

JUNG, C. G. O eu o o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1971.
Um post de Dia de Reis. Agradeço ao momento de férias que me aproxima de meu blog.

domingo, 18 de setembro de 2016

Um caminho pedagógico

      A psicologia compreende algumas coisas e faz algumas propostas. Problematiza seu tema de estudo e produz alguns experimentos que lhe possibilite confirmar suas hipóteses.
      A pedagogia, por sua vez, busca caminhos de transformação pela via de construção do conhecimento. Ao contrário do que se defende em algumas instâncias, a educação é a possibilidade de ajudar um outro a produzir seu próprio conhecimento. A pessoa precisa conhecer o que já se produziu, mas com base nisso deverá produzir o seu próprio, senão o conhecimento não acontecerá nela. Ela irá se informar, se aproximar, mas poderá esquecer. Ou então poderá se mecanizar no encontro com o conhecimento, reproduzindo-o automaticamente, sem saber muito bem do que está falando, pois reprodução mecânica de informação não é relação de conhecimento vindo de um saber. Um saber que, como diria Baldani, vem de um sabor experimentado e conhecido.
       Um de nossos desafios no lugar de humano é a dialética da sujeição e do sujeito. A que Eu me sujeito? Um certo grau de sujeição é necessário, senão, não dialogo. Preciso sujeitar-me a onda social, mas posso dialogar com ela e tensioná-la. Esse é o jogo do sujeito e do social.
       A dificuldade nesse jogo mora no inconsciente, no oculto, pois ele é surpreendente. Entretanto, é aí que mora também o poder criativo, o poder de gerar o novo.
       O que é um condicionamento? Essa é uma das primeiras categorias que marca o caminho da psicologia como ciência. Algumas coisas passam a ser condicionadas. E quando isso acontece, não precisa mais sujeito. A pessoa funciona perfeita na onda social, sem tensioná-la. Por isso alguns de meus colegas trabalham para os grandes sistemas, ajustando as pessoas ao seu ciclo de forma que fluam, não sofram, produzam o necessário e permitam ao sistema seguir funcionando.
       Mas sabemos como psicólogos que o não condicionamento também acontece. Alguns saem da métrica e não conseguem ajustar-se ao normatizado. É aí que entra o grande desafio da psicologia: explicar os desviantes da norma.
       Então, percebam: uma onda social e um sujeito. Sou a onda ou surfo na onda? O que é a onda? O que é o sujeito? O que é uma pessoa assujeitada? Quem pode nos mostrar isso é um caminho pedagógico. O caminho do conhecimento. Do conhecer o mundo, aprender a lê-lo e conhecer o sujeito que lê o mundo, proporcionando a integralidade do conhecedor e do conhecimento.
       E a estratégia de uma pedagogia em si coloca o objeto integrado ao sujeito, na vivência concreta do conhecer. O que transforma é a pedagogia. A compreensão é subjetiva/objetiva e o processo é pedagógico de si e em si mesmo. O Eu em autopoiese.
       Muitos sabem o quanto a pedagogia transforma. Daí as constantes interferências e abandonos nesse campo. Muitos preferem seguir nos condicionamentos, tentando perpetuar uma robotização do humano. E nesse trabalho a psicologia abre seus leques e dialoga com outros campos, dentre eles, a pedagogia. O ser humano precisa estar no mundo, importante conhecê-lo sentindo-se parte dele.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A couraça e o caráter, em poucas palavras

       Wilhelm Reich foi um psicanalista que percebeu limites ou impossibilidades nessa via de compreensão do humano, avançando na tentativa de compreender a saúde e a doença por vias bioenergéticas (não só psico-energéticas).
       Freud marcou a história da psiquiatria e da psicologia por fornecer elementos impactantes que traziam o inconsciente como via de produção de sintomas, antes compreendidos como sintomas orgânicos. Seu tempo era de consolidação da psicologia como uma ciência natural, que buscava cada vez mais pautar-se pelo observável, mensurável, e ele apontou a necessidade de compreensão do imensurável e do não observável elaborado por vias indiretas e difusas. Freud fala de um aparelho psíquico organizado em Isso, Eu e Supereu que maneja uma economia energética via troca entre essas instâncias. Além disso, fala em dinâmicas de inconsciente, sub-consciente e consciente numa época em que a psicologia queria por toda força tornar-se uma ciência do comportamento perceptivo. Assim, os que vierem depois de Freud, seguindo seus passos, já partiram desse pressuposto por ele apresentado. Um deles é Reich.
       Reich observou que o corpo participava do processo psíquico uma vez que nossas defesas se transformavam em travas psico-físicas. Ampliando o que a psicanálise apresentava como mecanismo de defesa, defendeu que ao longo do processo de desenvolvimento do Eu ocorriam alterações crônicas que formariam o caráter. Em outras palavras, o que produz a formação do caráter seria a rigidez do Eu resultante de uma alteração crônica. O Eu fez isso para proteger-se contra perigos e ameaças, fez por estratégias de proteção. A esta estratégia de proteção crônica Reich chamou couraça. As couraças se formam como resultado crônico do choque entre as exigências pulsionais e o mundo exterior que frustra essas exigências. Isso corresponde a dizer que a criança, em seu impulso de vida, encontrou barreiras que a frustraram e que contribuíram para que ela construisse uma parede corporal de proteção. Para Freud essa parede de proteção estava nos mecanismos inconscientes. Para Reich essa parede chama-se caráter e se constitui numa integração do aparelho psíquico e do aparelho fisiológico. O caráter é uma maneira de portar-se no mundo em dinâmica psico-física conjugada.
       Assim sendo, essa rigidez ou enrijecimento vem acompanhando a pessoa e ela está tão acostumada a lidar com o mundo através dela, que passa a acreditar que essa forma crônica é ela mesma. Enquanto existe um benefício que se origina no caráter, o Eu nunca irá se questionar sobre ele. Todavia se, num dado momento da vida, algo começa a incomodar, o Eu irá deparar-se frente e frente com uma necessidade de transformação que implica seu corpo psico-físico. Se tiver coragem irá empreender um caminho longo e difícil de transformação.
       Nos tempos de Freud e Reich havia um determinismo aprisionante que colocava a mudança como algo raro, pois a cronicidade e a dificuldade de acesso aos pontos inconscientes dificultavam esse posicionamento mais maleável. Hoje os tempos são outros e a leitura de mundo e de humano favorecem às mudanças e as reconstruções de si. Em se falando de corpo, importante conjugar as múltiplas dimensões do humano em seu trabalho de reconstrução de si no mundo: corpo físico e corpo psíquico, marcando a unidade do sujeito.

Para saber mais: REICH, Wilhelm. Análise do caráter, São Paulo: Martins Fontes, 1989.

domingo, 12 de junho de 2016

Aprendizagem e sentido

       Hoje passei parte do meu dia corrigindo provas de psicologia social comunitária. A prova contava com duas questões discursivas, que precisavam ser respondidas mais com compreensão do que com acumulação de conhecimento. Ao corrigir as provas, percebia que alguns estudantes conseguiram CAPTAR O SENTIDO do ponto essencial da disciplina, que seria discutir a dimensão do assistencialismo e do empoderamento, assim como articular os conceitos de comunidade, redes e o papel do psicólogo social comunitário. Então, enquanto lia as respostas, compreendia que isso poderia ser a aprendizagem: captar os sentidos.
       Nós humanos podemos captar sentidos e aprender; produzir sentidos e criar. O sujeito na subjetividade cria intenções. A intenção produz uma ação, que gera um movimento, que irá encontrar novas intenções. Entretanto, as intenções podem ser criadas, ou seja, podemos produzir novas intenções, mas também podemos usar intenções já produzidas. O já produzido entra como recurso possível ao processo subjetivo. O humano pode criar ou reproduzir, e o criar coloca o sujeito, para o bem ou para o mal. Quando há criação e manifestação, há um sujeito ativo.
       A subjetividade é o Todo. Muitos Todos produzem um novo Todo, diferente da soma dos Todos que o compõem. A subjetividade é o Todo e só existe subjetividade no Todo. O Todo é o singular e o plural, dependendo de onde está o foco e  intenção.
       O nosso trabalho é pedagógico, temos que fazer pedagogia. Temos que educar e o que transforma é O educar como ação. E, sendo ação, se faz no sujeito. No meu caso, compreendo que trabalho com produção de sentidos, tanto como psicoterapeuta, quanto como educadora. Provoco para que o outro produza em si seus sentidos e assim alcançarmos transformação.
       A isso procurei caraterizar como Pedagogia em si - eu não aprendo fora, em abstrato. Aprendo em mim, em ato e captação de sentidos. Captar o sentido de algo compartilhado é abrir em si uma nova zona de sentido. Produzir um novo sentido é produzir novas zonas de sentido ao conhecimento humano. Alguns se dedicam a isso: ampliar o conhecimento como novas zonas de sentido. Outros apenas captam sentidos já colocados. Mas todos podem produzir novos sentidos em sua subjetividade individual. E compartilhar seus novos sentidos para que eles possam ser captados por outros.
       É estranho tentar dialogar com o aprender e o produzir. Temos que aprender coisas que outros produziram. Mas para que isso passe a ser recursos nas minhas configurações subjetivas, preciso produzir para mim. Para fazer sentido em mim e para mim precisa ser meu, em mim. Seria esse o diálogo que Mead queria com o Eu e o Mim? Dois momentos que estão em diálogo para construir o meu real? Em algum lugar a dialética se faz una. Que seja, então, na subjetividade. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fim de semestre na disciplina Psicologia Comunitária

Bom dia, comunidade!
       Vamos ao encerramento de nossa discussão sobre os temas que emergiram nas socializações. Como a turma é grande e o tempo é curto, vou aproveitar essa manhã para dar uma "aula escrita".
Sobre nossos temas sociais:
       Criança e idosos voltaram no segundo dia, reforçando um destaque a esses dois temas, pois são o começo e o final da vida e, os dois, estão demandando trabalhos sociais.
       Tivemos a presença de dois temas polêmicos: religiosidade e gênero. Passamos um pouco pela sanidade mental e física (tema relevante para a psicologia) e também pela organização social. Nossa sociedade é uma organização um tanto fragilizada que aponta carências em muitas direções. Somos um tipo de Rede onde certos núcleos retém, acumulam, deixando outros núcleos desprovidos. Esse acúmulo é de conhecimento, recursos, estratégias, tudo aquilo que pode circular por uma Rede humana. Como a Rede se faz de trocas, acumular desarmonizadamente não é interessante para a Rede como um todo.
       O tema da religião/espiritualidade precisa ser compreendido por um psicólogo comunitário da seguinte maneira: religiosidade não é o mesmo que espiritualidade e cada pessoa tem o direito de escolher sua via espiritual. Na psicologia defendemos a liberdade e o respeito em torno a este tema. E alertamos que é na religiosidade que a coisa se torna "separação entre os humanos", por conta da diversidade possível e da construção do limite que cada religião faz entre o verdadeiro e o falso. Tememos as lideranças opressoras e mentirosas. Defendemos a conscientização do tema como um elemento cultural, arquetípico, ancestral, cheio de simbolismos conscientes e inconscientes. Saber pilotar por esse tema tão rico em códigos é uma destreza importante de ser adquirida, pois assim transitamos bem por todas as matrizes religiosas que cruzarem nosso caminho de trabalho profissional.
       Fico feliz que, pela primeira vez nesse trabalho um grupo trouxe o tema da matriz religiosa africana, muito cheia de preconceitos e desconhecimentos em torno dela. É importante conhecermos os contrapontos dos mundos fechados que transitamos. Comunidades de matriz católica ou protestante aparecem fácil. As marginalizadas são mais invisíveis e protegidas, pois já sofreram muita discriminação. Existem as movimentos espíritas também, que muitas vezes caem num assistencialismo traiçoeiro. E temos as matrizes orientais, que também são possibilidades culturais de relacionamento com o imaterial.
       A psicologia precisa trabalhar pela construção de uma sociedade harmônica, que integre o imaterial e o material na mesma dimensão de respeito e igualdade de direitos. Não importa a matriz cultural religiosa, importa o sentido de conscientização e de emergência de sujeitos.
       O tema dos gêneros e das relações entre eles precisa ser compreendido por um psicólogo comunitário da seguinte maneira: falar em humano é falar em uma possibilidade de múltiplas manifestações. Quando uma criança nasce não está determinado o que ela será em termos de humano. Vai depender de todas as circunstâncias e vicissitudes que encontrar pelo seu caminhar na vida. Precisamos desenvolver o respeito por cada um, sendo cada um como um possível. Aqui entra o tema da violência e do afeto. Esse jogo de atração e repulsão nos dinamiza tanto, que muitas vezes perdemos a capacidade de pilotar nosso existir. Assim, vamos resolvendo esse jogo da maneira que conseguimos. E fazemos nossas opções por amar e por rejeitar ao longo de nossas vidas.
       Para tratarmos esses temas com coerência, precisamos ir um pouco mais além, pois aqui precisamos falar de "matriz cultural" - nossa matriz cultural é patriarcal, masculina, branca, elitizada e dominadora. Isso é simbolizado no Europeu que aqui chegou e encontrou Nativos (não brancos, não elitizados, com outros diálogos possíveis entre o "masculino" e o "feminino") e trouxe Negros (com outros simbolismos constituídos), subordinando-os. E aqui fez-se uma miscigenação.
       O brasileiro é um produto de uma mistura de diversos genes, credos, códigos e modos, que faz com que nós sejamos muito mais do que qualquer uma daquelas outras matrizes anteriores (branco, índio e negro). Assim, precisamos compreender que nessa matriz muitas coisas tidas como "verdade de maioria", podem não ser a verdade, pois temos uma parte do grupo que se fez dominante, criminalizando o que não fosse "oficial". Nessa criminalização e marginalização entra a forte matriz vinda da Europa medieval, das cortes, da Igreja e das doutrinações, que trabalhou na imposição de uma crença por meio do medo e da violência. Assim, nosso Brasil ficou muito cristão-europeu e perdeu de vista outras matrizes que lhe são importantes. Perdemos a relação com a natureza, tal como tinham os índios; e a relação com as divindades naturais, tal como tinham os negros. Nossa cultura foi forjada no domínio do modelo Europeu em termos de códigos e, desde depois da segunda guerra, esse trabalho de dominação cultural seguiu perpetuado pelos Estados Unidos, colonizando o Brasil, impondo seu modelo e dificultando a percepção das múltiplas matrizes culturais humanas que aqui temos. O dominador faz um trabalho de construção de uma monocultura, excluindo as diversidades. Por isso precisamos conscientizar as pessoas desse jogo perigoso. Temos que ajudar as múltiplas matrizes culturais a se manifestarem em suas comunidades de base. Temos que conseguir construir diálogos.
       Nesse trabalho de conscientização entra o respeito aos excluídos da grande matriz: os negros, pobres, analfabetos, camponeses, nativos, as santerias, as mulheres e suas ervas, seus saberes, seus ciclos, tão inconstantes e diferentes do homem racional, previsível e mecanicamente ritmado. Essa matriz racional e mecanicamente ritmada constrói, também, o sentido de sanidade e de loucura - campo onde temos que atuar.
       Aqui ressalto a ampla constatação de todos os grupos, que o problema, muitas vezes está em singularidades que se sentem apartadas do todo. Pessoas com dificuldades de relação, de compreensão do trabalho em grupo, interesses confusos, ganhos secundários, etc. Nosso trabalho seria o de sensibilização para a importância de um trabalho de desenvolvimento pessoal. Saber quem sou eu para ter consciência de qual lugar social eu ocupo. E assim, ajudarmos ao todo.
       Na dialética da hegemonia e da contra-hegemonia a humanidade vai construindo sua história com os diferentes, tentando harmonizar sua caminhada entre tantas desarmonias. Precisamos desconstruir muitos mitos criados para sermos boas psicólogas e bons psicólogos e conseguir ajudar nossa sociedade a respeitar as diferenças, compreender as opções, lutar por uma sociedade mais instruída e responsabilizada por si mesma. Quando colocamos a responsabilidade de nossa vida fora, ficamos caminhando, caminhando e nunca encontraremos resolução. Levantando um princípio mais autopoiético, quem sabe, emergirão mais sujeitos ecológicos nas nossas redes humanas.
Espero que o curso de psicologia social comunitária ajude a instalar essa matriz ética em cada um de vocês! Precisamos de psicólogxs comprometidxs com o todo do humano!

Abraços!!
Grata ao trabalho de grupo que conseguimos!!
Profa. Ana
Texto publicado à turma de Psicologia Comunitária do IESB Oeste, escrito na manhã de 06/06/2016, Brasília-DF.

sábado, 16 de julho de 2011

Um sistema de categorias

       A subjetividade é uma forma de encarar ou compreender o mundo. Estivemos longo tempo pautados pelo objetivismo e com isso perdemos alguns aspectos de nosso mundo, principalmente aqueles que não se explicam pelo realismo, pelo racionalismo ou pelo positivismo.
      O movimento que levou ao encontro com essa forma de ler o mundo, por incrível que pareça, não partiu das ciências humanas e sim das ciências naturais. É a física com a incerteza, com a relatividade e com a mecânica-quântica, que abre espaço para o "amolecimento" das humanidades "endurecidas  e esfriadas" em nome do cientificismo. Quando a física, ciência da natureza e matriz de muitos paradigmas, encontra a incerteza, ela ajuda a fazer emergir com força a filosofia da ciência que discute a ética, o sentido e o significado de produzir conhecimento por diferentes vias ou caminhos com as suas diferentes consequências.
       No processo de fazer renascer o sujeito, que havia sido pautado por uma ausência, González Rey pensa na subjetividade como um sistema que pode ser abarcado por algumas categorias que se interpenetram e se complementam. Elas seriam: o sentido subjetivo, a configuração subjetiva, a subjetividade individual, a subjetividade social e o sujeito. São categorias cujo objetivo é gerar inteligibilidade aos processos complexos da subjetividade humana, que são todos inalcançáveis pela razão, pela cognição humanas. O que nos chega é somente uma representação desses processos que são, na sua maioria, não conscientizados.
       O sujeito seria a categoria que nos possibilita trabalhar os espaços intencionais, volitivos e emotivos, que são aqueles que cegam a razão. O sujeito é aquele que lida com a realidade, (considerando que o real é, tal qual a subjetividade, inalcançável pelos sentidos ilusórios e por nossa limitada capacidade racional) de forma concreta em sua ação. Ele é um malabarista nesse mundo cercado por ideologias invisíveis e traiçoeiras. Se o sistema trabalha pela manutenção do status quo, onde o ser humano não pode ir além de seu estado de inocente útil, o sujeito exerce o papel de contestação, de ruptura e de construção de alternativas que estão para além da previsível mecanicidade estabelecida pelos poderes dominantes. Ao partir da reflexividade, o sujeito seria a via de criação de alternativas diferenciadas.
       A Teoria da Subejtividade resolve alguns dilemas que emergem no momento que buscamos compreender a relação essencial entre a pessoa singular e o mundo coletivo sem dar supremacia a um ou a outro e esclarecendo como um interfere no outro. Nesse modelo teórico o social está no tempo e no espaço, transmutando-se do material para o imaterial, e o sujeito está também no tempo e no espaço, materializado o imaterial da abstração reflexiva nas suas ações criativas e interventivas.