Minha razão

Olá!!
Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.
Mostrando postagens com marcador Neuroplasticidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Neuroplasticidade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Pensar mudanças

Faz tempo que eu ensaio escrever um texto sobre o que aprendi com Joe Dispenza. Na verdade o que aprendi com ele reverbera em tudo o que aprendi com Norman Doidge, portanto, registrar esse aprendizado é amplificar um tema que já trouxe aqui no blog: a neuroplasticidade.

Pela neuroplasticidade sabemos a importância de, ao conhecer algo novo, falar sobre esse conhecimento e construir entendimento sobre o conhecido. Essa ação é crucial para o fortalecimento dos circuitos acionados no ato de conhecer esse novo. Portanto, só falar sobre um tema novo já ajuda na terapia, abrindo novos espaços com os novos conteúdos que irão auxiliar no processo de transformação. Cada vez que aprendemos coisas novas fazemos novas conexões sinápticas e acionamos novos circuitos. Nessa simples estratégia podemos também desbloquear circuitos que estão impedidos, obstruídos ou camuflados, pois pensamentos queimam circuitos neurais.

Joe Dispenza afirma: "minha personalidade cria a minha realidade pessoal". Com base nos saberes da neuroplasticidade, e também das recorrentes linhas de pensamento que compreendem a consciência como um campo quântico, ele fala: "o maior hábito que preciso quebrar é o hábito de ser eu mesma" e completa sugerindo que eu posso ser meu melhor placebo, curando-me a partir de meu próprio pensamento. 

Os estudos da neuroplasticidade revelam que pensar modifica os mapas cerebrais e a imaginação favorece consolidação de transformações por vivência e aprendizagem, basta ter intenção e foco. Com esses dois fatores aplicamos essa teoria na prática e conseguimos reorganizar nossa configuração de corpo e personalidade.

Não é tempo de saber "o que" e sim de saber o "como", ou seja, vivemos tempos mais de ação do que de intelectualização. É tempo de aplicar todo o conhecimento já acumulado pela ciência e, principalmente, pela neurociência. Nesse sentido, Joe Dispenza afirma alguns princípios importantes:

1. Acreditar que uma inteligência habita dentro de mim e que ela é consciência que dá vida. Necessitamos desenvolver uma relação com essa consciência.

2. Assumir a responsabilidade sobre a minha enfermidade, afinal, ela não foi provocada pelo agente externo, pois o território é onde acontece o fenômeno. São as minhas condições de pensar e de sentir que criam a minha enfermidade. Existe um vício nas emoções e elas estão ligadas a programas, influenciam o pensamento que por sua vez faz o cérebro produzir químicas, que interferem no corpo.

3. Desenvolver a consciência do observador - "não sou o programa" - perguntar-se: quem eu quero ser? Qual a minha nova personalidade? Posso me tornar outra pessoa? Quais pensamentos que quero queimar e firmar no meu cérebro? Em que eu quero acreditar? Como vou viver a minha vida curada?

Muitas pessoas não conseguem pensar fora daquilo que sentem. E se eu penso dentro daquilo que sinto estou pensando no passado. Daí a necessidade de fazer "ensaios mentais" - enviar ligações e fazer ligações, atar neurônios, queimar circuitos, disparar sinais e ligar as redes neurais.

4. Relaxar no momento presente e ir além do tempo. Experimentar a dissolução e considerar que quando a mente e a matéria estão absolutamente integradas fica difícil separá-las, impossível separar.

Não posso agir fora do meu nível de conhecimento, por isso preciso das aprendizagens. Viver é aprender e conhecer coisas novas, daí a importância de pensar mudanças.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

E tudo é aprendizagem ...

Os dons da plasticidade nos permitem adaptação a uma ampla gama de ambientes. E tudo se produz via aprendizagem.

Nosso cérebro não é algo "preso às estruturas", pois ele é dinâmico, cria a si mesmo e cria a realidade. Foi essa capacidade de se modificar que permitiu avançarmos no tempo e no espaço, fazendo cultura e fazendo a história que nos modifica. A cultura agiu no cérebro, que agiu na cultura em movimento dialógico. Por ser cerebral, é biológico, mas, por ser cultural e histórico, é também subjetivo.

Quando uma criança aprende a falar ela recapitula o processo filogenético da espécie. Da mesma forma, quando aprender a ler. Nessa dinâmica de transformação neural a criança refaz o percurso que a humanidade fez até aprender a ler e também escrever. Começa nos 35 mil anos passados (ou mais) dos primeiros registros rupestres, algo que remonta a existência de umas 580 gerações, em estimativa livre. Nesses avanços culturais começamos a integrar sistemas motores e visuais. Daí passamos aos hieróglifos, ainda ligando imagem e significado. Os hieróglifos são formas de representação que usam figuras para designar objetos. Daí passamos ao alfabeto fonético e isso é um grande avanço, pois integramos sistemas visuais, motores, de representação e sentido e também o auditivo. E um sistema altamente complexo que nos possibilita ler e escrever e que foram necessários milhares de anos para desenvolver.

E esses três sistemas básicos, que são o auditivo, o visual e o cinestésico (do movimento), proporcionam a emergência de um outro sentido, o da propriocepção. Nossas linguagens integram sistemas corticais de imagens, sons, representações, memórias, signos e significados. Somos portadores das chamadas funções psíquicas superiores por um processo filogenético que levou longo tempo para se organizar. Somos hoje representativos e proprioceptivos como resultado de um caminhar pelo planeta ao longo de muitos e muitos anos.

As partes integradas geram um todo maior e, portanto, o paradigma que nos auxilia a compreender nossa biologia é o da complexidade. O sentido de partes e todo, de caos e ordem e, de redes integradas são os pressupostos que sustentam a compreensão de nossa multissensorialidade.

O cérebro é um órgão que se modificou e o nosso não é igual ao de nossos ancestrais e antepassados. Essas mudanças derivam da cultura. Da mesma forma, todas as espécies vivas possuem sistema nervoso neuroplástico. O que vai nos diferenciar de outras espécies antropoides é a quantidade de neurônios que temos, que é maior do que alguns símios. Isso é o que faz grande diferença na hora de produzir cultura e linguagem.

E para nossas crianças a cultura passa a ser uma segunda natureza, marcando profundamente a sua configuração cerebral. É por isso que muitas vezes aprender um segundo idioma torna-se algo tão difícil. Estar em outra cultura será sempre um "choque cerebral". Mudar de país sempre vai resultar em algum tipo de traumatização em tecidos cerebrais, merecendo cuidados e atenção neuroplástica.

Tudo é aprendizagem e tudo é também ação. Quanto menos faço algo, menos quero fazer. Se estacionei e não quero mais desenvolver, não mais desenvolverei. Da mesma forma, quanto mais faço, mais sinto vontade de fazer. Quanto mais aprendo, mais tenho energia e vontade para aprender. Esse é o princípio do use ou perca, uma das leis da neuroplasticidade e considerar isso é vital para ajudar pessoas que não conseguem avançar e desenvolver.

No caso de nossas obsessões, de nossos transtornos compulsivos, aprendemos a travar nosso cérebro e ficamos com muita dificuldade de avançar, de virar a página e continuar o enredo. Ficamos parados em um ponto. Para conseguir virar a página precisamos nos conscientizar: "sim, eu tenho um problema, mas não é o evento e sim a forma como o evento está configurado em minha programação". Em outras palavras, precisamos agir na forma e não no conteúdo da questão. Jogar a pessoa no conteúdo (tenho medo de avião, fechei a porta da casa? ou minha família é tensionante) não ajuda a mudar o processo. Precisamos trabalhar na forma, que seria afirmar-se "sim, tenho um problema, mas não é minha família, é só minha obsessão". Com o tempo vou observando os efeitos do conflito (medo de avião) e vou me afastando deles (isso não sou eu, é só uma parte de mim mesmo que eu posso alterar). Quanto mais foco no conteúdo (minha família é um estresse e é feita por pessoas desreguladas), mais eu aumento o problema em termos de assembleias neuronais, mais eu recruto neurônios para sustentar essa questão. Existe sim uma forma universal de transtorno obsessivo compulsivo (pensamentos ansiosos e impulsos que invadem a consciência), mas os conteúdos são singulares (será mesmo que fechei a porta da casa? Vou voltar e conferir!).

Portanto o melhor é não mergulhar os pacientes nos conteúdos e sim no exercício de desmontar a armadilha. Precisamos trabalhar na forma, trabalhar nos defeitos fazendo algo para mudar a marcha. manualmente. O sujeito da ação é que tem a capacidade de usar o córtex para refocalizar e trabalhar no pensamento concentrado, buscando também as ações diferenciadas e suficientemente boas para liberar a dopamina necessária para firmar o novo comportamento e fazer com que o cérebro o busque mais e mais. E isso requer treino cotidiano. Não adianta querer mudar e não praticar a mudança. Precisa de ação concreta periódica, com tempo de pelo menos 30 minutos a cada vez.

Isso é resultado de aprendizagem, ou seja, aprender um novo jeito de ser. Quanto mais cristalizado um Eu doente, mas persistência, compromisso e ação essencial são necessários para alterar seus próprios mapas cerebrais.

A cura neuroplástica

O que vou escrever aqui e agora é um resumo do capítulo 03 da livro O cérebro que cura, de Norman Doidge, da edição de 2016, 1a. edição da Editora Record. Comecei meus estudos com esse autor em 2017, mas Doidge lançou seus trabalhos pelo menos dez anos antes disso. Eu louvo seu trabalho e muito o agradeço. Esse autor entra para a minha história como uma de minhas importantes referências. Em respeito ao seu saber, resumo aqui aos interessados sua tese central, aquilo que encontrei de mais preciso sobre a sua própria criação ao estar cercado por tantos seres criativos, os nossos magos da cura neuroplástica que ele entrevistou, visitou e conviveu.

Neste capítulo 03 Doidge apresenta as etapas da cura neuroplástica, mas antes lembra  alguns princípios e processos da dinâmica neural.

O cérebro é um órgão vivo, que produz a si mesmo o tempo todo, que está em processo ininterruptamente e que adora crescer e se transformar. Por não sabermos disso, acabamos atrofiando esse órgão tão poderoso. E como eu sei que esse saber pode levar nossa espécie a um desvio dramático em seu curso, quero aqui compartilhar esse conhecimento. Ainda temos tempo para tomar um rumo muito mais saudável e satisfatório como vida e espécie e esse saber só nas mãos dos dominadores nos tornará mais e mais prisioneiros das políticas errôneas e desastrosas.

Primeiro precisamos considerar as questões de funcionamento neural. Podemos usar a mente para fortalecer circuitos neurais específicos em partes do cérebro envolvidas no ATO PRESENTE. A plasticidade competitiva e a reprogramação cerebral participam desse exercício. Caminhar muito conscientemente e colocar muita atenção no que faz no momento presente ajuda que neurônios que estão destinados a sustentar dores ou neuroses possam ser "sequestrados" para saúde e bem estar.

Segundo, todos precisam saber que ativar o corpo melhora a função celular geral de neurônios e células gliais. O neurônio é o que participa das funções de neurotransmissão e as glias são as células responsáveis por manutenção, desintoxicação, proteção, geração de células novas, reprogramações e outra infinidade de funções que nem podemos imaginar. Mover-se e ativar-se desencadeia FATORES DE CRESCIMENTO NEURAL E GLIAL e melhora muito a circulação cerebral.

Para nos beneficiarmos da nossa capacidade neuroplástica podemos usar estratégias que usam a mente e estratégias que usam o corpo. Ambas proporcionam circulação de energia cerebral. Lembrando que por CEREBRAL precisamos visualizar um sistema que está no corpo todo e não só em sua parte encefálica (dentro da cabeça).

Considerando esse dois "lembretes" básicos, Doidge apresenta três processos gerais que podem ser traduzidos como leis da neuroplasticidade.

A primeira é a do não uso adquirido. Para ilustrar, não uso adquirido é quando uso muito, muito meu lado dominante (escrever com a direita) e todo o meu potencial de usar o lado não dominante fica esquecido por um "não uso adquirido". Esse fenômeno é muito comum em pessoas que tem algum tipo de "lesão cerebral".

A segunda é a do cérebro ruidoso (tema tão importante que tem outro post aqui no blog sobre isso).

Em resumo, o cérebro ruidoso é aquele que tem muitos circuitos atuando em "pano de fundo". E são assembleias de neurônios que poderiam estar sendo recrutados para sistemas mais definidos e que nos poupariam muita energia. Todos temos um cérebro altamente ruidoso em nossa cultural ocidental.

A terceira lei é a das assembleias neuronais. Os neurônios são indivíduos que vivem muito melhor em grupos e, portanto, formam redes (que um dia o humano se veja como um neurônio, amém!). Existem assembleias programadas em nosso cérebro, principalmente no campo cortical, aliando sistemas. E isso funciona por cooptar os próximos, desligar outros próximos, recrutar os distantes, entre outras ações. Um sistema maravilhoso de cooperação, diálogo, construção e re-construção.

O mais dramático de nossa neuroplasticidade é seu caráter paradoxal. Aquilo que é nossa maior benção como ser vivo é nossa maior maldição como espécie. Esquecemos que somos plásticos e nos contentamos com nossas rotinizações cotidianas. Isso nos cristaliza, nos impede, nos vicia e nos aprisiona. Infelizmente!

E as lesões cerebrais são oportunidades de reprogramação neural o tempo todo. Basta ter um sujeito intencionado. E sobre sujeito, bem, o sujeito vocês sabem, é minha tese de doutorado. A neuroplasticidade só reafirma a necessidade da emergência de um sujeito. Ele pode desprogramar as resultantes de uma lesão e como vias de construção de uma lesão cerebral temos: as toxinas, os derrames, as infecções, as terapias de radiação, as pancadas na cabeça e as doenças degenerativas.

A integração mente e cérebro nos indica que temos os processos de longo prazo (os vinculados à estrutura cerebral) e os processos de curto prazo (os vinculados ao ato mental). Um tem efeito sobre o outro, com forma e função integradas e dinâmicas.

Ao compreender essas leis e dinâmicas do sistema nervoso abrimos as portas para o entendimento das etapas da cura neuroplástica. Doidge afirma que essas etapas não são fixas e nem todas necessárias para promover algum tipo de cura. A depender do sujeito e da necessidade, umas etapas são mais cruciais que as outras e em alguns casos todas se fazem presente. Aqui comparecem a circunstância, o território e as configurações. Elas são cinco:

1. CORREÇÃO DAS FUNÇÕES CELULARES GERAIS DOS NEURÕNIOS E DA GLIA.

aspecto ligado ao compromisso pessoal de manter corpo ativo, mente ativa e, principalmente, criativa.

2. NEUROESTIMULAÇÃO

estimulação neural pode se dar por fatores externos (o mundo) e por fatores internos (o sujeito).

3. NEUROMODULAÇÃO

modular via autorregulação, pois os sistemas vivos são autorregulados, ou seja, possuem em si seus próprios recursos para a construção da saúde e da enfermidade.

4. NEURORELAXAMENTO

sistema sob tensão é sistema com falhas. Dormir é nosso melhor momento de neurorelaxamento, pois é a hora em que a Glia mais trabalha nas desintoxicações. Sistema Nervoso Autônomo e Sistema de Ativação Reticular desregulados deixam o todo cerebral em tensão. Para curar, muitas vezes, é necessário começar por aqui.

5. NEURODIFERENCIAÇÃO

Saber usar a maravilhosa capacidade de diferenciação das células nervosas é nosso maior benefício no caminho da cura. Célula de coração será sempre célula de coração, célula de pulmão também. Célula de músculo, célula de osso até são células vivas, mas a capacidade de diferenciação é algo inerente ao ser célula de sistema nervoso. O que era destinado ao ver pode ser destinado ao ouvir, o que está destinado ao pensar pode ser cooptado pelo sentir. Usar a intenção consciente para ajudar um neurônio a se diferenciar é uma das possibilidades mais incríveis da vida.

Espero que esse texto possa ajudar aos muitos de nós que precisam de cura.

Estou ao dispor para dialogar, ampliar esse estudo e contribuir com o aprimoramento de nossa espécie tão imbecilizada pelos momentos históricos atuais.



sexta-feira, 5 de julho de 2019

A língua

A língua é um dos órgãos mais sensíveis do corpo.
É um caminho para a real ativação de TODO o cérebro.
E a língua tem alta precisão, por isso, FILOGENETICAMENTE o cérebro desenvolveu alta ligação com ela.
A estimulação da língua ativa o cérebro todo.
As crianças sensoriam o mundo pela língua.
Ter língua e sensoriar o mundo por ela fez nosso cérebro aprimorar e complexificar.

Dicas de Norman Doidge que fazem diferença na minha vida pessoal e profissional.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O Eu virtual e o Cérebro (neuro)plástico

       A neuroplasticidade é a propriedade que possibilita ao cérebro modificar sua própria estrutura e seu funcionamento em resposta às atividades concretas e experiências mentais. São atividades concretas aquelas que entram no sistema via captores de externalidade. Audição, visão, olfato, paladar e toque, são as mais conhecidas, mas temos também o sentido proprioceptivo, um sistema multi-sensorial/sensitivo. A propriocepção existe por existirem sistemas sensoriais/sensitivos particularizados. Ela é um todo que não é igual à soma de suas partes. Ela integra o todo material e imaterial de nosso corpo. Localização, limiares, expressões, amplitudes, postura, movimento - ser aí no mundo sendo um cérebro neuroplástico em vida.
       A neuroplasticidade substitui a ciência do localizacionismo, sistema teórico que defende o cérebro como determinado, particularizado e fixo. Da mesma forma, com a neuroplasticidade alcançamos um sentido de Eu que perde o determinismo, a particularidade e a fixidez. Nesse universo o Eu passa a ser um todo formado por partes, sendo que as partes só existem por existir um todo e o todo só existe por existirem as partes. Este é, portanto, um Eu virtual, pois é não localizado, globalizado e inter-atuante.
       Os avanços dos estudos sobre a neuroplasticidade corroboram pensamentos teóricos de Freud, Jung e até mesmo de Reich e sua percepção corporal da formação do caráter. Há uma confirmação científica de que a construção do Eu, na relação com o outro, nos transforma em Eus virtuais. Somos imagem de Eu, não uma fonte emanadora de sentido exclusivo, mas um jogo de espelhos que não nos permite definir onde está o objeto. Somos todos loucos em um descontrolado looping cerebral e isso está ligado à nossa história pessoal e ancestral.
       Sabendo o Eu que não existe o que poderia acontecer?
       Esse conhecimento é a curva, a chance de ir para entropia ou anatropia. Daí a importância de inserir a discussão sobre a intenção e a consciência. Pelo que existe, precisamos ser um Eu para estar no mundo, compondo o mundo com uma multiplicidade de Eus.
      Temos na propriocepção, então, uma via de trabalho da auto-regulação, sendo este um trabalho fácil e difícil ao mesmo tempo. Transformarmos a nós mesmos e proporcionarmos nossa saúde tem na plasticidade neural sua benção e sua maldição. Entendi isso ainda mais neste janeiro de 2019 com a ajuda da leitura do livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti, da Cia. das Letras, 1997. Eu levei comigo para as férias o livro O cérebro que cura, de Norman Doidge (2016), pois queria aprofundar o estudo do Eu virtual e dos jogos de intenção e compor esse post. Todavia, chegou em minhas mãos o livro sobre o  auto-engano de surpresa e com a leitura desse livro fortaleço essa discussão, pois com ele compreendi que a propriocepção é um sistema montado sobre o auto-engano. E agora? Como trabalhar para que o Eu pare de se auto-enganar e possa, assim, se auto-regular? E mais: como fazer isso se não existe um Eu?
       Esse trabalho é complexo pois, de acordo com a neuroplasticidade, precisamos integrar neurônios que estão separados e separar neurônios que estão integrados. Precisamos despertar aqueles bons que estão adormecidos e adormecer os ruins que estão ativados. As dores derivam de plasticidades descontroladas, pois áreas que regulam certas atividades vitais foram sequestradas para processar o sinal da dor. Já falei em outra postagem sobre o cérebro ruidoso e, para que o entendimento se amplie, preciso compartilhar o tema do Eu virtual e provocar o debate defendendo que o Eu só será real quando estudarmos em ciência de primeira pessoa. Os estudos neuroplásticos confirmam que descobertas científicas são feitas quando os médicos profissionais se tratam (Doidge, 2016). Muitos avanços partiram de pessoas que adoeceram e fizeram ações concretas para a sua recuperação. Saúde, dor, neurose são campos de ação da neuroplasticidade e precisam de um Eu intencionado para se transformar. Se eu crio a dor, eu também a des-crio mas, sendo o Eu virtual, quem cria e des-cria?
       O Eu virtual, na verdade, começa com o corpo virtual. Temos uma imagem corporal formada na mente e representada no cérebro e daí, inconscientemente, projetada no corpo. É um corpo virtual, pois possui certa independência do corpo físico. É uma imagem construída a partir de múltiplos estímulos de diversos mapas cerebrais que envolvem principalmente a visão, o tato e a propriocepção, assim como de qualquer mapa que possua registro informacionais de sensitividade e emoções em nosso sistema neural. A imagem corporal representa "o conjunto dos diferentes estímulos dos vários sentidos para o cérebro, mas inclui também as ideias carregadas emocionalmente que a própria pessoa tem sobre seu corpo." (Doidge, 2016, pag. 48).
      O Eu é e não é em um corpo imaginário projetado no real. As construções que fazemos de saúde ou de doença são produtos dessa plasticidade do ser e não ser em projeção. O paradoxo está em que é no Eu virtual que reside a entrada e a saída do sistema. O Eu que é e que não é é quem vive e dita o que vai viver. Não somos loucos, não temos dores. A única coisa que temos é, talvez, um cérebro que tenha dificuldades de virar páginas. Sou um Eu virtual que acredita que vive o que vive. E quanto mais eu fixar, mais neurônios eu vou sequestrar para essa fixação.
      Para um outro post merecemos falar sobre a humanidade como um grande cérebro que tem um Eu virtual. Tal como os neurônios de nosso corpo, que estão todos interligados, os humanos também estão por suas tramas sociais e culturais-históricas. Mas isso é a delícia do tema da subjetividade social, que merece mesmo debates dialógicos próprios. Para finalizar, deixando o gancho, só peço com gentileza ao seu Eu virtual que se recorde que está no mundo e que o mundo existe. Ou não?
       E lembro que a psicologia ajuda cérebros a virar páginas. Esse tem sido o nosso trabalho cotidiano.