Minha razão

Olá!!
Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.
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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

E tudo é aprendizagem ...

Os dons da plasticidade nos permitem adaptação a uma ampla gama de ambientes. E tudo se produz via aprendizagem.

Nosso cérebro não é algo "preso às estruturas", pois ele é dinâmico, cria a si mesmo e cria a realidade. Foi essa capacidade de se modificar que permitiu avançarmos no tempo e no espaço, fazendo cultura e fazendo a história que nos modifica. A cultura agiu no cérebro, que agiu na cultura em movimento dialógico. Por ser cerebral, é biológico, mas, por ser cultural e histórico, é também subjetivo.

Quando uma criança aprende a falar ela recapitula o processo filogenético da espécie. Da mesma forma, quando aprender a ler. Nessa dinâmica de transformação neural a criança refaz o percurso que a humanidade fez até aprender a ler e também escrever. Começa nos 35 mil anos passados (ou mais) dos primeiros registros rupestres, algo que remonta a existência de umas 580 gerações, em estimativa livre. Nesses avanços culturais começamos a integrar sistemas motores e visuais. Daí passamos aos hieróglifos, ainda ligando imagem e significado. Os hieróglifos são formas de representação que usam figuras para designar objetos. Daí passamos ao alfabeto fonético e isso é um grande avanço, pois integramos sistemas visuais, motores, de representação e sentido e também o auditivo. E um sistema altamente complexo que nos possibilita ler e escrever e que foram necessários milhares de anos para desenvolver.

E esses três sistemas básicos, que são o auditivo, o visual e o cinestésico (do movimento), proporcionam a emergência de um outro sentido, o da propriocepção. Nossas linguagens integram sistemas corticais de imagens, sons, representações, memórias, signos e significados. Somos portadores das chamadas funções psíquicas superiores por um processo filogenético que levou longo tempo para se organizar. Somos hoje representativos e proprioceptivos como resultado de um caminhar pelo planeta ao longo de muitos e muitos anos.

As partes integradas geram um todo maior e, portanto, o paradigma que nos auxilia a compreender nossa biologia é o da complexidade. O sentido de partes e todo, de caos e ordem e, de redes integradas são os pressupostos que sustentam a compreensão de nossa multissensorialidade.

O cérebro é um órgão que se modificou e o nosso não é igual ao de nossos ancestrais e antepassados. Essas mudanças derivam da cultura. Da mesma forma, todas as espécies vivas possuem sistema nervoso neuroplástico. O que vai nos diferenciar de outras espécies antropoides é a quantidade de neurônios que temos, que é maior do que alguns símios. Isso é o que faz grande diferença na hora de produzir cultura e linguagem.

E para nossas crianças a cultura passa a ser uma segunda natureza, marcando profundamente a sua configuração cerebral. É por isso que muitas vezes aprender um segundo idioma torna-se algo tão difícil. Estar em outra cultura será sempre um "choque cerebral". Mudar de país sempre vai resultar em algum tipo de traumatização em tecidos cerebrais, merecendo cuidados e atenção neuroplástica.

Tudo é aprendizagem e tudo é também ação. Quanto menos faço algo, menos quero fazer. Se estacionei e não quero mais desenvolver, não mais desenvolverei. Da mesma forma, quanto mais faço, mais sinto vontade de fazer. Quanto mais aprendo, mais tenho energia e vontade para aprender. Esse é o princípio do use ou perca, uma das leis da neuroplasticidade e considerar isso é vital para ajudar pessoas que não conseguem avançar e desenvolver.

No caso de nossas obsessões, de nossos transtornos compulsivos, aprendemos a travar nosso cérebro e ficamos com muita dificuldade de avançar, de virar a página e continuar o enredo. Ficamos parados em um ponto. Para conseguir virar a página precisamos nos conscientizar: "sim, eu tenho um problema, mas não é o evento e sim a forma como o evento está configurado em minha programação". Em outras palavras, precisamos agir na forma e não no conteúdo da questão. Jogar a pessoa no conteúdo (tenho medo de avião, fechei a porta da casa? ou minha família é tensionante) não ajuda a mudar o processo. Precisamos trabalhar na forma, que seria afirmar-se "sim, tenho um problema, mas não é minha família, é só minha obsessão". Com o tempo vou observando os efeitos do conflito (medo de avião) e vou me afastando deles (isso não sou eu, é só uma parte de mim mesmo que eu posso alterar). Quanto mais foco no conteúdo (minha família é um estresse e é feita por pessoas desreguladas), mais eu aumento o problema em termos de assembleias neuronais, mais eu recruto neurônios para sustentar essa questão. Existe sim uma forma universal de transtorno obsessivo compulsivo (pensamentos ansiosos e impulsos que invadem a consciência), mas os conteúdos são singulares (será mesmo que fechei a porta da casa? Vou voltar e conferir!).

Portanto o melhor é não mergulhar os pacientes nos conteúdos e sim no exercício de desmontar a armadilha. Precisamos trabalhar na forma, trabalhar nos defeitos fazendo algo para mudar a marcha. manualmente. O sujeito da ação é que tem a capacidade de usar o córtex para refocalizar e trabalhar no pensamento concentrado, buscando também as ações diferenciadas e suficientemente boas para liberar a dopamina necessária para firmar o novo comportamento e fazer com que o cérebro o busque mais e mais. E isso requer treino cotidiano. Não adianta querer mudar e não praticar a mudança. Precisa de ação concreta periódica, com tempo de pelo menos 30 minutos a cada vez.

Isso é resultado de aprendizagem, ou seja, aprender um novo jeito de ser. Quanto mais cristalizado um Eu doente, mas persistência, compromisso e ação essencial são necessários para alterar seus próprios mapas cerebrais.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O si mesmo com apoio de Jung

      Como coloquei a categoria "si mesmo" em minha tese de doutorado, venho aprofundando os estudos na mesma. Nesse processo de aprofundamento pude compreendê-la um pouco mais em Mead, que fala do eu, do mim e do self, e agora a estou captando também em Jung.
       O si mesmo em Jung tem o caráter da zona do perigo, pois extrapola os marcos da ciência moderna. Quando Jung propõe o si mesmo ele dialoga com a noção de Cristo e de Anticristo. Nesse sentido, só se faz possível o entendimento do si mesmo agregando as categorias de anima e animus. Se o si mesmo é essa possibilidade crística, transcendente de todas as formas identitárias, a anima e o animus dialogam com a natureza psíquica criada em polaridade. O si mesmo só é acessível quando nossa polaridade se harmoniza em unidade. Elas são por natureza antagônicas e excludentes e a sua harmonização é o trabalho constante no caminho do auto-conhecimento. E como a sombra está em todas as dimensões, o caminho de integração é desafio permanente, seja no arquétipo anima-animus, seja no arquétipo cristo-anticristo.
       Anima é o princípio criativo e expressivo e animus o princípio intelectivo ordenador. Animus não suporta anima, pois ela bagunça sua ordem. Anima receia o animus, pois ele impede sua expansão.
       Quando ambos conseguirem sintonizar em diálogo com o outro tornar-se-á mais acessível toda a informação disponível no "si mesmo", que entra nessa dinâmica como um outro nível qualitativo do arquétipo, mais arcaico e ancestral. 
      Acessar ao si mesmo seria a iluminação, mas, como somos seres materiais e falhos, o acesso completo ao si mesmo é impossível, pois ali mora a loucura. Jung fala: "A assimilação do eu pelo si mesmo deve ser considerada como uma catástrofe psíquica. A imagem da totalidade permanece imersa na inconsciência.", ou seja, importante estarmos atentos às divisões e harmonizações, mas sempre mantendo algo do caráter do si mesmo no oculto. Em outras palavras eu diria: a sombra sempre está no caminho, sempre vem junto. Retirar a sombra seria a morte do Eu.
       Quando pensei em uma "pedagogia em si mesmo" pretendi reificar a vivência no processo de aprendizagem. Com isso posso me apoiar em Jung, pois ele fala que compreender suas categorias e teorias nunca será possível, caso não as vivenciemos.
       Fiz transição entre pedagogia em si para pedagogia de si, pois me preocupa a prática de cada aprendiz na sua vida cotidiana e também de desenvolvimento psíquico. Sujeito e objeto não são categorias separadas e todo saber, como objeto, só existirá quando existir um sujeito. Daí o título da tese: por uma pedagogia com foco no sujeito. As disciplinas humanas serão melhor compreendidas caso sujeito e objeto integrem-se em unidade, tal como qualquer jogo energético que ocorre entre duas forças complementares. 
       

sábado, 29 de julho de 2017

Pensando o sentido de currículo

       Tenho registros de estudos que fiz quando estava professora de Organização do Trabalho Pedagógico, no curso de Pedagogia do IESB Oeste. Trabalhar com essa disciplina era algo que muito me motivava, pois eu precisava pensar a organização da educação, não só dentro de sala de aula, mas também no tempo e no espaço. Nos trabalhos de pesquisa sobre os temas que precisava trabalhar, tais como planos, planejamentos, avaliação, o próprio sentido de educação, as bases de uma concepção mecanicista de educação, os pilares da educação para nos novos tempos, entre outros, encontrei materiais relevantes para dialogar com os aprendizes de educação.
       Um deles foi o filme "Vocacional", de Toni Venturi, lançado em 2011. O filme Vocacional é um documentário que mostra um projeto de escola no Brasil, dentre muito outros inovadores de um mesmo período histórico, pois os Ginásios Vocacionais de São Paulo não foram projetos isolados dentro de uma configuração subjetiva social mais ampla, que conseguiu materializar um sentido de educação muito efetivo.
       Estudando sobre currículo apurei nos autores que, quando falo de currículo, falo de projeção e desdobramentos de Projeto pedagógico. Um currículo seria um conjunto de saberes e práticas, conjunto este ligado a um momento histórico e social. Este momento, por sua vez, estabelece objetivos relacionados aos conhecimentos que se quer construir por meio de conteúdos diversos. Planejar um currículo seria definir coletivamente objetivos e estratégias, seria pensar os tempos, organizar os espaços, conhecer as diferentes necessidades nos e dos diferentes graus do processo de desenvolvimento humano.
       Como psicóloga, não posso deixar de ressaltar as particularidades do processo curricular de uma escola como o Ginásio Vocacional. A primeira coisa importante é: um currículo pautado na formação da personalidade. Não vemos isso hoje em dia, pois os currículos tendem a pensar no conhecimento humano como algo separado da pessoa singular.
       Além disso, tem outra diferença - de qual ciência partir? da natural? da exata? - tal como percebemos em muitos de nossos currículos hoje em dia? Pois bem, no Ginásio Vocacional havia um singular respeito em partir a construção do currículo a partir das ciências humanas e seus estudos sociais.
       Estávamos nos anos da década de 60 do século passado e já falavam em integração de saberes, em não focar nas disciplinas, mas nos núcleos educacionais, já trabalhavam com o saber contextualizado, com as decisões coletivas, tendo os estudantes como principais protagonistas, construindo uma escola que não se fechava em si mesma, que primava pelo processo reflexivo, que colocava os alunos como criadores e produtores, que precisavam compor sua auto-avaliação e que eram o tempo todo estimulados à autonomia.
       Então fica a pergunta o que é um currículo? Quais os desdobramentos de uma escolha curricular?
       Esse processo educacional terminou por conta de uma conjuntura política, que o abortou por completo. Ficamos sem os desdobramentos incríveis que esses projetos curriculares teriam produzido num país como o Brasil. Uma pena! Socializar no Brasil é crime e certas propostas de construção de uma nova sociedade se perdem por isso. Aborta-se a socialização e isso repercute no abortamento da ciência em primeira pessoa e do trabalho ecológico, pensamentos necessários à sociedade do século XXI.
       Portanto, fica aqui o registro, reciclando mais um papel manuscrito e reflexivo, dos tantos que já produzi. Algo que fica registrado para um outro tempo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Dois símbolos

Em 2011 comecei esse blog. Agora, em 2016, eu o sinto vivo, maduro.
    
  E percebi que dois símbolos ainda não estão aqui:

Um,  o céfalo caudal, o espiral neural. Símbolo que qualifica meu trabalho psicocorporal e de ecologia humana com meus pacientes.

Outro, o link para um artigo publicado. O artigo que compartilha com a comunidade acadêmica os primórdios da pedagogia em si, quando ainda de si.
Estou avançando nos estudos e nas práticas que consolidam a pedagogia em si, e hoje percebo que ela é tão ou mais importante ao professor, que ao aluno. Se o professor não mergulhou num caminho do conhecimento que o integre com o que conhece, ele não irá realmente concretizar esse caminho aquele que, por alguns momentos do seu desenvolvimento, é seu aluno.


domingo, 18 de setembro de 2016

Um caminho pedagógico

      A psicologia compreende algumas coisas e faz algumas propostas. Problematiza seu tema de estudo e produz alguns experimentos que lhe possibilite confirmar suas hipóteses.
      A pedagogia, por sua vez, busca caminhos de transformação pela via de construção do conhecimento. Ao contrário do que se defende em algumas instâncias, a educação é a possibilidade de ajudar um outro a produzir seu próprio conhecimento. A pessoa precisa conhecer o que já se produziu, mas com base nisso deverá produzir o seu próprio, senão o conhecimento não acontecerá nela. Ela irá se informar, se aproximar, mas poderá esquecer. Ou então poderá se mecanizar no encontro com o conhecimento, reproduzindo-o automaticamente, sem saber muito bem do que está falando, pois reprodução mecânica de informação não é relação de conhecimento vindo de um saber. Um saber que, como diria Baldani, vem de um sabor experimentado e conhecido.
       Um de nossos desafios no lugar de humano é a dialética da sujeição e do sujeito. A que Eu me sujeito? Um certo grau de sujeição é necessário, senão, não dialogo. Preciso sujeitar-me a onda social, mas posso dialogar com ela e tensioná-la. Esse é o jogo do sujeito e do social.
       A dificuldade nesse jogo mora no inconsciente, no oculto, pois ele é surpreendente. Entretanto, é aí que mora também o poder criativo, o poder de gerar o novo.
       O que é um condicionamento? Essa é uma das primeiras categorias que marca o caminho da psicologia como ciência. Algumas coisas passam a ser condicionadas. E quando isso acontece, não precisa mais sujeito. A pessoa funciona perfeita na onda social, sem tensioná-la. Por isso alguns de meus colegas trabalham para os grandes sistemas, ajustando as pessoas ao seu ciclo de forma que fluam, não sofram, produzam o necessário e permitam ao sistema seguir funcionando.
       Mas sabemos como psicólogos que o não condicionamento também acontece. Alguns saem da métrica e não conseguem ajustar-se ao normatizado. É aí que entra o grande desafio da psicologia: explicar os desviantes da norma.
       Então, percebam: uma onda social e um sujeito. Sou a onda ou surfo na onda? O que é a onda? O que é o sujeito? O que é uma pessoa assujeitada? Quem pode nos mostrar isso é um caminho pedagógico. O caminho do conhecimento. Do conhecer o mundo, aprender a lê-lo e conhecer o sujeito que lê o mundo, proporcionando a integralidade do conhecedor e do conhecimento.
       E a estratégia de uma pedagogia em si coloca o objeto integrado ao sujeito, na vivência concreta do conhecer. O que transforma é a pedagogia. A compreensão é subjetiva/objetiva e o processo é pedagógico de si e em si mesmo. O Eu em autopoiese.
       Muitos sabem o quanto a pedagogia transforma. Daí as constantes interferências e abandonos nesse campo. Muitos preferem seguir nos condicionamentos, tentando perpetuar uma robotização do humano. E nesse trabalho a psicologia abre seus leques e dialoga com outros campos, dentre eles, a pedagogia. O ser humano precisa estar no mundo, importante conhecê-lo sentindo-se parte dele.

domingo, 12 de junho de 2016

Aprendizagem e sentido

       Hoje passei parte do meu dia corrigindo provas de psicologia social comunitária. A prova contava com duas questões discursivas, que precisavam ser respondidas mais com compreensão do que com acumulação de conhecimento. Ao corrigir as provas, percebia que alguns estudantes conseguiram CAPTAR O SENTIDO do ponto essencial da disciplina, que seria discutir a dimensão do assistencialismo e do empoderamento, assim como articular os conceitos de comunidade, redes e o papel do psicólogo social comunitário. Então, enquanto lia as respostas, compreendia que isso poderia ser a aprendizagem: captar os sentidos.
       Nós humanos podemos captar sentidos e aprender; produzir sentidos e criar. O sujeito na subjetividade cria intenções. A intenção produz uma ação, que gera um movimento, que irá encontrar novas intenções. Entretanto, as intenções podem ser criadas, ou seja, podemos produzir novas intenções, mas também podemos usar intenções já produzidas. O já produzido entra como recurso possível ao processo subjetivo. O humano pode criar ou reproduzir, e o criar coloca o sujeito, para o bem ou para o mal. Quando há criação e manifestação, há um sujeito ativo.
       A subjetividade é o Todo. Muitos Todos produzem um novo Todo, diferente da soma dos Todos que o compõem. A subjetividade é o Todo e só existe subjetividade no Todo. O Todo é o singular e o plural, dependendo de onde está o foco e  intenção.
       O nosso trabalho é pedagógico, temos que fazer pedagogia. Temos que educar e o que transforma é O educar como ação. E, sendo ação, se faz no sujeito. No meu caso, compreendo que trabalho com produção de sentidos, tanto como psicoterapeuta, quanto como educadora. Provoco para que o outro produza em si seus sentidos e assim alcançarmos transformação.
       A isso procurei caraterizar como Pedagogia em si - eu não aprendo fora, em abstrato. Aprendo em mim, em ato e captação de sentidos. Captar o sentido de algo compartilhado é abrir em si uma nova zona de sentido. Produzir um novo sentido é produzir novas zonas de sentido ao conhecimento humano. Alguns se dedicam a isso: ampliar o conhecimento como novas zonas de sentido. Outros apenas captam sentidos já colocados. Mas todos podem produzir novos sentidos em sua subjetividade individual. E compartilhar seus novos sentidos para que eles possam ser captados por outros.
       É estranho tentar dialogar com o aprender e o produzir. Temos que aprender coisas que outros produziram. Mas para que isso passe a ser recursos nas minhas configurações subjetivas, preciso produzir para mim. Para fazer sentido em mim e para mim precisa ser meu, em mim. Seria esse o diálogo que Mead queria com o Eu e o Mim? Dois momentos que estão em diálogo para construir o meu real? Em algum lugar a dialética se faz una. Que seja, então, na subjetividade. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fim de semestre na disciplina Psicologia Comunitária

Bom dia, comunidade!
       Vamos ao encerramento de nossa discussão sobre os temas que emergiram nas socializações. Como a turma é grande e o tempo é curto, vou aproveitar essa manhã para dar uma "aula escrita".
Sobre nossos temas sociais:
       Criança e idosos voltaram no segundo dia, reforçando um destaque a esses dois temas, pois são o começo e o final da vida e, os dois, estão demandando trabalhos sociais.
       Tivemos a presença de dois temas polêmicos: religiosidade e gênero. Passamos um pouco pela sanidade mental e física (tema relevante para a psicologia) e também pela organização social. Nossa sociedade é uma organização um tanto fragilizada que aponta carências em muitas direções. Somos um tipo de Rede onde certos núcleos retém, acumulam, deixando outros núcleos desprovidos. Esse acúmulo é de conhecimento, recursos, estratégias, tudo aquilo que pode circular por uma Rede humana. Como a Rede se faz de trocas, acumular desarmonizadamente não é interessante para a Rede como um todo.
       O tema da religião/espiritualidade precisa ser compreendido por um psicólogo comunitário da seguinte maneira: religiosidade não é o mesmo que espiritualidade e cada pessoa tem o direito de escolher sua via espiritual. Na psicologia defendemos a liberdade e o respeito em torno a este tema. E alertamos que é na religiosidade que a coisa se torna "separação entre os humanos", por conta da diversidade possível e da construção do limite que cada religião faz entre o verdadeiro e o falso. Tememos as lideranças opressoras e mentirosas. Defendemos a conscientização do tema como um elemento cultural, arquetípico, ancestral, cheio de simbolismos conscientes e inconscientes. Saber pilotar por esse tema tão rico em códigos é uma destreza importante de ser adquirida, pois assim transitamos bem por todas as matrizes religiosas que cruzarem nosso caminho de trabalho profissional.
       Fico feliz que, pela primeira vez nesse trabalho um grupo trouxe o tema da matriz religiosa africana, muito cheia de preconceitos e desconhecimentos em torno dela. É importante conhecermos os contrapontos dos mundos fechados que transitamos. Comunidades de matriz católica ou protestante aparecem fácil. As marginalizadas são mais invisíveis e protegidas, pois já sofreram muita discriminação. Existem as movimentos espíritas também, que muitas vezes caem num assistencialismo traiçoeiro. E temos as matrizes orientais, que também são possibilidades culturais de relacionamento com o imaterial.
       A psicologia precisa trabalhar pela construção de uma sociedade harmônica, que integre o imaterial e o material na mesma dimensão de respeito e igualdade de direitos. Não importa a matriz cultural religiosa, importa o sentido de conscientização e de emergência de sujeitos.
       O tema dos gêneros e das relações entre eles precisa ser compreendido por um psicólogo comunitário da seguinte maneira: falar em humano é falar em uma possibilidade de múltiplas manifestações. Quando uma criança nasce não está determinado o que ela será em termos de humano. Vai depender de todas as circunstâncias e vicissitudes que encontrar pelo seu caminhar na vida. Precisamos desenvolver o respeito por cada um, sendo cada um como um possível. Aqui entra o tema da violência e do afeto. Esse jogo de atração e repulsão nos dinamiza tanto, que muitas vezes perdemos a capacidade de pilotar nosso existir. Assim, vamos resolvendo esse jogo da maneira que conseguimos. E fazemos nossas opções por amar e por rejeitar ao longo de nossas vidas.
       Para tratarmos esses temas com coerência, precisamos ir um pouco mais além, pois aqui precisamos falar de "matriz cultural" - nossa matriz cultural é patriarcal, masculina, branca, elitizada e dominadora. Isso é simbolizado no Europeu que aqui chegou e encontrou Nativos (não brancos, não elitizados, com outros diálogos possíveis entre o "masculino" e o "feminino") e trouxe Negros (com outros simbolismos constituídos), subordinando-os. E aqui fez-se uma miscigenação.
       O brasileiro é um produto de uma mistura de diversos genes, credos, códigos e modos, que faz com que nós sejamos muito mais do que qualquer uma daquelas outras matrizes anteriores (branco, índio e negro). Assim, precisamos compreender que nessa matriz muitas coisas tidas como "verdade de maioria", podem não ser a verdade, pois temos uma parte do grupo que se fez dominante, criminalizando o que não fosse "oficial". Nessa criminalização e marginalização entra a forte matriz vinda da Europa medieval, das cortes, da Igreja e das doutrinações, que trabalhou na imposição de uma crença por meio do medo e da violência. Assim, nosso Brasil ficou muito cristão-europeu e perdeu de vista outras matrizes que lhe são importantes. Perdemos a relação com a natureza, tal como tinham os índios; e a relação com as divindades naturais, tal como tinham os negros. Nossa cultura foi forjada no domínio do modelo Europeu em termos de códigos e, desde depois da segunda guerra, esse trabalho de dominação cultural seguiu perpetuado pelos Estados Unidos, colonizando o Brasil, impondo seu modelo e dificultando a percepção das múltiplas matrizes culturais humanas que aqui temos. O dominador faz um trabalho de construção de uma monocultura, excluindo as diversidades. Por isso precisamos conscientizar as pessoas desse jogo perigoso. Temos que ajudar as múltiplas matrizes culturais a se manifestarem em suas comunidades de base. Temos que conseguir construir diálogos.
       Nesse trabalho de conscientização entra o respeito aos excluídos da grande matriz: os negros, pobres, analfabetos, camponeses, nativos, as santerias, as mulheres e suas ervas, seus saberes, seus ciclos, tão inconstantes e diferentes do homem racional, previsível e mecanicamente ritmado. Essa matriz racional e mecanicamente ritmada constrói, também, o sentido de sanidade e de loucura - campo onde temos que atuar.
       Aqui ressalto a ampla constatação de todos os grupos, que o problema, muitas vezes está em singularidades que se sentem apartadas do todo. Pessoas com dificuldades de relação, de compreensão do trabalho em grupo, interesses confusos, ganhos secundários, etc. Nosso trabalho seria o de sensibilização para a importância de um trabalho de desenvolvimento pessoal. Saber quem sou eu para ter consciência de qual lugar social eu ocupo. E assim, ajudarmos ao todo.
       Na dialética da hegemonia e da contra-hegemonia a humanidade vai construindo sua história com os diferentes, tentando harmonizar sua caminhada entre tantas desarmonias. Precisamos desconstruir muitos mitos criados para sermos boas psicólogas e bons psicólogos e conseguir ajudar nossa sociedade a respeitar as diferenças, compreender as opções, lutar por uma sociedade mais instruída e responsabilizada por si mesma. Quando colocamos a responsabilidade de nossa vida fora, ficamos caminhando, caminhando e nunca encontraremos resolução. Levantando um princípio mais autopoiético, quem sabe, emergirão mais sujeitos ecológicos nas nossas redes humanas.
Espero que o curso de psicologia social comunitária ajude a instalar essa matriz ética em cada um de vocês! Precisamos de psicólogxs comprometidxs com o todo do humano!

Abraços!!
Grata ao trabalho de grupo que conseguimos!!
Profa. Ana
Texto publicado à turma de Psicologia Comunitária do IESB Oeste, escrito na manhã de 06/06/2016, Brasília-DF.

domingo, 10 de abril de 2016

O corpo é um símbolo

       O corpo é simbólico. Ser mulher é simbólico. Ser homem é simbólico. Muitos significados e sentidos estão concretizados no corpo como um símbolo. A sexualidade, por sua vez, também está carregada de simbolismos. A perversidade é uma expressão de uma ação (sexual e/ou violenta) simbolizada, ou seja, está carregada de sentidos e significados. Melhor dizendo, de sentidos subjetivos, pois são unidades simbólico-emocionais.
       Saber traduzir esses símbolos e interpretá-los é importante para um trabalho psicológico mais coerente e efetivo. E essa tradução é feita na medida que conseguimos conjugar essa simbolização na dialógica da pessoa humana e do mundo social. Ambos são sistemas bastante complexos e cair nos desvios do reducionismo é fácil para qualquer um de nós. O que quer dizer uma palavra? O que quer dizer um objeto? O que quer dizer uma imagem?
       Existe um diálogo entre a pessoa e a sociedade na dinâmica e no movimento de um e de outro, onde um provoca o outro constantemente. E a Psicologia Social pode usar de alguns códigos para conseguir estabelecer uma decodificação coerente, fazer interpretações que passem pelos sentidos singulares conjugados com os sentidos coletivos das simbolizações.
       E algumas vezes as pessoas pensam, mas não estão produzindo, estão reproduzindo algumas coisas que escutaram e que passaram a considerar como certas. Quando isso acontece podemos dizer que as pessoas “são vividas” pelas grandes representações sociais. Na maioria das vezes isso acontece por uma falta de pensamento crítico e pela própria configuração da escola, que não nos ensinou a pensar, só a reproduzir conceitos prontos. Por conta dessa possibilidade de passividade muitas vezes as pessoas também não “agem” e sim “são agidas”. O grande desafio é discernir onde acontece o agir ou o ser agido, a voz ativa ou a voz passiva, o ser sujeito ou o ser objeto da circunstância.
       O ser humano precisa estar ciente de que sua subjetividade é o que lhe fornece seu maior potencial: o subjetivo criador. Para sairmos do ser passivo e advirmos ao ser sujeito, precisamos de estímulos aos nossos processos reflexivos que permitem um pensamento mais crítico frente ao ordenamento social.
       O nosso potencial subjetivo criador nos possibilita a construção de universos que conjugam em diferentes medidas o imaginário e o real. Então perguntamos: Que universo Deuseli criou? Que universo criaram para ela?
       No caso de Deuseli temos mais perguntas do que respostas e o psicólogo precisa lidar com essa angústia do “não saber”. Eu, simplesmente, não posso afirmar! Tudo o que posso fazer é ampliar os questionamentos. Com esse movimento de ampliar questionamentos é que podemos começar a vislumbrar o não visto.
       Quando avalio alguém como: superior ou inferior, como certo ou errado, como mais ou menos, como maior ou menor, estou lhe atribuindo um juízo de valor. Então, a psicologia que não julga por valores, e sim pelo termômetro da humanidade (mundo compartilhado, singularidade, diversidade e direitos humanos), precisa estar atenta às afirmações que faz mediante evidências que não são fatos.
       Por exemplo, não sabemos por qual razão Deuseli saiu do hospital. Ouvimos dizer que religiosos evangelizadores passam pelo hospital, mas não podemos afirmar que foi a influência deles de uma maneira linear que a fez sair do hospital. E a própria chatice de estar em um lugar onde nada acontece? E a sensação de que estão me enganando e não vão me levar ao aborto aqui dentro? E se ela saiu para tentar aborto lá fora, sozinha, em momentos da trajetória e das vicissitudes das quais não temos relatos? – Quantas possibilidades.
       Por aqui vamos caminhando pelas linguagens do não dito. As coisas que “ouvimos falar” não são fatos por si só. São só coisas que ouvimos falar. E essa consciência é fundamental para um psicólogo. A incerteza é um lugar incômodo e permanecer nela pode ser ansiogênico, mas nem sempre é possível afirmar com certeza em se falando de casos que envolvam transtornos psíquicos. A dialógica do real e do imaginário é traiçoeira, por ser cheia de armadilhas.
       Um dos códigos que temos na nossa cultura é o da machismo, por exemplo. Na nossa cultura é mais fácil ver Deuseli como vítima do que Nego Vila. Alguém pensou na hipótese de Deuseli ter estuprado Nego Vila? Ter forjado uma cena, o seduziu, o envolveu e produziu a loucura, a desmedida, a desarmonia? Ele não parece ter muita consciência de si. Um coadjuvante interessante para provocar um evento.
       Outros símbolos sociais que aparecem na história são a pobreza, o feminino, o assassinato, as exclusões, os dogmas com suas prisões, as normatizações e os desvios delas, o Estado e seus paradoxos contraditórios, a alienação das pessoas sobre a sua condição de humano.
       Precisamos nos questionar: adianta o direito à vida se não temos direito à sanidade?
       Uma reflexão sobre algo é uma construção pessoal. É conseguir olhar as múltiplas dimensões de um evento social humano e compreendê-lo por todos os prismas. Quem estava certo no caso de Deuseli? O que ela está querendo dizer ao mundo como um corpo simbólico?
       Quando pensamos em nossas instituições vemos como todas andam em falência e o quanto precisamos urgentemente reformulá-las: a escola; a família; a igreja; o estado; o trabalho. Os sentidos mudam e as instituições precisam acompanhar as mudanças e não somente ficar atreladas à prisão das tradições.
       Deuseli precisava de algo que poucos de nós temos: o direito de ser humano. Seu corpo virou um símbolo do descaso, do abandono, da incompreensão, da solidão de ser um num mundo tão cheio de gente e tão vazio de humanidade.

Essa postagem é uma homenagem à Deuseli, uma anônima brasileira sem rosto, sem vida, sem autonomia, sem chances. Personagem do documentário À margem do corpo, de Débora Diniz.
É uma postagem feita especialmente para os aprendizes de Psicologia Social II do IESB-Oeste, pois assistimos juntos ao documentário para dialogarmos sobre identidade, códigos, papéis sociais, instituições, ser humano, história e cultura. Se quer entender um pouco mais o que aqui se encontra, vale ver o documentário, que está disponível integralmente na internet.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Eu e o espelho

As distorções na reflexão da imagem: licença poética de carnaval.

     O espelho não é só um instrumento de revelação de uma imagem. Ele é também um produtor de distorções. Pode aumentar, pode diminuir, pode alongar, estreitar, ofuscar e mentir sobre nossa imagem.
     Alguns pensadores do psiquismo usam a metáfora do espelho para elaborar compreensões sobre o processo individual e o processo social de subjetivação. Assim, tem os que falam em reflexão e os que falam em refração na relação entre o um e o outro.
     Na perspectiva que assumo, onde não há separação psíquica entre o um e o outro, coloca-se a metáfora do espelho num lugar de não-ser. O espelho não há.
     Mas como, se há o um e o outro? Há o Eu e a mãe, o Eu e a família, o Eu e o grupo, o Eu e a sociedade, o Eu e o sistema. Como o espelho não seria?
     Assim seria, nas múltiplas dimensões de uma coisa só.
     Solipsismo? Só existe o Eu e nada mais?
     Não, Para o Eu existir, existe o Outro. E se Outro não é; o Eu também não é.
     É uma unidade na dualidade.
     Da dualidade à trindade, pois é Eu - Outro, sendo o - a relação.
  As codificações, ao serem decodificadas, revelam linguagens antes inacessíveis que, quando compreendidas, passam a ser acessadas. Muitas foram as formas de tentar elaborar a relação eu-outro. E, se for a do espelho, considere que ele causa distorções.

Das notas do tempo que quero imprimir hoje trago:
- Reflexões sem data.

Diferença entre aumentar e melhorar uma experiência.
     Mais interesse ou melhor interesse -
     Aumentar o interesse
     Melhorar o interesse
     Um fala de quantidade
     O outro fala de qualidade

Quanto vale uma prova?
     - Não vale um número. É somente uma bússola para o professor.
O que significa passar de ano?
     - Significa que o aluno fez, 10, 11 ou 12 anos.
O que significa conhecimento?
     - Um potencial vivo que pode ser adquirido, estimulado. E que transforma nossas vidas.

sábado, 9 de julho de 2011

Educação Ambiental e Subjetividade

Também já pude registrar meu trabalho de avaliação dos processos subjetivos envolvidos numa capacitação em Educação Ambiental.
Trabalhos pedagógicos que se pretendem psicológicos nem sempre chegam ao objetivo almejado. As transformações efetivas, que alcançam à ação e o porvir, precisam mirar a produção de sentidos subjetivos. Algo que seja capaz de reconfigurar a subjetividade, considerando que ela é individual e social.
Confiram texto publicado na Revista Brasileira de Educação Ambiental.
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