Minha razão

Olá!!
Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Psicologia de massas

    Sou herdeira daqueles que criticaram o Marxismo, dentre eles W. Reich, Edgar Morin e Fernando González Rey. Eles são pensadores e atores de uma luta pelo fim das clivagens. Eles buscam integrar e não separar. E me ensinaram a ir além dos reducionismos, linearidades e simplificações, que são tipos de problemas mentais. Se preciso demarcar um lugar de partida, essa herança seria ele.

    Por vivermos no mundo do contraditório e do paradoxal, nem sempre conseguimos harmonizar as partes que nos compõem e eu gosto de entendê-las como quatro campos, quatro dimensões interdependentes. O que acontece numa, acontece na outra também e elas, portanto, precisam estar em diálogo harmônico. Essas partes seriam a Physis, a Anima, o Logos e o Spiritus. Cada uma tem uma vida própria e tem também uma vida em relação com as outras camadas. É assim que traduzo o uno múltiplo do humano, conceito que aprendi com Edgar Morin. O uno múltiplo é multidimensional, mas eu resumo nesses quatro campos para facilitar uma pedagogia com meus pacientes. Faço isso para dar um limite plausível ao ilimitado. A metáfora é de quatro corpos a alinhar ou sintonizar, sincronizar.

Coloco essa metáfora só para deixar claro que a complexidade do assunto que aqui me proponho é gigante e que nenhum pequeno texto conseguirá abarcá-lo. Se falo de movimento de massa falo da integração de singulares complexos dentro de uma unidade complexa: a massa humana.

No nosso mundo de hoje entendemos que à distribuição socioeconômica corresponde uma distribuição ideológica e vivemos atualmente uma guerra no plano das ideias, ou seja, digladiamos pela forma de pensar e não mais pela garantia de recursos materiais ou sobre o "fazer". Isso já começou nos tempos da segunda grande guerra e agora está cada vez mais evidente com o advento da comunicação via internet e redes sociais. Temos que investir urgentemente no "aprender a pensar", pois, atualmente o pensamento está dado e as pessoas não precisam mais gastar energia para pensar. Muitos estão pensando por elas, entregando conteúdos prontos e sem nenhuma formação de uma avaliação crítica e um fornecimento coerente de recursos imateriais.

Existe um movimento psíquico nas massas populares. Podemos pensar como uma subjetividade social (González Rey) que se organiza como configuração subjetiva dinâmica, Compreender a organização psíquica das massas e a sua relação com a base econômica da qual ela se origina é um bom trabalho a ser feito. Mas o assunto não é só econômico, uma vez que muitos elementos compõem a dinâmica psíquica das massas, tais como: papéis de gênero, diferenças morfológicas, processo histórico, símbolos culturais, entre outros.

O fascismo é um movimento de massas e produz espaços relacionados ao mundo que mudou após o advento da industrialização, fomentado pela revolução francesa e pela revolução industrial, tecnológica e científica. Para compreender esse fenômeno, que vem mascarado pelo econômico e pelo político, precisamos agregar ao debate os aspectos da estrutura de caráter da massa e o efeito social do misticismo (W. Reich). Esse assunto não é só objetivo, pois nele entram os fatores subjetivos da história e também a construção das ideologias de massas. Aqui eu faço um link aos campos que compõe uma pessoa singular humana, ou seja, seu existir multidimensional enquanto ser aí no mundo.

Quais parâmetros usar para compreender o movimento das massas? Nesse estudo precisamos conjugar o medo do desconhecido, a passividade da pessoa e o assassinato do sujeito. O comportamento das massas é irracional. Por qual razão eu defendo um modelo que pressupõe minha própria escravidão? Por que é possível perceber o ditador, mas não tanto a ditadura? 

Importante salientar que nosso código moral não é divino, é humano, e desejos e proibições remetem ao medo. A psicanálise explica o movimento de massas pela castração, ou seja, o objetivo da moralidade seria a criação do indivíduo submisso, pois ele se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação.

A Família, para Reich, é o Estado autoritário em miniatura e o resultado disso é a mentalidade reacionária. A ideologia autoritária da família possui uma habilidade de manejar a emoção e evitar argumentações objetivas.  O racional fica cego, preso a um processamento irracional.

Por que motivo as massas se mostram receptivas ao engodo, ao embotamento ou a uma situação psicótica? Precisamos saber o que se passa nas massas cujas pessoas apoiam a sua própria opressão e isso não pode ser esclarecido pela política ou pela economia. Isso precisa ser esclarecido pela psicologia de massas. 

Por qual motivo as massas se deixam iludir politicamente? E religiosamente também? Pela promessa de um objetivo final. Isso está ligado ao "dar um sentido ao sem sentido".

O êxito do opressor não se deve exclusivamente à sua personalidade, nem ao papel objetivo da sua ideologia, pois a massa se movimenta por sua própria organização, que é contraditória e é na maioria formada por uma "classe média" que é conservadora e de organização familiar patriarcal hierárquica. O comportamento da massa flui na pulsão opressão - opressor - oprimido e existe uma tensão entre "código de restrição" e "código de liberação".

Podemos falar aqui em micro políticas e em macro políticas. Espaços socias são sistêmicos e vivos por si só. São organizações subjetivas, como possibilidades de produções de sentidos que podem colapsar em uníssono. Nicolélis sugere a existência de "brainnets" e eu gosto de imaginar o quão material e imaterial é esse processo da organização subjetiva social.

As pessoas mostram quem elas são quando assumem uma ou outra postura. Mas como explicar quando eu assumo uma postura que vai contra mim mesma? Ser reacionário está relacionado aos movimentos que tendem a anular os efeitos de uma revolução ou de uma mudança ou até mesmo impossibilitar as mudanças. Cientificamente falando, sabemos que as mudanças vem da esquerda e as resistências às mudanças vem da direita. Sabemos também que eu não mudo a mente do outro, só a minha!

Portanto, quero convidar aos que estão atentos e ativos (no seu lugar de sujeito da ação, tal qual aprendi com González Rey) que precisamos abandonar o lugar do descontente bem sucedido (Tart) e do inocente útil (Baldani). O movimento das massas é um tema em voga, assim como as vias de comunicação em massa. Para mim, como pensadora em inquietação, cada vez mais o assunto do sujeito e do assujeitamento se torna importante e necessário.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Psicologia Social

Neste texto irei compartilhar uma resenha que fiz sobre o livro "O social na psicologia e a psicologia social", de Fernando González Rey, cuja edição que tenho data de 2004, publicado pela Editora Vozes. Essa resenha eu fiz para meus alunos e alunas de Psicologia Social II, cuja ementa sugere amplificar o campo de entendimento da psicologia social para muito além da psicologia behaviorista (ou comportamental) norte americana. Portanto, o texto desta resenha é profundo e um tanto filosófico, mais do que teórico. Aqui não vou trazer a leitura de González Rey sobre a teoria da psicologia social, mas sua discussão sobre a ONTOLOGIA.

O livro está organizado em 3 capítulos. No primeiro ele compartilha a visão do social em diferentes campos da psicologia, no segundo ele discorre sobre as visões do social na psicologia social e no terceiro apresenta seu próprio entendimento e a sua busca pela construção de uma teoria que integre os fragmentos que encontrou no seu caminho de estudos.

É um livro de um momento de maturidade em sua própria teoria da subjetividade, que ele construía desde 1994, ou até um pouco antes, se agregarmos ao seu histórico o foco na categoria de personalidade. Como é um autor que tem algo a propor teoricamente, mostra nessa obra o que considera os pontos fracos das outras teorias que existem na psicologia social e na psicologia como um todo.

Ele deixa claro no livro como as visões reducionistas de nosso objeto de estudos (o social na psicologia) acabam por perder de vista a complexidade do fenômeno psicológico humano. Assim ele propõe a saída da assunção da subjetividade como o foco de estudos da psicologia, dentro dos seguintes aspectos:

 - termos em mão algo que atenda a todos os campos, contribuindo com a construção de uma PSICOLOGIA GERAL.

 - a subjetividade entendida como um sistema de categorias e não uma categoria em si, absoluta e determinante. Essas categorias visam evidenciar o valor heurístico desse sistema macro.

 - Compreender a subjetividade como especificidade ontológica do psiquismo humano. Nesse sentido, ela seria o campo qualitativo onde não existiriam as dicotomias, apesar de haver contradição e paradoxo.

O ontológico é um termo que González Rey emprega para defender a qualidade diferenciada dos processos e fenômenos do mundo psicológico humano. Com isso quer destacar a especificidade qualitativa que anima os registros de realidade que emergem em nossas construções. Assim, pretende superar a noção de que a única coisa a ser referida nos estudos humanos e seus espaços sociais sejam as práticas e relações.

Compreender a subjetividade como uma ontologia humana é compreendê-la como PRODUÇÃO e não como REFLEXO e é considerar que não existe ISOMORFIA entre a psique e o social, pois são fenômenos qualitativamente diferentes. O que caracteriza subjetivamente o psiquismo humano é seu caráter GERADOR.

A base ontológica daquilo que ele define como subjetividade é a unidade simbólico-emocional produzida no curso das experiências que se desenvolvem num espaço de cultura.


sábado, 2 de janeiro de 2021

A base de minha formação

Quero agradecer e honrar minha mestra e meus mestres. Apresento, respeitando a ordem de chegada em minha vida e dispostos em sentido horário, o chileno Doro Ortiz, o brasileiro Mário Baldani, a argentina Maria Adela Palcos e o cubano Fernando González Rey. (*as fotos eu consegui dando um google imagem no nome de cada um. Agradeço aos parceiros de caminhada que compartilham essas imagens na rede mundial).

Juntas, essas pessoas conjugaram em mim um saber latino-americano que nos brinda com incríveis vias, bastante acessíveis, de compreensão e transformação do mundo que vivemos.

Do Doro trago toda a minha base psicanalítica com seus desdobramentos em Jung e Reich. Também aprendi com ele a Gestal-terapia. Trago também desse mestre a compreensão da quadrinidade, carro chefe pedagógico do atendimento clínico que faço. Foi meu primeiro professor e o responsável pela minha base mais sólida.

De Baldani trago todo o saber da biocibernética (o complemento "bucal" deixo para meu companheiro de vida, Saulo Teles). Sou grata por viver a oportunidade de transformar esse saber em textos escritos e em pessoas formadas. Com muitos passos por esse caminho biociberneta abri muitos espaços. O mais legal do Mário é que ele não nos entregava o saber pronto e definido e é dele que trago o afã de saber sempre e mais. A forma que ele nos passava o saber foi embora com ele, pois Mário foi único. Imensa sorte tê-lo encontrado.

De Maria Adela trago a certeza de que o movimento cura e de que os opostos nos aprisionam quando demasiadamente tensionados e compartimentalizados. Trago a compreensão da harmonização do todo pelo seu alinhamento. Desse grupo de professores só Maria Adela está viva hoje. Eu planejava estar com ela na Cordilheira em 2020 e a circunstância de pandemia tornou nosso reencontro mágico, transformando toda a possibilidade de vivência com o seu trabalho e o grupo se fez ao seu redor. O Rio Aberto por Maria Adela é meu profundo espaço de cura. Canto e danço e danço e canto e rodo e fluo. A imagem é da Maria Adela que conheci em 1992 e que me graduou em 1997, pois ainda é assim que ela reverbera, mesmo que hoje ela esteja com quase 90 anos. Seu corpo físico é conduzido por seu corpo de luz, tenho certeza disso.

Do Fernando trago meu saber mais primoroso para a saúde e a educação, que é o entendimento da subjetividade. Esse saber transformou minha confiança em atuar na clínica, no desenvolvimento e na formação de pessoas. Com ele consegui vir a ser doutora. Ele foi o professor amigo, não o professor autoridade. Ele tentou assumir uma autoridade e, então, nós brigamos. É muito difícil um aluno vir a ser autor com um professor autoridade. O processo fica mais doloroso. Por isso te guardo em meu coração, Fernando, como o meu mais professor amigo. Contigo eu perdi muito o meu medo dos mestres e das autoridades. Nós demos certo como parceiros e assim vou te carregar pela minha vida: um grande parceiro.

Tudo o que essas pessoas me ensinaram eu escrevo em meu blog desde 2011, sitio que faz aniversário de 10 anos agora em 2021. É  aqui que, a partir de minha academicista, de minha poeta, de minha escritora, compartilho todo esse saber, que se re-atualiza sempre.

Com essas pessoas aprendi que é importante ter discurso, mas que se eu não tiver a prática, o discurso não se sustentará. E que a prática constante flexibiliza o discurso e o transforma.

Tive também outros mestres, todos significativos. Aquelas e aqueles que me ensinaram psicologia, terapia craniossacral, organização de coletivos, educação ambiental, ecologia e transpessoalidade. Entretanto, esses quatro sustentam aquilo que defendi em meu doutorado: aprender em si mesmo. Em outras palavras, a produção de sentido do sujeito do conhecer e aprender.

Estou ao dispor para aquelas e aqueles que queiram conhecer um pouco mais desse saber em si mesmo. Essa tem sido minha modalidade pedagógica e terapêutica.

Comunico que entro 2021 com os atendimentos online e que estou somando ao saber conquistado com esses mestres a biodecodificação prática de C. Flèche, formação em andamento.

E pretendo firmar os atendimentos em grupo junto com uma equipe que passou o ano da pandemia firme e reunida em trabalhos de autoconhecimento, estudos teóricos e supervisão. Grupo, galera, pra funcionar mesmo, só em grupo!! :)

É um prazer compartilhar isso com vocês agora, nesse segundo dia de 2021, dia 02.01.2021.

Que venha, então, mais um ano de nossas vidas.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O si mesmo com apoio de Jung

      Como coloquei a categoria "si mesmo" em minha tese de doutorado, venho aprofundando os estudos na mesma. Nesse processo de aprofundamento pude compreendê-la um pouco mais em Mead, que fala do eu, do mim e do self, e agora a estou captando também em Jung.
       O si mesmo em Jung tem o caráter da zona do perigo, pois extrapola os marcos da ciência moderna. Quando Jung propõe o si mesmo ele dialoga com a noção de Cristo e de Anticristo. Nesse sentido, só se faz possível o entendimento do si mesmo agregando as categorias de anima e animus. Se o si mesmo é essa possibilidade crística, transcendente de todas as formas identitárias, a anima e o animus dialogam com a natureza psíquica criada em polaridade. O si mesmo só é acessível quando nossa polaridade se harmoniza em unidade. Elas são por natureza antagônicas e excludentes e a sua harmonização é o trabalho constante no caminho do auto-conhecimento. E como a sombra está em todas as dimensões, o caminho de integração é desafio permanente, seja no arquétipo anima-animus, seja no arquétipo cristo-anticristo.
       Anima é o princípio criativo e expressivo e animus o princípio intelectivo ordenador. Animus não suporta anima, pois ela bagunça sua ordem. Anima receia o animus, pois ele impede sua expansão.
       Quando ambos conseguirem sintonizar em diálogo com o outro tornar-se-á mais acessível toda a informação disponível no "si mesmo", que entra nessa dinâmica como um outro nível qualitativo do arquétipo, mais arcaico e ancestral. 
      Acessar ao si mesmo seria a iluminação, mas, como somos seres materiais e falhos, o acesso completo ao si mesmo é impossível, pois ali mora a loucura. Jung fala: "A assimilação do eu pelo si mesmo deve ser considerada como uma catástrofe psíquica. A imagem da totalidade permanece imersa na inconsciência.", ou seja, importante estarmos atentos às divisões e harmonizações, mas sempre mantendo algo do caráter do si mesmo no oculto. Em outras palavras eu diria: a sombra sempre está no caminho, sempre vem junto. Retirar a sombra seria a morte do Eu.
       Quando pensei em uma "pedagogia em si mesmo" pretendi reificar a vivência no processo de aprendizagem. Com isso posso me apoiar em Jung, pois ele fala que compreender suas categorias e teorias nunca será possível, caso não as vivenciemos.
       Fiz transição entre pedagogia em si para pedagogia de si, pois me preocupa a prática de cada aprendiz na sua vida cotidiana e também de desenvolvimento psíquico. Sujeito e objeto não são categorias separadas e todo saber, como objeto, só existirá quando existir um sujeito. Daí o título da tese: por uma pedagogia com foco no sujeito. As disciplinas humanas serão melhor compreendidas caso sujeito e objeto integrem-se em unidade, tal como qualquer jogo energético que ocorre entre duas forças complementares. 
       

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pierre Rivière e as traduções de sua ação

       Aos que estudam psicologia, e querem sustentar o título de profissional do psique, recomendo a leitura de "Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão", coordenado por Michel Foucalt e publicado em 1973.
       Essa obra mostra o cuidado que precisamos ter ao estarmos no nosso lugar de "intérpretes" do psiquismo. Primeiro por que Foucalt sempre lembra da relação entre poder e conhecimento. Depois por que, ao estarmos cientes da subjetividade, sabemos que não basta ouvir por uma via, pois isso despreza todas as outras múltiplas vias de compreensão de uma história. E, por fim, por nos ensinar sobre as disputas entre saberes que levam ao assassinato do sujeito da ação. 
       O assassinato do sujeito da ação nessa obra culmina com o desrespeito ao sentido que o sujeito queria dar à sua vida, que seria a sua morte. No caso relatado, um fato ocorrido em 1835, uma ação revela alguém que matou para morrer. Um Eu que não matou, mas que morreu. Um Eu que matou para matar a si. Como condenar? Como traduzir?
       A discussão que está em foco é a disputa entre dois saberes superiores: o médico e o jurídico. Esses dois saberes, no tempo em questão, divergem sobre a razão e a des-razão. Se a ação é um discurso, o que ela fala? Quem eu vejo na ação? Um louco ou uma besta? Um delírio ou uma intenção? O curioso é que aquilo que para uns era sinal de loucura, para outros era sinal de lucidez.
       Destaca-se o contexto tão bem trabalhado pelos autores do livro, uma época em que a morte entra em foco e a justiça debate o matar em glória de soldado, que é o matar autorizado pela sociedade, e o matar do assassino frio, aquele sem louvor e colocado em tom de desprezo. Ambos são matar, mas são pesos distintos numa sociedade que se faz hipócrita. O assassinato torna imortal o guerreiro, mas garante o nome sombrio do criminoso. Que linha tênue habita o intervalo entre o legítimo e o ilegítimo na ação de finalizar a vida de outrem. É o próprio Foucalt que debate o cuidado em que se operam as divisões entre o "gesto glorioso do soldado" e o "ato vergonhoso do assassino". Nessa linha se forma uma sociedade patriarcal que tem no poder da vida e da morte o seu desdobramento. Como manter a integridade social quando alguns são autorizados a matar?
       O encanto nessa obra mora na elucidação de quatro vozes: a do sujeito da ação, a do povo em torno da ação, a do saber judiciário e a do saber médico. Quatro séries de discursos que indicam deslizamentos de sentidos e contradições. O objetivo do grupo de trabalho que Foucalt coordenou e que resultou na obra publicada foi: "explicar como se operam os deslizamentos, como se determinam estas contradições" partindo de confrontações entre essas quatro narrativas.
       O mais incrível dessa aventura é ver que numa mesma ação interpreta-se o sujeito como louco ou como um gênio, como um idiota ou como um ser extremamente sagaz. Na verdade, o que está em jogo é o assassinato do sujeito, só que no caso de Pierre Rivière não conseguem. Ele se faz sujeito de sua intenção até o fim.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Meu lugar de trabalho

Motivo da ação
Motivação/ação
Pensamento
     Conteúdo
     Forma
     Linguagem
     Compreensão
     Expressão
     Concentração
     Foco
Colaboração
Consolidação
Recordação
Esquema corporal
Coordenadas
Intensidades
Limiares
Seletividade
Sensitivo
Captor
Sensório
Sensorial
Integral

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Uma base para um apanhado geral

       Desde 1989 trilho um caminho ao lado da Biocibernética Bucal. É um caminho árduo, pois é feito ao lado de um saber e fazer marginal. A BCB não tem reconhecimentos científicos em certas comunidades e é tratada como senso comum questionável e pouco provável. Além disso, no meio desse caminho, mais ou menos em 2009, meu parceiro odontólogo achou por bem investir em outros focos, em outros caminhos, que não o da Biocibernética Bucal. Foi estudar implante, ortodontia e DTM.  Dentre outras, sentiu que seus colegas desse caminho marginal falavam muito em outras escolas também marginais, mas não falavam dos avanços odontológicos que a BCB carecia e do diálogo que ela deveria ativar com a odontologia mais convencional que também apontava aberturas para o entendimento do lugar da boca no todo do corpo. Porém, mesmo que me companheiro tenha feito essa opção, eu continuei caminhando um tanto biociberneta, pois quando vou com a psicologia deixo de ser marginal e passo a ser essencial nessa senda. Assim, sempre continuei intrigada e continuei estudando ecologia, mesmo depois de publicar a Biocibernética Bucal em Verso e Prosa em 2012.
       Mário Baldani sugeria que nós lêssemos TUDO e segui esse conselho. Obviamente ainda não li tudo, mas li muito desde então. São 30 anos que venho lendo e lendo e sempre ampliando o tudo que pode ser o TODO que Mário Baldani nos sugeriu de leitura para compreender a Biocibernética.
       Ano passado foi um ano em que muito pude ler e pouco escrevi. Como alterei meu sistema de trabalho, consegui mais tempo para investir em estudos necessários ao avanço nesse saber. Então, esse ano posso produzir muitos textos com base nessa leitura feita e vou aceitar o desafio de expor esses saberes aqui mais à miúde. Foi um ano que consegui ler sobre o humano, sobre o tempo, sobre o espaço, sobre o dentro, sobre o fora, sobre o de cima e sobre o de baixo. Sobre saúde, educação e espiritualidade. Sobre corpo e psiquismo. Li muita ciência e li também obras que integram ciência com outras linguagens.
       Ler filosofia, arte, ciência, espiritualidade e política, que são cinco vias de expressão do saber e que podem ser compreendidas como os cinco dedos da mão que produz nossa vida aqui nessa Terra e que perpassam a complexidade necessária à compreensão da biocibernética, é a ação necessária à conquista desse saber e consolidam um grau de formação, uma curva de aprendizagem em biocibernética.
       Assim, esse tanto lido em 2019 merece um apanhado geral, contribuindo com o avanço desse caminho marginal à odontologia, mas essencial à psicologia e outras ciências da saúde e da educação. Noto que não podemos mais adiar a apropriação de um saber essencial por todos nós, seres humanos. As chaves que nos livram da prisão são até óbvias, mas são reiteradamente camufladas, distorcidas, invalidadas. Mas quando assumirmos que é na ação que conseguimos a melhor relação com essas chaves, todo dia vai ser um dia bom para compartilhar chaves com pessoas que poderão colocar em prática e em ação os códigos que são abertos por essas chaves que nos livram da prisão.  Lembro que a prisão tem relação com a cela, que é a célula que aprisionou o plasma, o espírito livre. (Vide filme)
       Um apanhado geral pode levar mais de um ano para ser feito, mas ele tem que começar em um ponto ou momento. Vou começar, então, com W. Reich e algumas coisas que ele nos lembrou sobre os estudos e trabalhos com a bioenergética, que obviamente tem relação e afinidade com a biocibernética. Primeiro, que temos que ser científicos, senão seremos desarticulados muito rapidamente em nossas fragilidades. Depois, que temos que compreender que vivemos sobre três pilares: amor, conhecimento e trabalho. Todos esses três precisam ser livres e circular em igual proporção entre todos. E, por fim, compreender que trabalho é harmonização de todas as funções necessárias para a garantia de nossa sobrevivência enquanto espécie, afirmando que TODOS somos da mesma espécie e que, portanto temos direito ao trabalho e à qualificação para tal.
       Vamos perceber que, no apanhado geral, Reich nos brinda com três elementos (o que faz dele um pensador triádico) que estão simbolizados em três centros de inteligência: coração, cabeça e ventre, respectivamente. Assim, lembro que uma das chaves é harmonizar esses três centros em cada ser singular (quem quiser que assuma o seu) e também no ser coletivo da humanidade, que é o que  resulta dos muitos singulares que alcançaram isso. Bora começar! Se materializarmos a circulação do conhecimento que qualifica o trabalho e o garante para todos e cada um de nós, o amor ficará livre, irá circular e irá sustentar todo o sistema. Assim de simples. É por isso que os detentores do poder, do capital e da força de produção não querem colaborar. Não querem a liberdade e o usufruto da energia por todos e cada um de nós, pois assim eles perdem seus privilégios de seres detentores de energia de vida, de bioenergia. A primeira prisão é a prisão da bio-energia e do desrespeito à bio-lógica.
      
        

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Relato de experiência profissional


Estágio Supervisionado na Clínica Psicológica com base na Teoria da Subjetividade.
Dra. Ana Maria Orofino Teles – psicóloga profissional autônoma
Palavras chave: subjetividade, psicoterapia, psicoterapeuta
Atividade exercida do ano 2015 até 2018 no IESB Oeste-Ceilândia/DF

Quando parto da subjetividade na mirada de González Rey (1997, 2005, 2007, 2011) não posso falar de uma especialização ou de uma capacitação dentro de uma ordem técnica. Meu trabalho, ao longo de mais de quatro anos como professora de psicologia, focou na aproximação ao espaço psicoterapêutico como um lugar de construção de estratégias de provocação do Outro, onde a criatividade e sensibilidade do terapeuta entraram como o elemento central do processo. Nesse sentido, no lugar de educadora, coordenava atividades dinâmicas de estímulo à criatividade e aos processos de construção de sensibilidade perceptiva ao momento do outro dentro dos marcos da psicoterapia. Nos encontros de supervisão atuava na produção da estratégia necessária a cada momento específico em questão, e para cada pessoa em singular, fosse ela psicoterapeuta ou pessoa em atendimento. Tendo a subjetividade como ponto de partida, considerava o humano como ser vivo e dinâmico, não uma máquina que responde à mecanicidade, sempre disponível às infinitas predisposições básicas do vir a ser, seja para o bem ou para o mau, para o desenvolvimento ou para a estagnação. Assim, criar e produzir sempre foram as molas mestras.
A teoria fornecia, dentre outros, uma visão de mundo que possibilitava compreender a subjetividade como um espaço que não se reduzia ao intrapsíquico, ao biológico ou ao sociológico-cultural, sendo ao mesmo tempo por todos eles constituída. As categorias de sujeito, de configuração subjetiva (organização instável da subjetividade) e de sentido subjetivo (caráter gerador do psíquico, considerando a imaginação e a criatividade como instâncias geradoras de processos simbólico-emocionais) eram o suporte que investigávamos e tangenciávamos para realizarmos efetivamente as atividades clínicas. O psicoterapeuta não era visto como um tecnólogo e sim como uma pessoa em um encontro dialógico, provocando o outro a ver-se e rever-se, estimulando a produção de sentidos subjetivos que se desdobrassem em reconfigurações que auxiliassem na transformação dos seus transtornos.
Em resumo, na nossa forma de trabalhar, psicoterapeuta e paciente são compreendidos como duas pessoas que crescem num encontro, sendo a estratégia de trabalho o facilitador do encontro provocativo. Nessa abordagem psicoterapêutica não existe um modelo a ser seguido, somente o desafio de encarar cada pessoa que chega como singular e cada novo encontro como possibilitador criativo de ação e transformação da situação concreta do viver.
Para a teoria da subjetividade é importante considerar o sujeito concreto e seus processos singulares, pois sua busca não é pelos universais e sim pelas construções singulares de cada pessoa. Não é intenção da teoria da subjetividade a construção de rótulos, mas a provocação do psicoterapeuta para que a pessoa possa advir sujeito de sua condição psíquica em seu contexto social e cultural concreto.

Referências consideradas:
GONZÁLEZ REY, F. L. Epistemología cualitativa y subjetividade. São Paulo: EDUC, 1997.
GONZÁLEZ REY, F. L. Sujeito e Subjetividade: uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson. 2005.
GONZÁLEZ REY, F. L. Psicoterapia, subjetividade e pós-modernidade: uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson, 2007.
GONZÁLEZ REY, F. L. El sujeto y la subjetividad en la psicología social: un enfoque histórico-cultural. Buenos Aires: NOVEDUC, 2011.


Sobre práticas alternativas em saúde

       Para compreender o que são práticas alternativas em saúde faz-se necessária a compreensão da dicotomização produzida por anos de racionalismo. Com o tema da subjetividade abrimos caminho para as integrações necessárias entre os polos opostos: natural-artificial; racional-irracional; coletivo-individual; cultural-biológico; simbólico-emocional; impessoal-pessoal; eu-não eu, dialogizando aquilo que havia sido separado no caminho. .
       Outro ponto é: se certas práticas funcionam positivamente, por que não podemos utilizá-las na prática profissional em saúde? O termo "alternativo" está vinculado ao "não-científico"; ao "não-objetivo" e, portanto, está desvalorizado. O senso-comum não tem valor em culturas muito racionais e científicas. Mas, se são positivas e produzem saúde, por qual razão descartá-las?
       Outro ponto importante é que as técnicas não são um fim em si mesmas, pois ganham sentido somente dentro de um marco teórico que a sustente e instigue. Assim, não basta aplicar técnicas de forma abstrata, como se isso bastasse ao processo. Sempre que um profissional foi treinado dentro de uma estratégia e que tenha responsabilidade sobre as intervenções e desdobramentos, ele pode utilizá-la, desde que sempre olhando o todo e não a estratégia por si só.
       As estratégias na nossa área psicológica irão ser efetivas na medida em que forem produtoras de sentido, geradoras de novas emoções, novos entendimentos e reflexões que enriqueçam o processo terapêutico.
       As estratégias devem sempre considerar a pessoa como sujeito potencial de sua transformação, não como um processo de cura milagrosa que o atinge de fora, deixando-a no lugar de um ser passivo. Toda estratégia deve ter um caráter relacional e deve prestigiar o caráter interativo do processo de transformação.

Transformar o programa


Transformar dá trabalho!
Primeiro eu preciso assumir o que quero transformar.
Depois preciso reconhecer bem aquilo que assumi como algo que quero transformar.
Daí posso trabalhar na transformação.
Não devo usar como meta meu passado, aquilo que eu fui, mas o que posso vir a ser.
Se está difícil construir conexões com Outros, faço conexão com o Outro que está em mim.

A psicologia nos ensina que fomos crianças absolutamente irracionais que viviam no meio de seres irracionais que se diziam racionais. Somos todos absolutamente confusos sobre o que é real e o que é imaginário. Num momento que não tínhamos nenhum tipo de razão formada, éramos puro impulso, sentimento, sensação, descoberta do mundo físico e social, aqueles que já estavam na vida da linguagem a mais tempo que nós, nos enchiam de mensagens contraditórias e surpreendentes. Com curiosidade, medo, alegrias e tristezas, raivas e impaciências, cuidado e extrapolações, nos formamos no que vivemos no hoje. O Eu está no hoje, louco pelo passado e ansioso pelo futuro.

Então, registro - transformar dá trabalho!!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O Eu virtual e o Cérebro (neuro)plástico

       A neuroplasticidade é a propriedade que possibilita ao cérebro modificar sua própria estrutura e seu funcionamento em resposta às atividades concretas e experiências mentais. São atividades concretas aquelas que entram no sistema via captores de externalidade. Audição, visão, olfato, paladar e toque, são as mais conhecidas, mas temos também o sentido proprioceptivo, um sistema multi-sensorial/sensitivo. A propriocepção existe por existirem sistemas sensoriais/sensitivos particularizados. Ela é um todo que não é igual à soma de suas partes. Ela integra o todo material e imaterial de nosso corpo. Localização, limiares, expressões, amplitudes, postura, movimento - ser aí no mundo sendo um cérebro neuroplástico em vida.
       A neuroplasticidade substitui a ciência do localizacionismo, sistema teórico que defende o cérebro como determinado, particularizado e fixo. Da mesma forma, com a neuroplasticidade alcançamos um sentido de Eu que perde o determinismo, a particularidade e a fixidez. Nesse universo o Eu passa a ser um todo formado por partes, sendo que as partes só existem por existir um todo e o todo só existe por existirem as partes. Este é, portanto, um Eu virtual, pois é não localizado, globalizado e inter-atuante.
       Os avanços dos estudos sobre a neuroplasticidade corroboram pensamentos teóricos de Freud, Jung e até mesmo de Reich e sua percepção corporal da formação do caráter. Há uma confirmação científica de que a construção do Eu, na relação com o outro, nos transforma em Eus virtuais. Somos imagem de Eu, não uma fonte emanadora de sentido exclusivo, mas um jogo de espelhos que não nos permite definir onde está o objeto. Somos todos loucos em um descontrolado looping cerebral e isso está ligado à nossa história pessoal e ancestral.
       Sabendo o Eu que não existe o que poderia acontecer?
       Esse conhecimento é a curva, a chance de ir para entropia ou anatropia. Daí a importância de inserir a discussão sobre a intenção e a consciência. Pelo que existe, precisamos ser um Eu para estar no mundo, compondo o mundo com uma multiplicidade de Eus.
      Temos na propriocepção, então, uma via de trabalho da auto-regulação, sendo este um trabalho fácil e difícil ao mesmo tempo. Transformarmos a nós mesmos e proporcionarmos nossa saúde tem na plasticidade neural sua benção e sua maldição. Entendi isso ainda mais neste janeiro de 2019 com a ajuda da leitura do livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti, da Cia. das Letras, 1997. Eu levei comigo para as férias o livro O cérebro que cura, de Norman Doidge (2016), pois queria aprofundar o estudo do Eu virtual e dos jogos de intenção e compor esse post. Todavia, chegou em minhas mãos o livro sobre o  auto-engano de surpresa e com a leitura desse livro fortaleço essa discussão, pois com ele compreendi que a propriocepção é um sistema montado sobre o auto-engano. E agora? Como trabalhar para que o Eu pare de se auto-enganar e possa, assim, se auto-regular? E mais: como fazer isso se não existe um Eu?
       Esse trabalho é complexo pois, de acordo com a neuroplasticidade, precisamos integrar neurônios que estão separados e separar neurônios que estão integrados. Precisamos despertar aqueles bons que estão adormecidos e adormecer os ruins que estão ativados. As dores derivam de plasticidades descontroladas, pois áreas que regulam certas atividades vitais foram sequestradas para processar o sinal da dor. Já falei em outra postagem sobre o cérebro ruidoso e, para que o entendimento se amplie, preciso compartilhar o tema do Eu virtual e provocar o debate defendendo que o Eu só será real quando estudarmos em ciência de primeira pessoa. Os estudos neuroplásticos confirmam que descobertas científicas são feitas quando os médicos profissionais se tratam (Doidge, 2016). Muitos avanços partiram de pessoas que adoeceram e fizeram ações concretas para a sua recuperação. Saúde, dor, neurose são campos de ação da neuroplasticidade e precisam de um Eu intencionado para se transformar. Se eu crio a dor, eu também a des-crio mas, sendo o Eu virtual, quem cria e des-cria?
       O Eu virtual, na verdade, começa com o corpo virtual. Temos uma imagem corporal formada na mente e representada no cérebro e daí, inconscientemente, projetada no corpo. É um corpo virtual, pois possui certa independência do corpo físico. É uma imagem construída a partir de múltiplos estímulos de diversos mapas cerebrais que envolvem principalmente a visão, o tato e a propriocepção, assim como de qualquer mapa que possua registro informacionais de sensitividade e emoções em nosso sistema neural. A imagem corporal representa "o conjunto dos diferentes estímulos dos vários sentidos para o cérebro, mas inclui também as ideias carregadas emocionalmente que a própria pessoa tem sobre seu corpo." (Doidge, 2016, pag. 48).
      O Eu é e não é em um corpo imaginário projetado no real. As construções que fazemos de saúde ou de doença são produtos dessa plasticidade do ser e não ser em projeção. O paradoxo está em que é no Eu virtual que reside a entrada e a saída do sistema. O Eu que é e que não é é quem vive e dita o que vai viver. Não somos loucos, não temos dores. A única coisa que temos é, talvez, um cérebro que tenha dificuldades de virar páginas. Sou um Eu virtual que acredita que vive o que vive. E quanto mais eu fixar, mais neurônios eu vou sequestrar para essa fixação.
      Para um outro post merecemos falar sobre a humanidade como um grande cérebro que tem um Eu virtual. Tal como os neurônios de nosso corpo, que estão todos interligados, os humanos também estão por suas tramas sociais e culturais-históricas. Mas isso é a delícia do tema da subjetividade social, que merece mesmo debates dialógicos próprios. Para finalizar, deixando o gancho, só peço com gentileza ao seu Eu virtual que se recorde que está no mundo e que o mundo existe. Ou não?
       E lembro que a psicologia ajuda cérebros a virar páginas. Esse tem sido o nosso trabalho cotidiano.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O trabalho no caráter

       Somos seres desviados e desviantes. As restrições, que acontecem em multidimensionalidade (corporal, psicológica, social, cultural), impedem o fluir autônomo e saudável. As restrições funcionam como diques, obstáculos. Liberar é soltar o movimento das ondas e ajudar o corpo no auto-regular-se..
       Na terapia craniossacral usamos toques suaves para desmobilizar cistos energéticos. O cisto pode estar longe do ponto do trauma, pois ele se instala onde encontra uma resistência à propagação da onda energética do impacto. Se as mãos seguraram o corpo na hora da queda, o cisto pode estar instalado no ombro, ou no pescoço, ou até mesmo na cabeça, dependendo da força do impacto e da propagação.
       Quem trabalha com dor deve sempre lembrar que a dor é multifacetada e com mais de uma máscara. Uma dessas máscaras é a dor referida, ou seja, dói aqui, mas o foco é lá. Da mesma forma um cisto energético, que se instala onde a força da impacto é anulada pela força de resistência dos tecidos do corpo.
       Muitos cistos, muitas marcas, constroem o nosso caráter, tema que já pude trabalhar em outro post desse blog. O caráter é nossa armadura, nossa forma que formatou o fluido da configuração, onde estacionou a personalidade. É como um modelo pré-fabricado, um molde que nos coloca na síndrome da repetição, forma de expressão da neurose.
       No nosso trabalho com toques suaves e diálogos prospectivos vamos ajudando a expressão da consciência que dissolve os cistos. Na conscientização vamos saindo das resposta automáticas de nosso robô 0 ou 1 e permitimos a expressão da resposta espontânea mais natural, menos artificial.
       Uma resposta se difere de uma reação. A reação é automática, a resposta é espontânea. Quando a vida te colocou um desafio você teve uma reação ou uma resposta?
       Todos nós, no geral, somos muito reativos, pois atuamos a partir do caráter automaticamente, do modo como ele foi programado. Liberar os cistos é trabalhar na desprogramação, permitindo novas re-programações. Quanto mais reativo somos, mais basal, mais reptiliano, mais luta ou fuga, mais garantia de território e sobrevivência sou. Assim, dessa forma, para chegar a dar RESPOSTAS à vida, precisamos trabalhar o caráter. Precisamos trabalhar algumas das rotinas seguras, muitas delas contrárias à natureza, onde nos estabelecemos e fizemos nosso patamar, nosso alicerce.
       Na psicoterapia conjugada com a terapia craniossacral desenvolvemos  o sentido de viver a vida como um mistério e deixamos de entendê-la como algo a administrar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Para a Psicologia Comunitária e além

       Um dos campos que estudei com mais profundidade nos últimos quatro anos foi a Psicologia Social Comunitária. Esse campo de estudos e de ação (pois em meu entender pode ser considerado uma ciência aplicada) tem nuances desafiadoras, pois trabalha a integração entre a pessoa e seu espaço coletivo e/ou social.
       Para ampliar minha compreensão sobre esse tema da relação entre o singular e o coletivo plural tenho dedicado anos de estudos a alguns autores, dentre eles Edgar Morin, Humberto Maturana, Ilya Progogine, Fernando González Rey, dentre tantos outros. Recentemente tenho dado tempo de estudos à propriocepção e à neuroplasticidade, linhas complementares ao ser psicóloga. Atualmente estou em parceria com Francisco Varela e sua possibilidade de consolidação da ciência em primeira pessoa, estudos que fundamentam a defesa de minha tese da pedagogia de si em si. Talvez eu tenha entrado em campo obscuro, mas talvez eu esteja em campo muito fértil para os tempos atuais do viver humano. O que me faz sentir segurança é Capra e Luisi em seu "A visão sistêmica da vida", laço importantíssimo na tecitura dos nós e fios que sustentam a rede que me sustenta em meus saltos.
          As epistemologias de complexidade e subjetividade nos indicam vias de compreensão do funcionamento dos grupos e dos coletivos. A subjetividade é uma categoria que consegue reunir o todo no campo da psicologia e merece ser estudada para ser bem compreendida, reverberando isso na operacionalização do Todo. A complexidade é o tudo no todo e se auto-define. Eu as trago aqui como fundamento e plataforma.
       Por muito tempo a subjetividade foi tomada só pela singularidade e, portanto, sua compreensão como algo passível de abarcar o grupo demorou para acontecer. Todavia, atualmente já temos a categoria subjetividade colocada como possibilidade de compreensão do todo complexo e as conversas podem subir alguns tons e, quem sabe, algumas escalas.
       Quando falo de psicologia comunitária, falo de trabalho nos sistemas e falo em multidimensionalidades. Na ação concreta de profissional preciso conscientizar-me de qual sistema trabalho: se é o grupo ou a comunidade ou ainda, a sociedade. Esses agrupamentos possuem diferenças qualitativas, mas possuem semelhanças funcionais. Respondem aos mesmos princípios por serem sistemas, mas guardam sempre em si sua característica singular. Esse pensamento os colocam em semelhança, mas nunca em igualdade.
       Nós, como espécie humana, formamos grupos para a nossa sobrevivência e, enquanto grupo, precisamos nos autorregular. Da mesma forma que um sistema vivo se autorregula na sua singularidade (um corpo biológico), também um grupo se autorregula como unidade, como um corpo.
      Como integrante do grupo eu preciso visualizar o que o grupo precisa, para além do que o que eu preciso, ou melhor, do que o Eu precisa. É um exercício difícil conjugar o Eu no Todo sem perder o Eu e sem perder o Todo. E, como tensão inerente, o maior medo do Eu é perder-se para sempre no Todo. Aqui evidencio o que muitos autores colocam como "a morte do ego".
       Um dos tópicos que defendo é que nessas investigações de psiquismo é bom usar o "si mesmo" para descrever ou avaliar uma situação. A referência seria: qual a experiência do "si mesmo"?
       Em tempos de defesa de meu doutorado e não compreendia muito bem, mas hoje entendo por qual razão os doutores e doutoras de minha banca de defesa me interpelaram: que "si mesmo" é esse? - colocando no debate um tom de temor!
       Na minha inquietação sobre o si mesmo, que não pararam após minha defesa de tese, encontrei os debates sobre o self, categoria controvertida nos campos de pesquisas de meus pares. O self fala de si quando deveria falar do outro? Como falar do outro se não por meio do self? Como é possível considerar isso ainda científico? O self existe? Ou ele é um puro reflexo do Outro? Como validar um espelho sem ter clareza do objeto que produz a imagem?
       Aquilo que posso chamar de meu contexto histórico e cultural coloca na conversa assuntos curiosos do tempo contemporâneo em que percebo a Inteligência Artificial não mais como "ficção científica de filme", mas como realidade factual de nosso cotidiano. Ver eleições presidenciais sendo decididas em espaços de IA me indicam isso claramente. Temos ao nosso favor um espaço cognitivo que, cada vez mais, atua de forma interventiva no sentido de ser humano subjetivo no mundo. Estamos vivendo novos modos de subjetivação e ainda não conseguimos alcançar plenamente o que isso representa. A realidade está claramente manipulada e posta ao serviço do imaginário social.
       Então, a Psicologia Comunitária precisa se apropriar cada vez mais do entendimento do que são redes, do que são conexões, do que são tensões e processos, do que são os encapsulamentos, do  que são as ativações, do que é o conhecimento e qual sua relação com a ação, do que é o Todo e do que é o self.
     Como profissional da psicologia prefiro usar a categoria subjetividade à categoria comportamento. Comportamento é uma categoria da mente analítica e essa mente corre o risco de tomar a parte pelo todo. A subjetividade, por sua vez, coloca em evidência a parte, o todo, o passado, o futuro, o singular e o coletivo e auxilia na produção da mente não-analítica e não-linear.
       Subjetividade é o que vivemos agora e no agora está o sujeito. Sujeito, na teoria da subjetividade  de González Rey e também no pensamento de Touraine, é a tensão do singular com o social, algo inerente à condição de ser. Sujeito desperto é bom, mas não é fácil! Muitas vezes a pessoa defende estar posicionada em sua opinião, mas ela está sendo levada pelas tensões do Todo e do histórico-cultural. O estruturalismo defendeu que somos vividos pelo coletivo, que não tem sujeito, Mas a sociologia se curvou ao sujeito, dando seu lugar novamente após seu martírio científico. Como fazer para eu saber se sou sujeito ou se estou assujeitado?
       Nesse sentido, recomendo o espetáculo Nanette, de Hannah Gadsby, disponível na Netflix. A autora e intérprete mostrou seu trabalho com a tensão e fez uma leitura de mundo de impressionar. Seu trânsito pela subjetividade (social, para não perder o sentido de dialógica singular e todo) foi magistral. E ela apresenta o mundo em mudança e a relação da mudança com a resistência.
       Gostei muito desse espetáculo, pois como psicóloga, trabalho com tensão. E é só olharmos um mínimo mais atentos que vemos o quanto nosso mundo de hoje está em tensão. E tensão é espaço para emergência de sujeitos. Ou não!
       Na relação entre o singular e o todo, entre o pessoal e o social, existe um fenômeno que é:
- quanto maior o posicionamento do sujeito, maior a tensão. Essa tensão ou fará revolução ou fará o extermínio do sujeito. É aí que temos as histórias dos heróis, dos mártires e também dos anônimos que vivem um dia após o outro sob uma tensão coletiva que sisma em mover o curso da história.
       Lembro que o foco desse texto é a produção de uma mensagem para a psicologia comunitária. Lembro que não existe outra possibilidade de olhar o mundo que não seja a partir do Eu. Lembro que os estudos do Eu estão entrando nas vias da "mind with no self" e que o Eu precisa ser um agente duplo que transita entre o universo da mente e da não-mente, do ser e do não-ser, do todo e da parte.
       Quando falamos de revolução, de que REVOLUÇÃO estamos falando?
       Eu falo de revolução de percepção! O mundo irá mudar muito quando a percepção mudar. E precisamos considerar nosso lugar de Eu no todo e desenvolver os estudos em primeira pessoa e a partir daí validarmos nossas teorias, ou não.
      Reflexão, posicionamento, ação e conexão. Essas são nossas possibilidade enquanto elétrons disponíveis para um sistema maior. Essa é a dica que dou para os trabalhos sociais comunitários: trabalhar nessas quatro instâncias da circunstância: REFLEXÃO; POSICIONAMENTO; AÇÃO; CONEXÃO.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Notas sobre o filme Anticristo


Notas sobre o filme Anticristo[1]

Toda a história do filme e a escolha do título mostra a importância de primeiro questionar-se: o que é o Anticristo? Quem é o Anticristo?
Da mesma forma, ao perceber que se trata de um filme interessante para trabalharmos na ordem do simbólico, eu lançaria a questão: o que é o simbólico?
Esse é um filme que caracteriza bem a construção mental que mistura e conjuga o imaginário e o real. Os limites entre essas instâncias humanas são tênues e difusos, tal como nos retratou muito bem o filme em questão.
Nesse sentido, vale lançar mais uma pergunta: o que é o imaginário? Recordando que Castoriadis ressalta o quanto o imaginário individual mistura-se com o imaginário social.
O filme parte do corpo, da sexualidade e mistura vida, morte, dor, sofrimento e caos. Junto com todos esses elementos, agregam-se algumas construções simbólicas da humanidade, dentre elas a maternidade, o feminino, a loucura.
Um filme sempre passa pela construção de seu autor, que elabora um roteiro e constrói um enredo para apresentar um espaço reflexivo aos que assistem sua obra. Nossos estudos de psicologia se enriquecem muito com as possibilidades que os filmes nos trazem. No caso específico do filme Anticristo, encontrei os riscos que corremos em nossa profissão ao transitarmos no limite entre a sanidade e a loucura.
Mas, como se construiu o transtorno no filme?
A morte do filho entra como uma situação desencadeante de um quadro mais profundo. Não é ali que o transtorno começa, mas é ali que ele começa a se tornar insuportavelmente manifesto. E o companheiro, sendo um profissional da área psíquica, assume a empreitada de trazer sua mulher de volta ao mundo cotidiano, tentando ajudá-la na sua reconstrução.
O trabalho foi de conhecer-se confrontando seus medos, tentando racionalizar o irracional para poder traduzir a angústia emocional que se materializava em ansiedade corporal. A unidade entre o corpo, a mente, os processos simbólicos e as expressões emocionais são o campo da complexidade onde o profissional irá atuar.
Todavia, no quadro apresentado havia um particular: o profissional estava envolvido emocionalmente na circunstância. E ele corre um risco ao assumir o caso e tirar sua mulher da anestesia do remédio para defrontar seu quadro perturbador.
Em um diálogo que engloba o espaço de morar e o espaço de refúgio, monta-se aos poucos um cenário que culminará na tragédia. A constatação de que a lucidez, há muito, não estava presente, e de que a situação desencadeante da morte inesperada do filho era só uma ponta de um continente mais amplo do inconsciente, vai permeando um caminho. A escolha de um tema para a construção de uma tese de doutorado e a escolha de isolar-se para a produção da escrita acerca do tema, convergem como fonte de produção de sentido subjetivo sobre o ser mulher e estar no mundo, confundindo um pensamento crítico com uma adequação ao pensamento criticado. O ser mulher deixa de ser uma luta pela liberação do feminino para se converter na expressão do mal natural que há na mulher, algo do mais profundo arquétipo de uma sociedade patriarcal e machista. A mulher se converte na algoz de si mesma.
Muito mais do que uma discussão psicológica, o filme nos abre um diálogo aos espaços mais amplos do humano que envolvem o imaginário social e o simbólico. Unido a isso a construção do sujeito em espaços subjetivos de integração entre o sentir no corpo e na alma. As dores, os medos, as inseguranças, as incertezas.
O fenômeno da natureza entra no enredo do filme como o lugar do possível e do impossível. As cenas parecem indicar uma confusão entre o sonho e a realidade. O personagem que estava na busca de uma possível cura começa também a invadir e ser invadido pelo espaço da loucura. Seus sonhos começam a revelar as dinâmicas psíquicas inconscientes que podem ser dele mesmo, mas também dos dramas da mulher. A gazela que abortou seu filho, a raposa que devora a si mesma, o corvo que mostra a noite e o desespero da morte, todos como símbolos que se traduzem numa configuração subjetiva do transtorno de um, que se mistura com o transtorno de outro.
Por um momento parece que o corpo imolado será o do homem. Mas no desfecho, mais uma vez, o corpo imolado é o feminino que, já mutilado, é sufocado. Ao sufocar o feminino a angústia se dissipa no sonho do masculino, vendo-se cercado por pilhas de corpos femininos que transitam sem face, sem uma identidade, sem um destino claro.
A resolução da loucura acaba sendo a própria loucura, algo que desafia o pensamento de nós, psicólogas e psicólogos, que nem sempre alcançaremos a dimensão criativa da mente de um ser que transita nos limites incertos entre o real e o imaginário.
O simbólico é o que está associado ao real na construção de uma representação. O simbólico traduz em algo acessível o inacessível da mente. O imaginário é o espaço criativo de construção infinita. Local onde tudo é permitido, onde a lei não é clara, onde a ordem é e não é necessária.
Lidar com o humano, ser portador de dimensões complementares, ao mesmo tempo que antagônicas, é um desafio ao que se pode chamar de lucidez. Esses espaços que nos desafiam, que nos balançam, são aqueles possíveis do humano: o bem e o mal, a dor e o prazer, o medo e o amor que dá segurança. Saber onde um acaba e o outro começa não é tarefa fácil. Daí a importância de cada um se converter num pesquisador de si mesmo e traçar em si o mapa que poderá dar um suporte necessário ao trabalho nos labirintos da mente imaginária e produtora de sentidos subjetivos que integram a emoção e o simbólico em uma unidade subjetiva.
Assim, para finalizar, volto ao meu ponto de partida: o que é o Anticristo? O que representa simbolicamente em nossa sociedade a imagem do Anticristo? Em poucas palavras, a expressão do medo. Qual medo? O medo da morte. E quem no filme encarnou o Anticristo? Acredito que sociedade, a sociedade cultural-histórica. A sociedade que cria símbolos para o bem e para o mal. No caso em específico, o papel da mulher em nossa sociedade, ou seja, a mãe perfeita que não descuida de seu filho, a mulher passiva que dá prazer ao macho, a mulher que, ao sentir prazer, encarna em si o símbolo do mal, do pecado.



[1] Notas elaboradas pela Prof. Ana Maria Orofino Teles para compor a dinâmica do Núcleo de Estudos Psicologia e Arte, coordenado pelo Prof. João Reis, curso de Psicologia - IESB Oeste, Ceilândia, setembro/outubro de 2015. Filme debatido: Anticristo, de Lars Von Trier, 2009.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Uma fala aos que se formam em psicologia

Esse ano fui paraninfa dos formandos de Psicologia. Construí uma fala especialmente para eles mas, chegando lá, percebi que precisava incluir na fala a pedagogia, pois a formatura era dos dois cursos. Assim, elaborei outros dizeres para aquele momento. Mas, para não perder aquilo que eu gostaria de realmente ter falado aos nossos novos psicólogos e psicólogas no mundo, compartilho aqui minhas ideias para que elas não se diluam na minha memória e se apaguem na cotidianidade da vida.   

       Agradeço aos queridos formandos e queridas formandas estar aqui os representado e traduzindo a fala de seu corpo docente, tarefa que não é fácil, haja vista a diversidade de áreas que compõem a psicologia.
       Para mim, formar-se em psicologia é momento de conscientização profunda de uma responsabilidade, pois significa formar-se para o trabalho do cuidado. Um cuidado que, em si, requer bastante cuidado, pois é ação que toca nas vias da dor, do medo, da raiva, da alegria, do espanto, dimensões do humano por vezes incontroláveis.
       Nesse lugar do cuidado eu preciso sempre lembrar que eu cuido do Outro e nesse ponto quero abrir caminho ao paradoxo central da psicologia: o Eu e o Outro. Paradoxo que nos deixa em contradição e em lugar de respeito, pois, o Eu e o Outro é a díade básica da formação psicológica de uma pessoa.
       Assim, como profissional da área psi, preciso estar atenta ao que de mim no encontro aparece, ao que do outro no encontro aparece. Preciso observar algumas questões como: onde nos ligamos? onde nos afastamos? quais nossos papeis?
       E não posso esquecer uma questão central: como cuido de mim, sendo eu um outro?
       Por essas questões tão inquietantes eu, como profissional, faço opção pelo estudo da subjetividade e da complexidade. E "subjetividade" é palavra-armadilha, pois tende a nos levar ao extremo do subjetivismo. Por isso precisamos ler a subjetividade em contextos concretos, integrando ao subjetivo, o objetivo, pautando-se no sujeito da ação.
       Lembro os momentos que as falas em sala de aula produziam um encanto. Esse encanto, acredito eu, deriva da possibilidade de transitar entre os extremos e de colocar díades dicotomizadas em diálogo, em movimento, tal como o Eu e o Outro, tão dicotomizados na ciência e também em algumas filosofias.
       Como aqui não posso tomar muito do tempo para ampliar esse pensamento,vou me restringir a trazer à memória de vocês algumas das dicotomias clássicas que a subjetividade nos auxilia a compreender integradas. Lembrem que pensar em subjetividade é pensar uma complexidade de dualidades em tensão e foi mais ou menos isso o que queria propor o clássico Jung, ampliando Freud.
Algumas delas são:

  • o eu e o outro
  • a consciência e a inconsciência
  • a biologia e a cultura
  • a história e o futuro
  • o racional e o irracional
  • o pensar e o sentir
  • a ação e a inação
  • a massificação e a singularização
  • o imaginário e o real
  • a mente e o cérebro
  • a carne e o espírito
  • o sujeito e o social
  • dentre outras possíveis ...
       Como dicas que sinto importantes na suas vidas profissionais trago agora:

  • Conseguir conjugar as diversidades; lembrar que todo absolutismo é cego e de que toda verdade soberana é ditadora.
  • Sejam fluidos como as águas, leves como o ar, sólidos como a terra e transformadores como o fogo. Treinem seus ouvidos. Escutem. Não sejam apressados. O tempo é nosso maior mestre.
    Psicologia é conhecimento ambíguo, paradoxal, contraditório. Daí desdobram-se algumas dificuldades que nos separam dentro de nosso campo do saber, pois nós ficamos presos no movimento tensional das diferenças. Entretanto, o que nos une é o humano como habitante do planeta terra e nosso fazer precisa avançar e dialogar com a ciência do século XXI. Portanto, estudem e atualizem sempre, para assim ajudar a serenar cada vez mais a tensão que nos afasta, integrando cada vez mais os nossos saberes. O caminho que vocês tem pela frente é um caminho de compromisso social, não se esqueçam disso. E espero que a saudade e as boas lembranças do curso sejam molas propulsoras ao constante capacitar-se.
         Boa sorte a todos e muito grata mais uma vez por poder estar aqui e agora junto com vocês.

Fala aos formando de psicologia do IESB Oeste - turma 2017.2 - 01 de fevereiro de 2018 - Ceilândia/Brasília


sábado, 8 de julho de 2017

Trocas de ciclos

       Vida de docente é vida cíclica.
       Semestre após semestre.
       Nesses ciclos, tempos de reordenação de caos, para compor novas ordens.
       Papéis que vão, mas ideias que ficam.
       Ser docente de psicologia é mágico, pois lidamos com a magia do humano como ser que transita entre o real e o imaginário. Precisamos saber pilotar bem na brecha entre esses dois mundos, para poder vir a ajudar outros a pilotar bem essa brecha, essa transição, essa múltipla possibilitação.
       Nesse processo cíclico e reflexivo do docente de psicologia, aparecem esquemas registrados, resultados de conversas consigo mesmo, ou de conversa com outros.
       Tipo isso:
       Psicopatologia - Psicose (humor e delírio); Neurose; Social - Ciência legitimada - Epistemologia
       Relação entre as diversas psicologias.
       Complexidade.
       Um <---> Um


      E mais um pequeno papel se vai no tempo.
       E mais uma ideia que fica em um blog.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Jung e o diálogo do coletivo com o individual

       Esse post começou a ser gestado em julho, agosto desse ano. E precisou ficar no forno por duas razões. A primeira, uma certa falta de tempo e oportunidade de estar sentada com o livro, numa mesa adequada e conseguir organizar minhas notas de leitura em um texto mais ou menos coerente. A segunda foi um total respeito à Jung e ao que ele falou. Não poderia ser leviana e colocar um post de Jung com superficialidade, com tentativas de me mostrar dominando o tema, com desrespeito ao que a leitura do livro O Eu e o Inconsciente me suscitou. Assim, considerando essas duas razões abro a permissão para falar sobre Jung e seus pensamentos.
       Eu acredito que compreendo o pensamento de Jung por ser uma jovem garota de 50 anos que estudou com bons professores e que já faz parte de um tempo novo nas linhas do conhecimento. Só por essa razão me atreveria a debater aqui suas ideias, pois ser especialista em ecologia humana me facilita a compreensão de muitos códigos.
       Eu estudei Jung mais profundamente para colocá-lo em nosso primeiro livro (A subjetividade social na escola, 1999), pois imaginava que ele poderia dialogar com a subjetividade de González Rey, e também por um respeito histórico a alguém que falou em inconsciente coletivo num tempo, o que me validaria estar falando em subjetividade social naquele meu hoje.
       Esse ano voltou um chamado para ler Jung e um encontro com esse livro na minha estante. Tenho uma coleção de livros de Jung que herdei de uma professora querida. Eu os tenho para ler quando tiver o tempo. Assim, vendo os muitos, resolvi retomar esse estudo por esse livro citado, cuja leitura me revelou coisas importantes, e que busco aqui-agora compartilhar.
       Estudar Jung esse ano foi como mergulhar nos mares que abriram as portas para o entendimento de uma psicologia transpessoal. Quando ele propõe que o inconsciente tem uma dimensão que é coletiva, ele proporciona uma amplificação ao sentido da personalidade, do psíquico e do diálogo do singular com o coletivo. A pessoa individual, formatada biologicamente pelo corpo, nasce una. Mas é engolida pelas ondas das matrizes arquetípicas que dão a este antropomórfico uma corrente de influências inconscientes que lhe ajudam a organizar o ser Eu no Todo do humano no mundo.
       Anterior a muitos outros, pois esses escritos são de 1916, 1928, ele ousa trazer ao científico o marginal subjetivo. Freud forjou o inconsciente do eu e colocou o objeto fora, no outro. Jung forjou o inconsciente criativo, pulsante de possibilidades, magnificamente compartilhado no tempo e no espaço, desde que o humano fez-se humano, e por onde e quando ainda for fazer-se. O inconsciente não como um depósito da história pessoal, mas como conteúdos psíquicos transpessoais não inertes ou mortos e que não podem ser manipulados à vontade, pois são entidades vivas e que exercem força de atração sobre a consciência (p. 20).
       Assim, estranhos caminhos pode seguir a personalidade ao tentar lidar com sua individualidade (temperamento?) e sua coletividade (caráter?). Completamente jogada no círculo sem fim dos pares de opostos, vive a tensão entre o ser lúcida e não ser. Ser Eu e não ser. E, por incrível que pareça, em Jung a morte do singular impede o avanço do coletivo. Transpessoal e paradoxal é a vivência do psíquico, pois existe um realizar de si mesmo que seria o mais singular. Se vou muito ao coletivo, alieno-me. Por outro lado, o coletivo precisa que eu faça esse caminho de individuação. O coletivo e o individual possuem um diálogo mágico de auto-criação e criação mútua.
       O individuação seria o processo de despojar-se (o si mesmo) dos invólucros falsos de uma persona e de poderes sugestivos de imagens primordiais. Seria a possibilidade de ser singular sabendo-se no e do todo.
       Para Jung o inconsciente e o consciente não operam por oposição e sim por um princípio dialético e o "si mesmo" é os dois em um. Para que isso fique claro, a pessoa precisa conhecer em si mesma esses conceitos e fazer o caminho do auto-conhecimento. Esse ponto é importante que eu traga, pois é um dos pontos de divergência com a teoria da subjetividade de González Rey, que prefere falar que o conhecimento de si é algo que não existe. E aqui cabe uma questão: o que seria o conhecer? Quem é o conhecedor? Onde habita o conhecimento?
       Outra questão importante, que não coloco como interrogação, mas como ponto de reflexão, é que encontro em Jung a menção à ciência em primeira pessoa. Em algum momento do texto ele ressalta: não basta ler minhas palavras (ou mesmo ouvi-las) para compreender os meus conceitos. Imprescindível vivê-los.
       Meu primeiro professor de Jung foi Doro, que foi também meu primeiro professor de psicoterapia e  foi a primeira pessoa que me levou ao processo de formação e conhecimento em primeira pessoa, então, posso afirmar que compreendo Jung, pois vivi em mim o processo da construção de si no todo. Os arquétipos, os mitos, a vida se misturando com o sonho, a plena incerteza de ser e até mesmo de estar, tudo em mim vivido e compreendido.
       Grata Jung! Grata Doro!
       Os estudos sempre continuam, mas a confirmação que certos saberes chegam somente em primeira pessoa é o que me anima a continuar e continuar a aprender e trabalhar. A difícil teoria de Jung nem precisa ser toda estudada e dominada para compreender que o que ele defendia era a integração do sujeito com o objeto e por aí devem seguir os caminhos de uma psicologia transpessoal. O viver é um jogo de espelho que mistura o individual com o coletivo e cada um deverá empenhar-se no seu próprio caminho de tradução de imagens que são realidades e de realidades que são meras imagens.
       Como tenho ainda um tanto de vida, ainda um tanto tenho para aprender sobre isso ...

JUNG, C. G. O eu o o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1971.
Um post de Dia de Reis. Agradeço ao momento de férias que me aproxima de meu blog.

O Eu e o Grupo

       Considerando os processos terapêuticos em suas possibilidades individual e grupal, estudo os livros que chegam novos e os que retornam,para poder melhor trabalhar com os estagiários. Um livro que chegou como novo, pois eu nunca o havia estudado antes, foi Grupo de encontros, de Carl Rogers.
       Eu, que trabalho com subjetividade, aquela marginal que se quer acadêmica, precisei dar um referencial aos alunos de estágio, na hora deles escolherem sua opção de aprendizagem. "O que eu coloco?", e a coordenadora pergunta: "O que você faz?" - Eu esclareço ... então ela sugere: "põe humanismo". Ok! Aceito. Lá vou eu pela terceira via (as três vias são: comportamentalismo, psicanálise e humanismo), aguardar meus alunos de estágio.
     Então os alunos começam a me procurar nessa imensa fila, pois desde sempre, de quando entrou a terceira via, tem sido assim: muita procura ao tal do humanismo. Ao andar da fila, logo percebo que preciso dar o importante esclarecimento aos alunos: "bem, sou humanista, mas não rogeriana, ok?" - vários vieram para "estudar mais Rogers". O fato é que eu não poderia mesmo me dizer rogeriana, em hipótese alguma, pelo pouco que li de Rogers na faculdade e mesmo na vida de formada. Naquele tempo eu li muito mais psicanálise e teorias do desenvolvimento do que o humanismo rogeriano.
       Assim, os semestres começam, os circuitos se fazem, o tempo passa e chega em minhas mãos esse livro que agora leio, e que aqui compartilho.
       A primeira coisa que me chamou a atenção nesse livro foi o seu começo. Ele foi gestado na década em que nasci, e o autor cuida para entrar em seu universo norte-americano que associa qualquer tentativa de trabalho de grupo como uma ameaça ao modelo hegemônico. Constato que os tempos são de Guerra-fria e esse é um assunto que me chama muito a atenção, principalmente por conviver com professores desse tempo, latino-americanos saídos da repressão, que me ensinaram todo o sentido político dos trabalhos de grupo. Com essa leitura em Rogers compreendo o sentido histórico da construção dos trabalhos de grupos na psicologia, evento misturado com o sentido social, político, econômico, entre outros. A clássica disputa entre o individualismo e a integração. Assim, chega a percepção de que esse momento histórico, desses autores dos anos 60 da século passado é fundamental para o momento de construção de sentido ecológico que vivemos hoje, tema esse que trabalho na psicologia social comunitária.
       A segunda coisa que acontece comigo ao ler esse livro é que, mesmo que eu tenha feito algumas individuais no começo de meu processo, preciso reconhecer que grande parte da minha formação foi em grupos, com o Doro, com Maria Adela e até mesmo com Mário Baldani. E todos esse professores conjugaram com maestria o sentido do grupo e do eu ao longo de meu processo terapêutico e de desenvolvimento humano. Então, estou segura com a pedagogia em si no processo de formação dos futuros terapeutas que comigo aprendem.
       Seguindo a leitura do livro, selecionando os capítulos que interessam á formação e que posso usar semestre que vem, encontro nas páginas 142 até 147 uma construção de fases do processo do Eu no Grupo que ajudam muito a fundamentar o que eu procuro desenvolver em meu trabalho. Fico muito grata e resolvo logo trazer Rogers aqui para o meu blog e me curvar ante esse sentimento humanista de terceira via. Esse tópico apresenta passos que traduzem o que vivi e que busco levar em frente no meu trabalho docente. O que está lá escrito, em minha tradução, seria assim: o sujeito separado do objeto o estranha, se aproxima, o reconhece, o incorpora e emerge uma nova unidade, uma nova organização, um novo ciclo, de um novo processo. Um outro Eu.
       Nesse sentido ainda mecânico de pesquisas, tabelas e construção de fases, aparece que o que transforma é a vivência de integração do sujeito com o objeto. E o mais incrível é que, para o Eu, o Objeto é também o Eu.
       Assim, encontro em Rogers (1970/2002), uma referência a um trabalho de Betty Meador que me serve como um apoio acadêmico ao meu trabalho. As fases e um momento de um processo que ajuda a compreender o desenvolvimento do Eu (um si mesmo) dentro do Grupo. No grupo existe amplitude de possibilidades mas, mais que isso, indica um caminho da integração do sujeito e do objeto, algo que poderia ser chamado de "trabalho sobre si", como no Rio Abierto de Maria Adela, "responsabilidade própria", como ensinou o Doro, mas que eu estou buscando traduzir e unificar como "pedagogia de si em si". Existe um caminho pedagógico de olhar o objeto e trazê-lo para si.
       E a leitura do livro segue, pois ainda faltam algumas páginas para acabar a leitura. Todavia deixo um: "grata, Carl Rogers!! Presto a ti também minha consideração".
       Amo ler os contemporâneos, mas não podemos mesmo abandonar os nossos clássicos.

Rogers, Carl. Grupo de encontros, São Paulo: Martins Fontes, 2002.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A Crônica dos Gatos

Eu tenho duas gatas, a Mia e a Kira.
A Kira, mais nova, bate na Mia. Assim a Mia, mais velha, me inspira mais proteção. Além do mais, ela já estava aqui primeiro, nós já tínhamos estabelecido nosso diálogo e estávamos nos dando super bem. De noite eu a buscava e já a encontrava protegida em sua casinha, que ficava na área de serviço. Eu olhava nos olhos dela, ela soltava seu miado suave, eu dava boa noite, fechava a porta da cozinha e ia dormir. Tudo harmônico! Mas isso mudou.
Primeiro chegou o Tigre, nosso macho, que eu já sabia que se fosse prá ficar, era pra ser um castrado. Um outro que chegou para ser Mel, e virou Tigre. Eu já tinha perdido outros machos e já tinha aprendido essa lição. Tigre perdeu seus instintos de procriação, mas não perdeu os de territorialidade. Mas, tudo bem; eu tinha duas casinhas e tava tudo tranquilo. Tigre entrou na dança. Não tirou a Mia de sua casinha e ocupou uma outra. Como sua tia Mia, sofreu violência na infância, tem seu rabo quebrado e nos chegou já bem medroso. Tem um trauma biológico. (sua tia tem rabo quebrado e ficou manca) Apesar de traumatizado, é o macho pernóstico, que se sente no direito de vir sentar no meu colo, entre eu e meu computador, quando estamos os quatro aqui na minha salinha de produção, na qual as duas fêmeas já estão acomodadas na sua. (obviamente com a Mia mais perto de mim e a Kira deitada na almofada no chão).
Daí um dia chegou a Kira de carona numa van escolar. A terceira gata, a segunda fêmea. Chegou de surpresa, tentei mandá-la embora, mas não consegui. E daí tudo mudou mesmo. A Mia meio que se marginalizou, pois perdeu sua casinha. O Tigre pegou a dela, a Kira pegou a do Tigre, e não necessariamente nessa ordem. E a Mia começou a passar as noites na rua. Para mim me parece óbvio que meu instinto protetor aflorou total. Para tudo estou como defesa da Mia, tentando colocar a Kira no seu lugar de segunda.
Um dos problemas que te trazem os gatos é que eles são um tanto noturnos e seu ritmo de sono é bem diferente do nosso. Mas eu descobri que a Mia era capaz de passar a noite quietinha, dormindo bem no pé do meu lado da cama, super ciente de que meu casamento ela não podia atrapalhar. Por tudo isso, hoje ela pode dormir em nossa cama.
E eu enxoto a Kira.
Bem, a Kira também é adorável. Não era para ser minha, mas acabou sendo, pois sou eu que os alimento. E a Kira é muito singular. Talvez por não ter tido um trauma de infância como tiveram os outros dois, ela é muito mais saliente. Ela sobe nas basculantes e fica equilibrada na janela do meu quarto, que é uma fina plataforma que beira um abismo. Ela chegou num sistema já estabelecido e demorou para se aventurar no quintal, onde mora nossa cadela descontrolada. Assim, afiou suas unhas no sofá (relaxei, pois era velho e já fui elogiada pela veterinária que estou conseguindo preservar o mais novo); e Kira ficou sendo uma gata de casa (dá até para levá-la para um ap. de boa, pois é a que mais usa a caixinha de areia que fica dentro de casa).
Enfim, não é que eu não goste da Kira, mas eu tenho um cuidado muito maior com a Mia que, dentre outras, está mais velha e com algumas limitações inerentes à idade de uma gata manca.
Então é isso. Esses são os gatos, suas ações e nossas relações. Mas, o que podemos tirar disso tudo?
Talvez uma percepção de que nosso "centro baixo" nos governe na construção de nossas relações e com isso ajuda a coordenar uma dimensão afetiva, subjetiva. O encontro entre o objetivo e o subjetivo. A natureza e a cultura, a matéria e o imaterial. A ação concreta conjugando um processo subjetivo.
Eu vejo minha relação com a gata Mia, que é um ser vivo autopoiético, e compreendo uma configuração subjetiva arquetípica: a relação com as crias, com aqueles que amparamos e ajudamos a criar. Adoro os três gatos, mas minha afeição por cada um deles é distinta. Seria por isso que os pais são diferentes de um filho para o outro?
As circunstâncias, as histórias, os eventos, as identidades. Elementos que, ao se conjugarem, constroem aquilo que vivemos como real.
Essa é a crônica dos gatos!