Minha razão

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Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Psicologia de massas

    Sou herdeira daqueles que criticaram o Marxismo, dentre eles W. Reich, Edgar Morin e Fernando González Rey. Eles são pensadores e atores de uma luta pelo fim das clivagens. Eles buscam integrar e não separar. E me ensinaram a ir além dos reducionismos, linearidades e simplificações, que são tipos de problemas mentais. Se preciso demarcar um lugar de partida, essa herança seria ele.

    Por vivermos no mundo do contraditório e do paradoxal, nem sempre conseguimos harmonizar as partes que nos compõem e eu gosto de entendê-las como quatro campos, quatro dimensões interdependentes. O que acontece numa, acontece na outra também e elas, portanto, precisam estar em diálogo harmônico. Essas partes seriam a Physis, a Anima, o Logos e o Spiritus. Cada uma tem uma vida própria e tem também uma vida em relação com as outras camadas. É assim que traduzo o uno múltiplo do humano, conceito que aprendi com Edgar Morin. O uno múltiplo é multidimensional, mas eu resumo nesses quatro campos para facilitar uma pedagogia com meus pacientes. Faço isso para dar um limite plausível ao ilimitado. A metáfora é de quatro corpos a alinhar ou sintonizar, sincronizar.

Coloco essa metáfora só para deixar claro que a complexidade do assunto que aqui me proponho é gigante e que nenhum pequeno texto conseguirá abarcá-lo. Se falo de movimento de massa falo da integração de singulares complexos dentro de uma unidade complexa: a massa humana.

No nosso mundo de hoje entendemos que à distribuição socioeconômica corresponde uma distribuição ideológica e vivemos atualmente uma guerra no plano das ideias, ou seja, digladiamos pela forma de pensar e não mais pela garantia de recursos materiais ou sobre o "fazer". Isso já começou nos tempos da segunda grande guerra e agora está cada vez mais evidente com o advento da comunicação via internet e redes sociais. Temos que investir urgentemente no "aprender a pensar", pois, atualmente o pensamento está dado e as pessoas não precisam mais gastar energia para pensar. Muitos estão pensando por elas, entregando conteúdos prontos e sem nenhuma formação de uma avaliação crítica e um fornecimento coerente de recursos imateriais.

Existe um movimento psíquico nas massas populares. Podemos pensar como uma subjetividade social (González Rey) que se organiza como configuração subjetiva dinâmica, Compreender a organização psíquica das massas e a sua relação com a base econômica da qual ela se origina é um bom trabalho a ser feito. Mas o assunto não é só econômico, uma vez que muitos elementos compõem a dinâmica psíquica das massas, tais como: papéis de gênero, diferenças morfológicas, processo histórico, símbolos culturais, entre outros.

O fascismo é um movimento de massas e produz espaços relacionados ao mundo que mudou após o advento da industrialização, fomentado pela revolução francesa e pela revolução industrial, tecnológica e científica. Para compreender esse fenômeno, que vem mascarado pelo econômico e pelo político, precisamos agregar ao debate os aspectos da estrutura de caráter da massa e o efeito social do misticismo (W. Reich). Esse assunto não é só objetivo, pois nele entram os fatores subjetivos da história e também a construção das ideologias de massas. Aqui eu faço um link aos campos que compõe uma pessoa singular humana, ou seja, seu existir multidimensional enquanto ser aí no mundo.

Quais parâmetros usar para compreender o movimento das massas? Nesse estudo precisamos conjugar o medo do desconhecido, a passividade da pessoa e o assassinato do sujeito. O comportamento das massas é irracional. Por qual razão eu defendo um modelo que pressupõe minha própria escravidão? Por que é possível perceber o ditador, mas não tanto a ditadura? 

Importante salientar que nosso código moral não é divino, é humano, e desejos e proibições remetem ao medo. A psicanálise explica o movimento de massas pela castração, ou seja, o objetivo da moralidade seria a criação do indivíduo submisso, pois ele se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação.

A Família, para Reich, é o Estado autoritário em miniatura e o resultado disso é a mentalidade reacionária. A ideologia autoritária da família possui uma habilidade de manejar a emoção e evitar argumentações objetivas.  O racional fica cego, preso a um processamento irracional.

Por que motivo as massas se mostram receptivas ao engodo, ao embotamento ou a uma situação psicótica? Precisamos saber o que se passa nas massas cujas pessoas apoiam a sua própria opressão e isso não pode ser esclarecido pela política ou pela economia. Isso precisa ser esclarecido pela psicologia de massas. 

Por qual motivo as massas se deixam iludir politicamente? E religiosamente também? Pela promessa de um objetivo final. Isso está ligado ao "dar um sentido ao sem sentido".

O êxito do opressor não se deve exclusivamente à sua personalidade, nem ao papel objetivo da sua ideologia, pois a massa se movimenta por sua própria organização, que é contraditória e é na maioria formada por uma "classe média" que é conservadora e de organização familiar patriarcal hierárquica. O comportamento da massa flui na pulsão opressão - opressor - oprimido e existe uma tensão entre "código de restrição" e "código de liberação".

Podemos falar aqui em micro políticas e em macro políticas. Espaços socias são sistêmicos e vivos por si só. São organizações subjetivas, como possibilidades de produções de sentidos que podem colapsar em uníssono. Nicolélis sugere a existência de "brainnets" e eu gosto de imaginar o quão material e imaterial é esse processo da organização subjetiva social.

As pessoas mostram quem elas são quando assumem uma ou outra postura. Mas como explicar quando eu assumo uma postura que vai contra mim mesma? Ser reacionário está relacionado aos movimentos que tendem a anular os efeitos de uma revolução ou de uma mudança ou até mesmo impossibilitar as mudanças. Cientificamente falando, sabemos que as mudanças vem da esquerda e as resistências às mudanças vem da direita. Sabemos também que eu não mudo a mente do outro, só a minha!

Portanto, quero convidar aos que estão atentos e ativos (no seu lugar de sujeito da ação, tal qual aprendi com González Rey) que precisamos abandonar o lugar do descontente bem sucedido (Tart) e do inocente útil (Baldani). O movimento das massas é um tema em voga, assim como as vias de comunicação em massa. Para mim, como pensadora em inquietação, cada vez mais o assunto do sujeito e do assujeitamento se torna importante e necessário.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Natal

Família reunida para o Natal.

Parece que estamos falando de Lula e Bolsonaro.

Mas não.

Estamos falando de

Materialismo ou espiritualidade.

Patriarcado e liberdade.

Amor e ódio.

Essa é a nossa dicotomia, que começa no medo e segurança.

São configurações de valores.

São produções de sentido - manutenção ou transformação?

Coragem e ousadia ou "melhor ficar onde já conhecemos"?

Atentem aos seus códigos e seus símbolos.

E deixa o outro em paz com o símbolo dele e as crenças que ele sustenta.

Mas cuidem para não perder o humanismo e o profundo respeito aos códigos da vida.

Se é tempo de Natal, é tempo de valorizar o pensamento crítico que o próprio Jesus trazia em sua missão de vida.

O que foi feito dessa Festa? De onde ela veio e para onde ela vai? Quem a instituiu e como?

Não embarca desavisado, senão corre o risco de passar mal na viagem.

Nesse caldeirão de almas, tem uma da qual você é o único responsável: a sua! Que não está lá no céu te esperando na hora da morte. Está aqui e agora contigo, o tempo todo, se impregnando das múltiplas vivências que emergem no teu caminhar na vida.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Mentiras construídas

Na moralidade: a dualidade bem-mal, bom-mau, certo-errado;

Na autoridade: uns são escolhidos;

No campo do medo e agressividade: somos uma espécie ruim;

Na estratificação: uns são superiores;

Na concepção: a vida é uma luta!


Nada disso é verdade!

O amor incondicional

Relativizar-me

Desmoronar-me

Desentronizar-me

Desmentir-me

Desmascarar-me

Reconhecer-me

Harmonizar-me

Descortinar-me

Perder-me

Abrir-me

Dezarrazoar-me

Arriscar-me confiante

Saber dar nome aos demônios e aos deuses

Desmonte o falso realismo

Integrar-me

Sentir-me

Cuidar-me

Amparar-me

Romper a dicotomia preto-branco; bom-mau

Sujeito - agir - apareça

Ação - apresentar-se

Olhar para si mesma e conjugar as aprendizagens.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Psicologia Social

Neste texto irei compartilhar uma resenha que fiz sobre o livro "O social na psicologia e a psicologia social", de Fernando González Rey, cuja edição que tenho data de 2004, publicado pela Editora Vozes. Essa resenha eu fiz para meus alunos e alunas de Psicologia Social II, cuja ementa sugere amplificar o campo de entendimento da psicologia social para muito além da psicologia behaviorista (ou comportamental) norte americana. Portanto, o texto desta resenha é profundo e um tanto filosófico, mais do que teórico. Aqui não vou trazer a leitura de González Rey sobre a teoria da psicologia social, mas sua discussão sobre a ONTOLOGIA.

O livro está organizado em 3 capítulos. No primeiro ele compartilha a visão do social em diferentes campos da psicologia, no segundo ele discorre sobre as visões do social na psicologia social e no terceiro apresenta seu próprio entendimento e a sua busca pela construção de uma teoria que integre os fragmentos que encontrou no seu caminho de estudos.

É um livro de um momento de maturidade em sua própria teoria da subjetividade, que ele construía desde 1994, ou até um pouco antes, se agregarmos ao seu histórico o foco na categoria de personalidade. Como é um autor que tem algo a propor teoricamente, mostra nessa obra o que considera os pontos fracos das outras teorias que existem na psicologia social e na psicologia como um todo.

Ele deixa claro no livro como as visões reducionistas de nosso objeto de estudos (o social na psicologia) acabam por perder de vista a complexidade do fenômeno psicológico humano. Assim ele propõe a saída da assunção da subjetividade como o foco de estudos da psicologia, dentro dos seguintes aspectos:

 - termos em mão algo que atenda a todos os campos, contribuindo com a construção de uma PSICOLOGIA GERAL.

 - a subjetividade entendida como um sistema de categorias e não uma categoria em si, absoluta e determinante. Essas categorias visam evidenciar o valor heurístico desse sistema macro.

 - Compreender a subjetividade como especificidade ontológica do psiquismo humano. Nesse sentido, ela seria o campo qualitativo onde não existiriam as dicotomias, apesar de haver contradição e paradoxo.

O ontológico é um termo que González Rey emprega para defender a qualidade diferenciada dos processos e fenômenos do mundo psicológico humano. Com isso quer destacar a especificidade qualitativa que anima os registros de realidade que emergem em nossas construções. Assim, pretende superar a noção de que a única coisa a ser referida nos estudos humanos e seus espaços sociais sejam as práticas e relações.

Compreender a subjetividade como uma ontologia humana é compreendê-la como PRODUÇÃO e não como REFLEXO e é considerar que não existe ISOMORFIA entre a psique e o social, pois são fenômenos qualitativamente diferentes. O que caracteriza subjetivamente o psiquismo humano é seu caráter GERADOR.

A base ontológica daquilo que ele define como subjetividade é a unidade simbólico-emocional produzida no curso das experiências que se desenvolvem num espaço de cultura.


terça-feira, 21 de março de 2023

Complexidade do Eu

É complexo, daí o desafio. Já coloquei em outros lugares aqui, mas eu mesma gosto sempre de relembrar. O pensamento dicotômico se cura pela dialógica e precisamos conhecer as múltiplas polaridades em tensão, tais como: o dentro e o fora; o individual e o social; a Eu e o Outro; o sujeito e o objeto; o real e o irreal; o consciente e o inconsciente; a família e o mundo; o autor e o personagem; o ator e o palco; a figura e o fundo; a estabilidade e a instabilidade; a subjetividade do objetivo e a objetividade do subjetivo.

Estudando o construcionismo social listei mais alguns dos polos que produzem a dicotomia do Eu, que são: a mente e os sentidos; a imaginação e a percepção; o ideal e o real; o subjetivo e o objetivo.. Sujeito e objeto; Eu e o Mundo.

Dessa dicotomia derivaram as escolas de pensamento que olharam para um dos polos, tentando anular ou desqualificar o outro. Do polo mental e idealista vieram o racionalismo, o idealismo e o estudo pelo abstrato. Do polo dos sentidos e da percepção vieram o pragmatismo, o empirismo e o estudo pelo concreto. Nas primeiras escolas a tese de que o mundo é a minha representação. Nas segundas a tese de que a ideia se pauta pela realidade, buscando frear o absolutismo da razão.

Ficar na mente dicotômica é estacionar no "ou é ou não é". Curar a dicotomia com a dialogicidade da complexidade é mergulhar no "é e não é", no "ser e não ser". E isso traz implicações ontológicas e também epistemológicas. Tal como já pude desenvolver antes em outros textos, lembro que a personalidade e o sujeito se desafiam permanentemente na organização do Eu, que é flutuante e afastado do equilíbrio.

Somos seres em dialógica, em movimento, em permanência e impermanência. O ator atua papéis sociais que se constroem nas relações sociais e também produz a si mesmo no jogo dialógico dessas múltiplas polaridades em tensão. A identidade seria como um ponto de referência, mas não o todo da coisa. Ela é um jogo entre a transformação e a manutenção, entre o diferente e o igual.

Por isso vale trazer a filosofia de Ortega-Y-Gasset que afirma que não existe um Eu absoluto. É sempre o Eu e sua circunstância. E não existe um ponto fixo para ser Eu. Existe uma complexidade contraditória e paradoxal sobre um ser que está no mundo em seu "ser aí", identificado com o seu "que fazer".

sábado, 2 de janeiro de 2021

A base de minha formação

Quero agradecer e honrar minha mestra e meus mestres. Apresento, respeitando a ordem de chegada em minha vida e dispostos em sentido horário, o chileno Doro Ortiz, o brasileiro Mário Baldani, a argentina Maria Adela Palcos e o cubano Fernando González Rey. (*as fotos eu consegui dando um google imagem no nome de cada um. Agradeço aos parceiros de caminhada que compartilham essas imagens na rede mundial).

Juntas, essas pessoas conjugaram em mim um saber latino-americano que nos brinda com incríveis vias, bastante acessíveis, de compreensão e transformação do mundo que vivemos.

Do Doro trago toda a minha base psicanalítica com seus desdobramentos em Jung e Reich. Também aprendi com ele a Gestal-terapia. Trago também desse mestre a compreensão da quadrinidade, carro chefe pedagógico do atendimento clínico que faço. Foi meu primeiro professor e o responsável pela minha base mais sólida.

De Baldani trago todo o saber da biocibernética (o complemento "bucal" deixo para meu companheiro de vida, Saulo Teles). Sou grata por viver a oportunidade de transformar esse saber em textos escritos e em pessoas formadas. Com muitos passos por esse caminho biociberneta abri muitos espaços. O mais legal do Mário é que ele não nos entregava o saber pronto e definido e é dele que trago o afã de saber sempre e mais. A forma que ele nos passava o saber foi embora com ele, pois Mário foi único. Imensa sorte tê-lo encontrado.

De Maria Adela trago a certeza de que o movimento cura e de que os opostos nos aprisionam quando demasiadamente tensionados e compartimentalizados. Trago a compreensão da harmonização do todo pelo seu alinhamento. Desse grupo de professores só Maria Adela está viva hoje. Eu planejava estar com ela na Cordilheira em 2020 e a circunstância de pandemia tornou nosso reencontro mágico, transformando toda a possibilidade de vivência com o seu trabalho e o grupo se fez ao seu redor. O Rio Aberto por Maria Adela é meu profundo espaço de cura. Canto e danço e danço e canto e rodo e fluo. A imagem é da Maria Adela que conheci em 1992 e que me graduou em 1997, pois ainda é assim que ela reverbera, mesmo que hoje ela esteja com quase 90 anos. Seu corpo físico é conduzido por seu corpo de luz, tenho certeza disso.

Do Fernando trago meu saber mais primoroso para a saúde e a educação, que é o entendimento da subjetividade. Esse saber transformou minha confiança em atuar na clínica, no desenvolvimento e na formação de pessoas. Com ele consegui vir a ser doutora. Ele foi o professor amigo, não o professor autoridade. Ele tentou assumir uma autoridade e, então, nós brigamos. É muito difícil um aluno vir a ser autor com um professor autoridade. O processo fica mais doloroso. Por isso te guardo em meu coração, Fernando, como o meu mais professor amigo. Contigo eu perdi muito o meu medo dos mestres e das autoridades. Nós demos certo como parceiros e assim vou te carregar pela minha vida: um grande parceiro.

Tudo o que essas pessoas me ensinaram eu escrevo em meu blog desde 2011, sitio que faz aniversário de 10 anos agora em 2021. É  aqui que, a partir de minha academicista, de minha poeta, de minha escritora, compartilho todo esse saber, que se re-atualiza sempre.

Com essas pessoas aprendi que é importante ter discurso, mas que se eu não tiver a prática, o discurso não se sustentará. E que a prática constante flexibiliza o discurso e o transforma.

Tive também outros mestres, todos significativos. Aquelas e aqueles que me ensinaram psicologia, terapia craniossacral, organização de coletivos, educação ambiental, ecologia e transpessoalidade. Entretanto, esses quatro sustentam aquilo que defendi em meu doutorado: aprender em si mesmo. Em outras palavras, a produção de sentido do sujeito do conhecer e aprender.

Estou ao dispor para aquelas e aqueles que queiram conhecer um pouco mais desse saber em si mesmo. Essa tem sido minha modalidade pedagógica e terapêutica.

Comunico que entro 2021 com os atendimentos online e que estou somando ao saber conquistado com esses mestres a biodecodificação prática de C. Flèche, formação em andamento.

E pretendo firmar os atendimentos em grupo junto com uma equipe que passou o ano da pandemia firme e reunida em trabalhos de autoconhecimento, estudos teóricos e supervisão. Grupo, galera, pra funcionar mesmo, só em grupo!! :)

É um prazer compartilhar isso com vocês agora, nesse segundo dia de 2021, dia 02.01.2021.

Que venha, então, mais um ano de nossas vidas.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Os 14 subsistemas de A. R. Müller

      Eu já fiz um vídeo sobre os 14 subsistemas sociais de Müller ...



... mas é importante também esclarecer teoricamente o que é cada um desses subsistemas, exercício que faço dentro de uma livre interpretação minha, baseada no tudo o que pude ler de Waldemar De Gregori, professor de sociologia daqui de Brasília.

A preocupação dos estruturalistas da antropologia na época de Müller era chegar à organização social básica comum a todas as sociedades, desde as menores até as maiores, das mais urbanizadas às mais rurais ou tribais. E Müller, orientado por Radclif-Brown, chegou a esses 14 núcleos por onde uma sociedade consegue se organizar como um todo. Mesmo sendo categorias estruturalistas, podemos levá-las à uma compreensão de organização de Todo e de Ecologia Humana, uma vez que podem ser compreendidas como partes que só fazem sentido quando são relacionadas ao todo que as mesmas compõem. São eles:

S1 - Parentesco - Cada pessoa tem um grupo próximo ao qual se referencia. Nesse grupo desenvolvemos alguns papéis, tipo mãe ou pai, filha ou filho, tia ou tio, sobrinha ou sobrinho, avó ou avô, dentre tantos outros. Esses papéis ajudam a configurar a nossa personalidade e também nos instigam a pensar valores relacionados às etnias, aos gêneros, à família, à moral, à sexualidade. Esse subsistema nos organiza em crenças, atitudes, potenciais. Muitas vezes nos compõem em espaços aprisionados que desafiam nossa força de libertação e transformação. É o primeiro subsistema por estar na base da formação humana, ou seja, qualquer pessoa social viva nasceu de um outro ser humano que foi fecundado por um terceiro, Qualquer pessoa viva é uma unidade que precisa ao menos de mais dois para existir. Sem três (eu, minha matriz e meu progenitor) não há (ainda) vida humana.

S2 - Saúde - Cada ser humano social vivo habita um corpo fisiológico coordenado por uma biológica, ou lógica de vida. Esse subsistema coloca nas sociedades aquele personagem responsável por cuidar disso, seja um pajé, um xamã ou mesmo um médico, enfermeiro, fisioterapeuta, psicólogo e outros muitos profissionais da saúde. Por aqui passam os aspectos de higiene e as políticas de manutenção da vida. Nesse subsistema entram todas as medidas preventivas e curativas que as sociedades criaram ao longo do tempo. Nesse subsistema estão os trabalho de consciência da vida em sua plenitude e também em sua finitude. Trabalhar a morte e todo o medo vinculado a ela fazem parte deste subsistema. Aqui entram também os sentidos de libertação e transformação social, dando um caráter biológico ao viver e morrer.

S3 - Manutenção - Todos os grupos humanos se organizam em torno da sobrevivência de cada um e de todos e esse subsistema trabalha isso: alimentar para viver e compartilhar aquilo que nos sustenta. Aqui cada sociedade desenvolve a melhor estratégia de manutenção pessoal e coletiva. Como produzir, o que produzir de acordo com a geografia, como armazenar, como distribuir e cooperar para a sobrevivência de todos. Aqui são trabalhados os excessos e harmonias. Sociedades consumistas derivam de uma desregulação desse subsistema, pois estimulam o consumir mais por prazer do que por necessidade, comprometendo nossa lógica de vida ou biologia. Comer, beber, dormir, vestir são alguns dos aspectos que compõem esse subsistema.

S4 - Lealdade - Nossa capacidade afetiva nos fez seres gregários. Nesse subsistema entram todos os códigos criados a partir dessa capacidade. As rodas de celebração ou os clubes das grandes cidades são expressões desse subsistema. O sentido de pertencer, as agremiações, o desenvolvimento da capacidade afetiva verbal ou não verbal, saber dar e também saber receber afeto fazem parte desse subsistema social e cultural. Os partidos políticos que traduzem nossas visões de mundo, as cooperativas que nos ajudam a distribuir nossas produções, saber distinguir quem são os amigos e que são os inimigos, enfim, tudo que esteja relacionado a nossa capacidade de associação e construção de grupos cabe dentro desse subsistema e cada sociedade possui as expressões do mesmo.

S5 - Lazer - Toda sociedade vive de trabalho e lazer. Uma sociedade que é só trabalho, sem os momentos de lazer, é uma sociedade humanamente desregulada. Nesse sentido, cada agrupamento constrói suas possibilidades de lazer. Descansar no ócio, passear, apreciar a natureza, ler um bom livro ou assistir um bom filme, desenvolver os hobbies, cuidar de si e do outro, contar "causos" nas rodas, rir de si  e sentir prazer em viver, estar contente e produzir contentamento nos demais são expressões desse subsistema social. Nossa sociedade criou as horas de trabalho e nos fornece os períodos de férias e os finais de semana, que são os momentos dedicados ao lazer. Sem lazer não há vida saudável. Balancear o trabalho e o descanso é fundamental para a manifestação de uma sociedade saudável. Todos nós temos direito ao trabalho e ao descanso.

S6 - Viário - Esse subsistema ressalta a importância do ir e vir e do comunicar. Desde os tempos mais remotos os seres humanos criaram as suas formas de comunicação para facilitar a sobrevivência e a parceria. Quando inventou a roda, nossa espécie facilitou o encurtamento das distâncias. Isso foi refinado ao ponto de termos hoje nossa rede mundial de computadores, onde estamos todos interconectados em tempo real sem precisarmos sair de nossas casas. Nesse sentido, esse subsistema fala de uma de nossas características mais marcantes: o gostar de nos aproximar. Ainda que existam teorias que defendam que o ser humano é um animal por natureza competitivo, esse subsistema e tudo o que pôde ser desenvolvido dentro dele indica o quanto somos cooperativos e precisamos uns dos outros. Criamos meios de transporte cada vez mais eficientes pela terra, pelo mar ou pelo ar e fizemos nossas mensagens viajar à velocidade da luz. Aprendemos as línguas estrangeiras para melhor nos comunicarmos no planeta e temos como um dos programas favoritos da maioria das pessoas o conhecer outras nações, outras culturas, outros saberes. Somos mestres nas construções e compartilhamentos de informações.

S7 - Educação - Não seríamos o que somos se uns não educassem os outros. Aquilo que aprendi passo em frente aos pequenos que chegam. Aquilo que alguém criou passa a ser conteúdo ou prática transmitida aos outros. Produzimos informações e a organização delas em campos maiores é feita pelas vias da educação. Sistematizar e transmitir informação faz com que nos ternemos sábios. É por essa razão que só a informação não basta. Ela precisa ser aperfeiçoada e transmitida, e isso cabe a este subsistema. Assim, com o tempo fizemos escolas, faculdades, instituições de qualificação e aperfeiçoamento. Não é possível afirmar que "estamos prontos e não temos mais nada a aprender". A vida é uma constante troca de experiências e de novas aprendizagens. Nosso cérebro é plástico e está sempre em transformação. Mesmo que eu esteja plenamente capacitada em uma área preciso sempre estar em reciclagem. Nascemos inacabados e assim morreremos.

S8 - Patrimonial - Esse subsistema é controvertido, pois fala de patrimônio e isso pode abrir brechas para a defesa da propriedade privada. Na verdade a vida é um patrimônio de todos e de qualquer um, assim como a terra para nos sustentar enquanto seres vivos. Esse subsistema destaca a consciência do "piso mínimo e do teto máximo", ou seja, todos tem direito ao mínimo necessário para viver em termos de abrigo, alimento, lazer, ar puro, água potável e devem também respeitar o máximo de forma a não se tornar escravo do material. A humanidade criou as vias de troca e isso culminou naquilo que chamamos "economia". Atualmente o patrimônio está vinculado ao valor monetário do capital, mas ele não pode ficar preso a isso. É "patrimônio" todos aqueles bens culturais e sociais que são imateriais. Se pensarmos que todas as comunidades possuem esse subsistema, de acordo com a tese de Müller, temos que considerar que o patrimônio é aquilo que é comum também, pois em certas tribos existe a compreensão que o que é da Terra não pode ser apropriado por uma pessoa exclusivamente. Aqui a sociedade capitalista tem muito a aprender com outras sociedades para poder avançar mais na direção de uma sociedade mais equânime e justa.

S9 - Produção - Esse subsistema envolve a dimensão da criação, da produção de bens e arte e todos os tipos de trabalho que existem, dos mais concretos aos mais abstratos. Toda sociedade se organiza em torno dos trabalhos e das especializações. Esse subsistema é o que atua quando um jovem escolhe uma carreira e aprimoramos uma profissão, que é um lugar que eu ocupo na sociedade. Esse subsistema nos lembra que todas as práticas profissionais são dignas e necessárias ao sistema macro social e, portanto, todas devem ser valorizadas e dignificadas.  Nesse subsistema habita a lembrança de que não basta ser um "bom empresário", sendo também fundamental ser um "empresário bom". Como espécia viva e cultural produzimos conhecimento, práticas, arte, saberes. São muitos e variados os campos de produtividade e criatividade. Todas as nossas manifestações de criatividade plástica estão representados nesse subsistema. O ser humano produz, é criador.

S10 - Religioso - O medo do desconhecido nos fez criar as divindades. No começo elas eram poderosas e ameaçadoras, depois passaram a ser a fonte da certeza de uma vida mais digna após a morte. Um dos subsistemas mais controvertidos é o religioso, pois ele não é da dimensão da razão e, todavia, é por ela apropriado. Quando FÉ passa a ser razão entram em campo as guerras religiosas. O coerente é saber respeitar as múltiplas leituras de religiosidade, pois cada sociedade e cada cultura irá forjar a sua. O que é comum a todas as sociedade é a necessidade de achar uma via de esclarecimento ao imponderável. É por essa razão que as primeiras formas divinas estavam diretamente associadas às expressões da natureza: o trovão, o arco-íris, a força da terra e a força da água, a força do fogo e a força do vento. Há aqueles que veneram o Deus antropomórfico e há aqueles que defendem que a experiência divina é a conquista da dissolução de si enquanto ser antropomórfico. A religiosidade e a busca constante pelo diálogo com o invisível e seus poderes é algo que acontece em todos os agrupamentos humanos, dos mais arcaicos aos mais atuais.

S11 - Segurança - Quando encontramos um território com terra boa e água corrente acampamos aí para descansar a caravana. Segurança está relacionado à certeza e à garantia de sobrevivência. Com o passar do tempo fizemos nossos exércitos e desenvolvemos armas cada vez mais potentes. Tudo para garantir essa sensação de "segurança". Dessa forma, todas as organizações humanas possuem seus guerreiros. Todavia esse arquétipo tornou-se também uma categoria controvertida. Na verdade a segurança nasce do medo, sentimento básico que nos garante a sobrevivência e a chance da vida perpetuar a si mesma. O que precisamos é a paz como certeza de harmonia entre seres vivos. Mas a natureza é implacável e muito mais poderosa que nós, enquanto espécie. Daí a sensação de estarmos sempre numa incerteza geradora de insegurança. O dia em que compreendermos bem esse subsistema conseguiremos um mundo mais unitário, constituindo cada um de nós em um cidadão planetário. Isso tem relação com a capacidade de compreender o "medo" e o "inimigo". Uma base fundamental de nossa psique.

S12 - Político - Grandes Todos precisam de organização. Essa organização funciona por retro-alimentação, vinda de nossos próprios recursos. Esse subsistema caracteriza, então, a capacidade do Todo em organizar-se. Assim nós criamos lugares sociais de gestores, líderes, organizadores, planejadores, administradores. Esse é o sentido de política, que é o lugar que pode ser ocupado por aqueles que conseguem ter visão de todo e conseguem nos organizar como o Todo que somos. É o mais perigoso dos subsistemas, pois lida direto com o poder. Esse poder pode desviar o sentido do subsistema, pois posso usar o poder para mim ou para o outro. Nessa díade básica de organização (eu-outro) psíquica encontramos uma das maiores armadilhas do ser humano, pois à custa disso toda a sociedade pode sair perdendo. Passamos a ser diferentes e não iguais, quando a nossa igualdade é o que garante a manifestação de nossa diversidade. Sobre esse subsistema digo: basta olhar o mundo que aí está e ver no que se converteu nossa necessidade política.

S13 - Jurídico - Por compreender que somente o político não resolve nossa organização social, criamos os grupos de pessoas que precisam conhecer os dois lados da moeda dicotômica (eu-outro), para poder resolver impasses e tensões encontrando o melhor caminho do meio. Assim fomos imprimindo nos papéis nossas regras, nossas leis, nossas morais e transformamos isso em conduta social a ser manifestada na prática de vida. O subsistema jurídico é fundamental em todas as sociedades para produzir a justiça social e a garantia da vida no planeta. O direito, a justiça e as normas, mas também saber que sou parte de um todo e que só vou conhecer meu lugar aí se eu conhecer esse todo. A maioria de nós está sujeito à leis que não conhece. Portanto, aqui vale mais questionar do que afirmar: Conheço as diretrizes? Compreendo a ética? Conheço minha identidade social? Tenho uma visão de mundo? Quais seriam as leis que eu gostaria de defender?

S14 - Precedência - Esse é o subsistema que mais demorei para compreender. Ele aparecia colocado como o "êxito", a "elegância", a "promoção" e isso me chegava muito como o "triunfo do ego". Mas a maturidade me fez compreender esse subsistema. Ele representa aquilo que cada um conseguiu conquistar na construção e configuração de se Eu no mundo. Somos seres sociais e precisamos uns dos outros para sobreviver. Somos uma espécie na qual natureza e cultura são elementos essências para constituir o que somos e cada um precisa alcançar a consciência desse lugar. Precedência seria "daquilo que vem antes, do que precede". Aquilo que vem antes é minha formação, aquilo que me constitui, os caminhos que andei que me fazem Eu. Mais do que bem vestir-me ou bem apresentar-me, esse subsistema lembra que eu preciso construir esse caminho, cada um de nós, mirando sempre a humanidade como um corpo único que precisa crescer e se desenvolver. Com precedência, todos nós, chegaremos no respeito.

E para terminar esse longo texto lembro que, como psicóloga, preciso dominar a ciência do todo e a ciência da parte. Esse é um dos lugares desafiantes de nossa sociedade, um dos papéis mais difíceis. pois lidando o tempo todo com as representações sociais que confunde-se na fronteira entre o senso-comum e o científico. Eu gosta de primar pelo científico e o vejo camuflado em todos os subsistemas que aparecem nessa categorização de Müller. Gosto de transcender, mas gosto fazer isso com asas fortes. Esse trabalho que apresento é o resultado de uma pesquisa. Sem nossos cientistas, nada disso que coloquei acima nesse texto teria sido possível. A ciência pode ser considerada, também, um de nossos subsistemas básicos, pois ela surge da dúvida e da necessidade de encontrar caminhos para sobreviver. E é a própria ciência que está nos levando ao sentido de Todo novamente. Por isso um dos marcadores desse texto é ECOLOGIA.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pierre Rivière e as traduções de sua ação

       Aos que estudam psicologia, e querem sustentar o título de profissional do psique, recomendo a leitura de "Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão", coordenado por Michel Foucalt e publicado em 1973.
       Essa obra mostra o cuidado que precisamos ter ao estarmos no nosso lugar de "intérpretes" do psiquismo. Primeiro por que Foucalt sempre lembra da relação entre poder e conhecimento. Depois por que, ao estarmos cientes da subjetividade, sabemos que não basta ouvir por uma via, pois isso despreza todas as outras múltiplas vias de compreensão de uma história. E, por fim, por nos ensinar sobre as disputas entre saberes que levam ao assassinato do sujeito da ação. 
       O assassinato do sujeito da ação nessa obra culmina com o desrespeito ao sentido que o sujeito queria dar à sua vida, que seria a sua morte. No caso relatado, um fato ocorrido em 1835, uma ação revela alguém que matou para morrer. Um Eu que não matou, mas que morreu. Um Eu que matou para matar a si. Como condenar? Como traduzir?
       A discussão que está em foco é a disputa entre dois saberes superiores: o médico e o jurídico. Esses dois saberes, no tempo em questão, divergem sobre a razão e a des-razão. Se a ação é um discurso, o que ela fala? Quem eu vejo na ação? Um louco ou uma besta? Um delírio ou uma intenção? O curioso é que aquilo que para uns era sinal de loucura, para outros era sinal de lucidez.
       Destaca-se o contexto tão bem trabalhado pelos autores do livro, uma época em que a morte entra em foco e a justiça debate o matar em glória de soldado, que é o matar autorizado pela sociedade, e o matar do assassino frio, aquele sem louvor e colocado em tom de desprezo. Ambos são matar, mas são pesos distintos numa sociedade que se faz hipócrita. O assassinato torna imortal o guerreiro, mas garante o nome sombrio do criminoso. Que linha tênue habita o intervalo entre o legítimo e o ilegítimo na ação de finalizar a vida de outrem. É o próprio Foucalt que debate o cuidado em que se operam as divisões entre o "gesto glorioso do soldado" e o "ato vergonhoso do assassino". Nessa linha se forma uma sociedade patriarcal que tem no poder da vida e da morte o seu desdobramento. Como manter a integridade social quando alguns são autorizados a matar?
       O encanto nessa obra mora na elucidação de quatro vozes: a do sujeito da ação, a do povo em torno da ação, a do saber judiciário e a do saber médico. Quatro séries de discursos que indicam deslizamentos de sentidos e contradições. O objetivo do grupo de trabalho que Foucalt coordenou e que resultou na obra publicada foi: "explicar como se operam os deslizamentos, como se determinam estas contradições" partindo de confrontações entre essas quatro narrativas.
       O mais incrível dessa aventura é ver que numa mesma ação interpreta-se o sujeito como louco ou como um gênio, como um idiota ou como um ser extremamente sagaz. Na verdade, o que está em jogo é o assassinato do sujeito, só que no caso de Pierre Rivière não conseguem. Ele se faz sujeito de sua intenção até o fim.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Relato de experiência profissional


Estágio Supervisionado na Clínica Psicológica com base na Teoria da Subjetividade.
Dra. Ana Maria Orofino Teles – psicóloga profissional autônoma
Palavras chave: subjetividade, psicoterapia, psicoterapeuta
Atividade exercida do ano 2015 até 2018 no IESB Oeste-Ceilândia/DF

Quando parto da subjetividade na mirada de González Rey (1997, 2005, 2007, 2011) não posso falar de uma especialização ou de uma capacitação dentro de uma ordem técnica. Meu trabalho, ao longo de mais de quatro anos como professora de psicologia, focou na aproximação ao espaço psicoterapêutico como um lugar de construção de estratégias de provocação do Outro, onde a criatividade e sensibilidade do terapeuta entraram como o elemento central do processo. Nesse sentido, no lugar de educadora, coordenava atividades dinâmicas de estímulo à criatividade e aos processos de construção de sensibilidade perceptiva ao momento do outro dentro dos marcos da psicoterapia. Nos encontros de supervisão atuava na produção da estratégia necessária a cada momento específico em questão, e para cada pessoa em singular, fosse ela psicoterapeuta ou pessoa em atendimento. Tendo a subjetividade como ponto de partida, considerava o humano como ser vivo e dinâmico, não uma máquina que responde à mecanicidade, sempre disponível às infinitas predisposições básicas do vir a ser, seja para o bem ou para o mau, para o desenvolvimento ou para a estagnação. Assim, criar e produzir sempre foram as molas mestras.
A teoria fornecia, dentre outros, uma visão de mundo que possibilitava compreender a subjetividade como um espaço que não se reduzia ao intrapsíquico, ao biológico ou ao sociológico-cultural, sendo ao mesmo tempo por todos eles constituída. As categorias de sujeito, de configuração subjetiva (organização instável da subjetividade) e de sentido subjetivo (caráter gerador do psíquico, considerando a imaginação e a criatividade como instâncias geradoras de processos simbólico-emocionais) eram o suporte que investigávamos e tangenciávamos para realizarmos efetivamente as atividades clínicas. O psicoterapeuta não era visto como um tecnólogo e sim como uma pessoa em um encontro dialógico, provocando o outro a ver-se e rever-se, estimulando a produção de sentidos subjetivos que se desdobrassem em reconfigurações que auxiliassem na transformação dos seus transtornos.
Em resumo, na nossa forma de trabalhar, psicoterapeuta e paciente são compreendidos como duas pessoas que crescem num encontro, sendo a estratégia de trabalho o facilitador do encontro provocativo. Nessa abordagem psicoterapêutica não existe um modelo a ser seguido, somente o desafio de encarar cada pessoa que chega como singular e cada novo encontro como possibilitador criativo de ação e transformação da situação concreta do viver.
Para a teoria da subjetividade é importante considerar o sujeito concreto e seus processos singulares, pois sua busca não é pelos universais e sim pelas construções singulares de cada pessoa. Não é intenção da teoria da subjetividade a construção de rótulos, mas a provocação do psicoterapeuta para que a pessoa possa advir sujeito de sua condição psíquica em seu contexto social e cultural concreto.

Referências consideradas:
GONZÁLEZ REY, F. L. Epistemología cualitativa y subjetividade. São Paulo: EDUC, 1997.
GONZÁLEZ REY, F. L. Sujeito e Subjetividade: uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson. 2005.
GONZÁLEZ REY, F. L. Psicoterapia, subjetividade e pós-modernidade: uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson, 2007.
GONZÁLEZ REY, F. L. El sujeto y la subjetividad en la psicología social: un enfoque histórico-cultural. Buenos Aires: NOVEDUC, 2011.


Transformar o programa


Transformar dá trabalho!
Primeiro eu preciso assumir o que quero transformar.
Depois preciso reconhecer bem aquilo que assumi como algo que quero transformar.
Daí posso trabalhar na transformação.
Não devo usar como meta meu passado, aquilo que eu fui, mas o que posso vir a ser.
Se está difícil construir conexões com Outros, faço conexão com o Outro que está em mim.

A psicologia nos ensina que fomos crianças absolutamente irracionais que viviam no meio de seres irracionais que se diziam racionais. Somos todos absolutamente confusos sobre o que é real e o que é imaginário. Num momento que não tínhamos nenhum tipo de razão formada, éramos puro impulso, sentimento, sensação, descoberta do mundo físico e social, aqueles que já estavam na vida da linguagem a mais tempo que nós, nos enchiam de mensagens contraditórias e surpreendentes. Com curiosidade, medo, alegrias e tristezas, raivas e impaciências, cuidado e extrapolações, nos formamos no que vivemos no hoje. O Eu está no hoje, louco pelo passado e ansioso pelo futuro.

Então, registro - transformar dá trabalho!!

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Falar

Eu falo do outro como se não estivesse falando de mim mesma.
E esse é um problema muito grave.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O Eu virtual e o Cérebro (neuro)plástico

       A neuroplasticidade é a propriedade que possibilita ao cérebro modificar sua própria estrutura e seu funcionamento em resposta às atividades concretas e experiências mentais. São atividades concretas aquelas que entram no sistema via captores de externalidade. Audição, visão, olfato, paladar e toque, são as mais conhecidas, mas temos também o sentido proprioceptivo, um sistema multi-sensorial/sensitivo. A propriocepção existe por existirem sistemas sensoriais/sensitivos particularizados. Ela é um todo que não é igual à soma de suas partes. Ela integra o todo material e imaterial de nosso corpo. Localização, limiares, expressões, amplitudes, postura, movimento - ser aí no mundo sendo um cérebro neuroplástico em vida.
       A neuroplasticidade substitui a ciência do localizacionismo, sistema teórico que defende o cérebro como determinado, particularizado e fixo. Da mesma forma, com a neuroplasticidade alcançamos um sentido de Eu que perde o determinismo, a particularidade e a fixidez. Nesse universo o Eu passa a ser um todo formado por partes, sendo que as partes só existem por existir um todo e o todo só existe por existirem as partes. Este é, portanto, um Eu virtual, pois é não localizado, globalizado e inter-atuante.
       Os avanços dos estudos sobre a neuroplasticidade corroboram pensamentos teóricos de Freud, Jung e até mesmo de Reich e sua percepção corporal da formação do caráter. Há uma confirmação científica de que a construção do Eu, na relação com o outro, nos transforma em Eus virtuais. Somos imagem de Eu, não uma fonte emanadora de sentido exclusivo, mas um jogo de espelhos que não nos permite definir onde está o objeto. Somos todos loucos em um descontrolado looping cerebral e isso está ligado à nossa história pessoal e ancestral.
       Sabendo o Eu que não existe o que poderia acontecer?
       Esse conhecimento é a curva, a chance de ir para entropia ou anatropia. Daí a importância de inserir a discussão sobre a intenção e a consciência. Pelo que existe, precisamos ser um Eu para estar no mundo, compondo o mundo com uma multiplicidade de Eus.
      Temos na propriocepção, então, uma via de trabalho da auto-regulação, sendo este um trabalho fácil e difícil ao mesmo tempo. Transformarmos a nós mesmos e proporcionarmos nossa saúde tem na plasticidade neural sua benção e sua maldição. Entendi isso ainda mais neste janeiro de 2019 com a ajuda da leitura do livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti, da Cia. das Letras, 1997. Eu levei comigo para as férias o livro O cérebro que cura, de Norman Doidge (2016), pois queria aprofundar o estudo do Eu virtual e dos jogos de intenção e compor esse post. Todavia, chegou em minhas mãos o livro sobre o  auto-engano de surpresa e com a leitura desse livro fortaleço essa discussão, pois com ele compreendi que a propriocepção é um sistema montado sobre o auto-engano. E agora? Como trabalhar para que o Eu pare de se auto-enganar e possa, assim, se auto-regular? E mais: como fazer isso se não existe um Eu?
       Esse trabalho é complexo pois, de acordo com a neuroplasticidade, precisamos integrar neurônios que estão separados e separar neurônios que estão integrados. Precisamos despertar aqueles bons que estão adormecidos e adormecer os ruins que estão ativados. As dores derivam de plasticidades descontroladas, pois áreas que regulam certas atividades vitais foram sequestradas para processar o sinal da dor. Já falei em outra postagem sobre o cérebro ruidoso e, para que o entendimento se amplie, preciso compartilhar o tema do Eu virtual e provocar o debate defendendo que o Eu só será real quando estudarmos em ciência de primeira pessoa. Os estudos neuroplásticos confirmam que descobertas científicas são feitas quando os médicos profissionais se tratam (Doidge, 2016). Muitos avanços partiram de pessoas que adoeceram e fizeram ações concretas para a sua recuperação. Saúde, dor, neurose são campos de ação da neuroplasticidade e precisam de um Eu intencionado para se transformar. Se eu crio a dor, eu também a des-crio mas, sendo o Eu virtual, quem cria e des-cria?
       O Eu virtual, na verdade, começa com o corpo virtual. Temos uma imagem corporal formada na mente e representada no cérebro e daí, inconscientemente, projetada no corpo. É um corpo virtual, pois possui certa independência do corpo físico. É uma imagem construída a partir de múltiplos estímulos de diversos mapas cerebrais que envolvem principalmente a visão, o tato e a propriocepção, assim como de qualquer mapa que possua registro informacionais de sensitividade e emoções em nosso sistema neural. A imagem corporal representa "o conjunto dos diferentes estímulos dos vários sentidos para o cérebro, mas inclui também as ideias carregadas emocionalmente que a própria pessoa tem sobre seu corpo." (Doidge, 2016, pag. 48).
      O Eu é e não é em um corpo imaginário projetado no real. As construções que fazemos de saúde ou de doença são produtos dessa plasticidade do ser e não ser em projeção. O paradoxo está em que é no Eu virtual que reside a entrada e a saída do sistema. O Eu que é e que não é é quem vive e dita o que vai viver. Não somos loucos, não temos dores. A única coisa que temos é, talvez, um cérebro que tenha dificuldades de virar páginas. Sou um Eu virtual que acredita que vive o que vive. E quanto mais eu fixar, mais neurônios eu vou sequestrar para essa fixação.
      Para um outro post merecemos falar sobre a humanidade como um grande cérebro que tem um Eu virtual. Tal como os neurônios de nosso corpo, que estão todos interligados, os humanos também estão por suas tramas sociais e culturais-históricas. Mas isso é a delícia do tema da subjetividade social, que merece mesmo debates dialógicos próprios. Para finalizar, deixando o gancho, só peço com gentileza ao seu Eu virtual que se recorde que está no mundo e que o mundo existe. Ou não?
       E lembro que a psicologia ajuda cérebros a virar páginas. Esse tem sido o nosso trabalho cotidiano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Para a Psicologia Comunitária e além

       Um dos campos que estudei com mais profundidade nos últimos quatro anos foi a Psicologia Social Comunitária. Esse campo de estudos e de ação (pois em meu entender pode ser considerado uma ciência aplicada) tem nuances desafiadoras, pois trabalha a integração entre a pessoa e seu espaço coletivo e/ou social.
       Para ampliar minha compreensão sobre esse tema da relação entre o singular e o coletivo plural tenho dedicado anos de estudos a alguns autores, dentre eles Edgar Morin, Humberto Maturana, Ilya Progogine, Fernando González Rey, dentre tantos outros. Recentemente tenho dado tempo de estudos à propriocepção e à neuroplasticidade, linhas complementares ao ser psicóloga. Atualmente estou em parceria com Francisco Varela e sua possibilidade de consolidação da ciência em primeira pessoa, estudos que fundamentam a defesa de minha tese da pedagogia de si em si. Talvez eu tenha entrado em campo obscuro, mas talvez eu esteja em campo muito fértil para os tempos atuais do viver humano. O que me faz sentir segurança é Capra e Luisi em seu "A visão sistêmica da vida", laço importantíssimo na tecitura dos nós e fios que sustentam a rede que me sustenta em meus saltos.
          As epistemologias de complexidade e subjetividade nos indicam vias de compreensão do funcionamento dos grupos e dos coletivos. A subjetividade é uma categoria que consegue reunir o todo no campo da psicologia e merece ser estudada para ser bem compreendida, reverberando isso na operacionalização do Todo. A complexidade é o tudo no todo e se auto-define. Eu as trago aqui como fundamento e plataforma.
       Por muito tempo a subjetividade foi tomada só pela singularidade e, portanto, sua compreensão como algo passível de abarcar o grupo demorou para acontecer. Todavia, atualmente já temos a categoria subjetividade colocada como possibilidade de compreensão do todo complexo e as conversas podem subir alguns tons e, quem sabe, algumas escalas.
       Quando falo de psicologia comunitária, falo de trabalho nos sistemas e falo em multidimensionalidades. Na ação concreta de profissional preciso conscientizar-me de qual sistema trabalho: se é o grupo ou a comunidade ou ainda, a sociedade. Esses agrupamentos possuem diferenças qualitativas, mas possuem semelhanças funcionais. Respondem aos mesmos princípios por serem sistemas, mas guardam sempre em si sua característica singular. Esse pensamento os colocam em semelhança, mas nunca em igualdade.
       Nós, como espécie humana, formamos grupos para a nossa sobrevivência e, enquanto grupo, precisamos nos autorregular. Da mesma forma que um sistema vivo se autorregula na sua singularidade (um corpo biológico), também um grupo se autorregula como unidade, como um corpo.
      Como integrante do grupo eu preciso visualizar o que o grupo precisa, para além do que o que eu preciso, ou melhor, do que o Eu precisa. É um exercício difícil conjugar o Eu no Todo sem perder o Eu e sem perder o Todo. E, como tensão inerente, o maior medo do Eu é perder-se para sempre no Todo. Aqui evidencio o que muitos autores colocam como "a morte do ego".
       Um dos tópicos que defendo é que nessas investigações de psiquismo é bom usar o "si mesmo" para descrever ou avaliar uma situação. A referência seria: qual a experiência do "si mesmo"?
       Em tempos de defesa de meu doutorado e não compreendia muito bem, mas hoje entendo por qual razão os doutores e doutoras de minha banca de defesa me interpelaram: que "si mesmo" é esse? - colocando no debate um tom de temor!
       Na minha inquietação sobre o si mesmo, que não pararam após minha defesa de tese, encontrei os debates sobre o self, categoria controvertida nos campos de pesquisas de meus pares. O self fala de si quando deveria falar do outro? Como falar do outro se não por meio do self? Como é possível considerar isso ainda científico? O self existe? Ou ele é um puro reflexo do Outro? Como validar um espelho sem ter clareza do objeto que produz a imagem?
       Aquilo que posso chamar de meu contexto histórico e cultural coloca na conversa assuntos curiosos do tempo contemporâneo em que percebo a Inteligência Artificial não mais como "ficção científica de filme", mas como realidade factual de nosso cotidiano. Ver eleições presidenciais sendo decididas em espaços de IA me indicam isso claramente. Temos ao nosso favor um espaço cognitivo que, cada vez mais, atua de forma interventiva no sentido de ser humano subjetivo no mundo. Estamos vivendo novos modos de subjetivação e ainda não conseguimos alcançar plenamente o que isso representa. A realidade está claramente manipulada e posta ao serviço do imaginário social.
       Então, a Psicologia Comunitária precisa se apropriar cada vez mais do entendimento do que são redes, do que são conexões, do que são tensões e processos, do que são os encapsulamentos, do  que são as ativações, do que é o conhecimento e qual sua relação com a ação, do que é o Todo e do que é o self.
     Como profissional da psicologia prefiro usar a categoria subjetividade à categoria comportamento. Comportamento é uma categoria da mente analítica e essa mente corre o risco de tomar a parte pelo todo. A subjetividade, por sua vez, coloca em evidência a parte, o todo, o passado, o futuro, o singular e o coletivo e auxilia na produção da mente não-analítica e não-linear.
       Subjetividade é o que vivemos agora e no agora está o sujeito. Sujeito, na teoria da subjetividade  de González Rey e também no pensamento de Touraine, é a tensão do singular com o social, algo inerente à condição de ser. Sujeito desperto é bom, mas não é fácil! Muitas vezes a pessoa defende estar posicionada em sua opinião, mas ela está sendo levada pelas tensões do Todo e do histórico-cultural. O estruturalismo defendeu que somos vividos pelo coletivo, que não tem sujeito, Mas a sociologia se curvou ao sujeito, dando seu lugar novamente após seu martírio científico. Como fazer para eu saber se sou sujeito ou se estou assujeitado?
       Nesse sentido, recomendo o espetáculo Nanette, de Hannah Gadsby, disponível na Netflix. A autora e intérprete mostrou seu trabalho com a tensão e fez uma leitura de mundo de impressionar. Seu trânsito pela subjetividade (social, para não perder o sentido de dialógica singular e todo) foi magistral. E ela apresenta o mundo em mudança e a relação da mudança com a resistência.
       Gostei muito desse espetáculo, pois como psicóloga, trabalho com tensão. E é só olharmos um mínimo mais atentos que vemos o quanto nosso mundo de hoje está em tensão. E tensão é espaço para emergência de sujeitos. Ou não!
       Na relação entre o singular e o todo, entre o pessoal e o social, existe um fenômeno que é:
- quanto maior o posicionamento do sujeito, maior a tensão. Essa tensão ou fará revolução ou fará o extermínio do sujeito. É aí que temos as histórias dos heróis, dos mártires e também dos anônimos que vivem um dia após o outro sob uma tensão coletiva que sisma em mover o curso da história.
       Lembro que o foco desse texto é a produção de uma mensagem para a psicologia comunitária. Lembro que não existe outra possibilidade de olhar o mundo que não seja a partir do Eu. Lembro que os estudos do Eu estão entrando nas vias da "mind with no self" e que o Eu precisa ser um agente duplo que transita entre o universo da mente e da não-mente, do ser e do não-ser, do todo e da parte.
       Quando falamos de revolução, de que REVOLUÇÃO estamos falando?
       Eu falo de revolução de percepção! O mundo irá mudar muito quando a percepção mudar. E precisamos considerar nosso lugar de Eu no todo e desenvolver os estudos em primeira pessoa e a partir daí validarmos nossas teorias, ou não.
      Reflexão, posicionamento, ação e conexão. Essas são nossas possibilidade enquanto elétrons disponíveis para um sistema maior. Essa é a dica que dou para os trabalhos sociais comunitários: trabalhar nessas quatro instâncias da circunstância: REFLEXÃO; POSICIONAMENTO; AÇÃO; CONEXÃO.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Notas sobre o filme Anticristo


Notas sobre o filme Anticristo[1]

Toda a história do filme e a escolha do título mostra a importância de primeiro questionar-se: o que é o Anticristo? Quem é o Anticristo?
Da mesma forma, ao perceber que se trata de um filme interessante para trabalharmos na ordem do simbólico, eu lançaria a questão: o que é o simbólico?
Esse é um filme que caracteriza bem a construção mental que mistura e conjuga o imaginário e o real. Os limites entre essas instâncias humanas são tênues e difusos, tal como nos retratou muito bem o filme em questão.
Nesse sentido, vale lançar mais uma pergunta: o que é o imaginário? Recordando que Castoriadis ressalta o quanto o imaginário individual mistura-se com o imaginário social.
O filme parte do corpo, da sexualidade e mistura vida, morte, dor, sofrimento e caos. Junto com todos esses elementos, agregam-se algumas construções simbólicas da humanidade, dentre elas a maternidade, o feminino, a loucura.
Um filme sempre passa pela construção de seu autor, que elabora um roteiro e constrói um enredo para apresentar um espaço reflexivo aos que assistem sua obra. Nossos estudos de psicologia se enriquecem muito com as possibilidades que os filmes nos trazem. No caso específico do filme Anticristo, encontrei os riscos que corremos em nossa profissão ao transitarmos no limite entre a sanidade e a loucura.
Mas, como se construiu o transtorno no filme?
A morte do filho entra como uma situação desencadeante de um quadro mais profundo. Não é ali que o transtorno começa, mas é ali que ele começa a se tornar insuportavelmente manifesto. E o companheiro, sendo um profissional da área psíquica, assume a empreitada de trazer sua mulher de volta ao mundo cotidiano, tentando ajudá-la na sua reconstrução.
O trabalho foi de conhecer-se confrontando seus medos, tentando racionalizar o irracional para poder traduzir a angústia emocional que se materializava em ansiedade corporal. A unidade entre o corpo, a mente, os processos simbólicos e as expressões emocionais são o campo da complexidade onde o profissional irá atuar.
Todavia, no quadro apresentado havia um particular: o profissional estava envolvido emocionalmente na circunstância. E ele corre um risco ao assumir o caso e tirar sua mulher da anestesia do remédio para defrontar seu quadro perturbador.
Em um diálogo que engloba o espaço de morar e o espaço de refúgio, monta-se aos poucos um cenário que culminará na tragédia. A constatação de que a lucidez, há muito, não estava presente, e de que a situação desencadeante da morte inesperada do filho era só uma ponta de um continente mais amplo do inconsciente, vai permeando um caminho. A escolha de um tema para a construção de uma tese de doutorado e a escolha de isolar-se para a produção da escrita acerca do tema, convergem como fonte de produção de sentido subjetivo sobre o ser mulher e estar no mundo, confundindo um pensamento crítico com uma adequação ao pensamento criticado. O ser mulher deixa de ser uma luta pela liberação do feminino para se converter na expressão do mal natural que há na mulher, algo do mais profundo arquétipo de uma sociedade patriarcal e machista. A mulher se converte na algoz de si mesma.
Muito mais do que uma discussão psicológica, o filme nos abre um diálogo aos espaços mais amplos do humano que envolvem o imaginário social e o simbólico. Unido a isso a construção do sujeito em espaços subjetivos de integração entre o sentir no corpo e na alma. As dores, os medos, as inseguranças, as incertezas.
O fenômeno da natureza entra no enredo do filme como o lugar do possível e do impossível. As cenas parecem indicar uma confusão entre o sonho e a realidade. O personagem que estava na busca de uma possível cura começa também a invadir e ser invadido pelo espaço da loucura. Seus sonhos começam a revelar as dinâmicas psíquicas inconscientes que podem ser dele mesmo, mas também dos dramas da mulher. A gazela que abortou seu filho, a raposa que devora a si mesma, o corvo que mostra a noite e o desespero da morte, todos como símbolos que se traduzem numa configuração subjetiva do transtorno de um, que se mistura com o transtorno de outro.
Por um momento parece que o corpo imolado será o do homem. Mas no desfecho, mais uma vez, o corpo imolado é o feminino que, já mutilado, é sufocado. Ao sufocar o feminino a angústia se dissipa no sonho do masculino, vendo-se cercado por pilhas de corpos femininos que transitam sem face, sem uma identidade, sem um destino claro.
A resolução da loucura acaba sendo a própria loucura, algo que desafia o pensamento de nós, psicólogas e psicólogos, que nem sempre alcançaremos a dimensão criativa da mente de um ser que transita nos limites incertos entre o real e o imaginário.
O simbólico é o que está associado ao real na construção de uma representação. O simbólico traduz em algo acessível o inacessível da mente. O imaginário é o espaço criativo de construção infinita. Local onde tudo é permitido, onde a lei não é clara, onde a ordem é e não é necessária.
Lidar com o humano, ser portador de dimensões complementares, ao mesmo tempo que antagônicas, é um desafio ao que se pode chamar de lucidez. Esses espaços que nos desafiam, que nos balançam, são aqueles possíveis do humano: o bem e o mal, a dor e o prazer, o medo e o amor que dá segurança. Saber onde um acaba e o outro começa não é tarefa fácil. Daí a importância de cada um se converter num pesquisador de si mesmo e traçar em si o mapa que poderá dar um suporte necessário ao trabalho nos labirintos da mente imaginária e produtora de sentidos subjetivos que integram a emoção e o simbólico em uma unidade subjetiva.
Assim, para finalizar, volto ao meu ponto de partida: o que é o Anticristo? O que representa simbolicamente em nossa sociedade a imagem do Anticristo? Em poucas palavras, a expressão do medo. Qual medo? O medo da morte. E quem no filme encarnou o Anticristo? Acredito que sociedade, a sociedade cultural-histórica. A sociedade que cria símbolos para o bem e para o mal. No caso em específico, o papel da mulher em nossa sociedade, ou seja, a mãe perfeita que não descuida de seu filho, a mulher passiva que dá prazer ao macho, a mulher que, ao sentir prazer, encarna em si o símbolo do mal, do pecado.



[1] Notas elaboradas pela Prof. Ana Maria Orofino Teles para compor a dinâmica do Núcleo de Estudos Psicologia e Arte, coordenado pelo Prof. João Reis, curso de Psicologia - IESB Oeste, Ceilândia, setembro/outubro de 2015. Filme debatido: Anticristo, de Lars Von Trier, 2009.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

O cérebro ruidoso

O cérebro coletivo está ruidoso.
Um cérebro ruidoso é um cérebro que perdeu um sistema importante de centramento proprioceptivo e escuta os múltiplos outros sinais de todo o resto como um barulho em que fica difícil discernir.

Um cérebro ruidoso ouve pilhas de conexões sendo acionadas desarmonicamente.

O coletivo humano, como cérebro, produz pilhas e pilhas de informação e existe uma despercepção de um caminho de Todo importante, o que vai levar o sistema a algum tipo de colapso - uma entropia!

O sentido de "cérebro ruidoso" (DOIDGE, p.148) veio de uma mente ruidosa que produziu um sentido subjetivo de "ruído".  Esse sentido de "ruído" em sua mente ruidosa refletia o que acontecia em seus circuitos nervosos: o sistema afetado não produzia sinais fortes o suficiente para encobrir ou "enfrentar o ruído de fundo de todos os outros sinais nervosos disparados pelo cérebro".

Ruído, de acordo com Doidge, é um termo da engenharia que se refere ao que acontece num sistema quando não reconhece sinais normais por serem fracos demais, em comparação com o "ruído" de fundo.

Nossos sinais naturais estão perdendo a força para sinais artificiais. E estamos processando muitas e muitas informações e isso tira ainda mais o foco das informações importantes e necessárias.

As informações importantes são àquelas ligadas ao ser e seu viver. Dormir, respirar, alimentar-se, beber, cobrir-se ao frio e refrescar-se ao quente. Encontrar-se e reproduzir a vida.

Essas informações estão automatizadas demais, sendo consideradas meras formas de manter a máquina funcionando.

E isso leva o coletivo a agir como um cérebro ruidoso, que, de tanta função de estar no mundo, não ouve mais os sinais de suas funções de ser.

A linguagem que criamos, a comunicação que aperfeiçoamos, as estratégias tecnológicas que desenvolvemos ... tudo está ao serviço de uma grande máquina mecânica, de um grande macro, que precisa ser reprogramado para que o colapso não seja tamanho que acabe por levar junto o planeta Terra, o mais orgânico que temos.

O cérebro coletivo está ruidoso. Com muito barulho de fundo e sem conseguir distinguir importantes sons e frequências, que estão enfraquecidos.

Eu já sou um neurônio desse grande cérebro que está trabalhando para ajudar a retirar-nos do "ruidoso".
E você?

Referência: Norman Doidge, O cérebro que cura, Editora Record, 2016.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A mente do caçador-coletor

       Nossa mente foi forjada no paleolítico, no corpo de um animal caçador-coletor. Essa mente  primordial clama, quer de volta, o coletivo. Quer de volta a relação com a vida pautada no trabalho pela sobrevivência.
       Todavia, essa postura é, na mente de hoje, negada, rejeitada. O sistema mental capitalista rejeita o espírito do coletivo, pois ele é a via de sua destruição.
       Compreender o humano pelas vias do neural facilita compreender essa dinâmica conflituosa e também ajuda a trabalhar em alguns ajustes necessários para tirar a mente do caçador-coletor do sofrimento subjetivo. Para isso, precisamos lembrar de nossas dualidades em tensão e precisamos lembrar que a saída está em construir vias novas que possam respeitar esse espírito coletivo que nasceu da busca pela sobrevivência.
       Podemos conjugar em harmonia a intenção do caçador-coletor, que trabalha pela sua sobrevivência e o sistema capitalista. Mas, para isso, temos que parar de trabalhar PELO e PARA o sistema capitalista. Isso sim. Ser cooperativo nas bases para ter forças nas competições maiores. Ter nação organizada em si para poder dialogar com outros coletivos igualmente organizados. Isso é o que significa a soberania nacional e é isso que o Brasil perde cada dia, a olhos vistos.
       Enquanto não houver compreensão de que o nosso TODO fica comprometido nessa brincadeira que é a política polarizada e falsa no Brasil, não vamos conseguir mudar nossa nação. Precisamos cada um, no seu particular, fazer as ações necessárias, transitar nos lugares seguros das organizações coletivas de base. Na ação, a (re)programação.
      Nosso cérebro tem todos os recursos necessários pela forja de um processo histórico. Basta acionar. Só que o controle social não deixa. Não deixa!!
       Seja coletivo! Seja solidário! Mude em suas ações! Mude no seu dia-a-dia. Não trabalhe pelo SISTEMA dominante, que é um sistema ALTERANTE. Trabalhe por um sistema NATURAL. Trabalhe pelo seu filogenético. Caso contrário você irá trabalhar pela extinção de sua espécie.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Liévin, um ser apaixonante

     
       Gosto de me inspirar nos livros que leio. Gosto de desdobrar pensamentos a partir do encontro com autores, dos mais diversos. Segue aqui mais uma construção derivada de um desses encontros marcantes: o meu com Liévin.
       Soube pelos e-mails de um dos grupos de pesquisa do qual faço parte, que González Rey havia indicado a leitura de Anna Kariênina para que o grupo compreendesse aspectos relevantes da teoria da subjetividade. Uma colega compartilhou a obra e salvei em meu tablet, para ler nas férias de verão, afinal, fiquei curiosa e estava sem tempo para atualizar as leituras mais técnicas desse grupo.
       Comecei a leitura nas férias e identifiquei-me com Anna, algo até fácil para outra Ana. E apreciei o início do livro. Mas, ao ler mais, encontrar história longa, perceber a amplitude da construção do autor e, também, pelo fato concreto de não ter conseguido ler toda a obra ao longo do período de férias de verão, abandonei a leitura. E abandonei acreditando que não a retomaria mais, afinal, a história ficou desinteressante também.
      Passa o semestre, vem recesso e saio de novo para um intervalo no trabalho. Ao pensar na leitura da viagem percebi que não queria carregar pesos e lembrei do livro que eu tinha no tablet, mas nesse momento não tinha mesmo intenção de retomar sua leitura, só fiquei tranquila, pois teria uma leitura.
       Foi no vôo de volta, após diálogos com a filha sentada ao lado, após alguns jogos de paciência, após verificar a revista à bordo e, percebendo que nos faltavam 30 minutos de viagem, resolvi abrir o livro. E a partir desse momento re-encadeei uma leitura da qual não consegui mais me apartar. Afloravam em meu pensamento compreensões interessantes sobre as configurações subjetivas que integram pensamentos singulares com circunstâncias sociais concretas, identificava aqui e ali situações que representariam produções de sentido e a emergência ou não de sujeitos e, por essas e por outras, não consegui largar o livro enquanto ele não chegou ao seu final. 
       E eis que chego aos finais da obra e encontro a questão existencial de Liévin, personagem que me encantou e cativou ao longo de toda a obra. A história de Anna, que envolve Kitty, Vrónski e Liévin, encontra seu centro: o conflito existencial de Liévin.
       Assim, nos capítulos XII e XIII da parte VIII, embarco na viagem reflexiva de Liévin e compreendo com ele várias das aprendizagens que pude reunir de meus mestres-professores ao longo de meu tempo de vida de estudos e construções. Dialeticamente a história de Liévin, que deve representar questionamentos existenciais do próprio autor, mistura-se com a minha, levando a mim mesma às produções de sentidos e à construção de novas zonas de sentido.
       Viver, pensar ... Liévin afirma que vivia bem, e pensava mal.
      Eu posso viver sem a consciência disso, de que vivo bem e penso mal. Posso viver sem ter a consciência de que a vida é binária, a fome é binária, é sim e não  ou mata e come, ou é comido e morto!   Liévin, então, compreende que vivia graças às suas crenças, e não graças às suas necessidades, pois, se vivesse pelas necessidades, mataria, usurparia, violentaria. E eu compreendo todo o desdobramento complexo dessa relação do pensar de Liévin sobre o seu viver.
       O conflito existencial de Liévin me conduz à compreensão de que o viver é binário e o pensar seria o elemento que monta um sistema ternário. O pensar não é a dialética com o viver, pois a dialética, ou dialógica, é a própria vida, ou a vida mesma. O pensar já é o terceiro elemento. E do pensar em dialógica com o viver binário, evidencia-se o elo que os vincula, o elo que os movimenta: o sentir. Então, o sentir monta um sistema quaternário. Com o quartenário possível, alcança-se o espiritual, o transcendente, que nos leva de volta ao uno, num ciclo sem fim do fluxo do ser, da consciência.
       Essa seria a resolução do conflito existencial de Liévin? Ele fala:
       "Procurei a resposta à minha pergunta. Mas tal resposta não poderia ser fornecida pelo pensamento - o pensamento e a pergunta são incomensuráveis. Foi a própria vida que me deu a resposta, com base no meu conhecimento do que é bom e do que é mau. E esse conhecimento eu não adquiri de coisa alguma, ele me foi dado junto com tudo o mais, e me foi dado porque eu mesmo não poderia obtê-lo em parte alguma."
       O personagem compreende que viveu graças às crenças em que foi educado. Sua compreensão significa que viveu ao todo, e não à fome da parte. Nessa resolução existencial compreendemos que o todo é complexo. O binário é movido pelo pensar ternário, que desencadeia o elo entre o viver e o pensar, que é o sentir, construindo o quaternário. Do quaternário, o pentagrama. O Humano é um pentagrama, já expresso por pensadores ancestrais. No pentagrama é onde acontece a organização da consciência. Para Liévin, foi o encontro com a fé como uma experiência única que está para além de toda e qualquer doutrina ou instituição. Em mim, encontro o todo. E só consigo isso, esse encontro com o todo, porque estou no mundo da troca, da inter-relação e da construção cultural-histórica humana.
       Liévin compreende que tem algo maior que o sustenta e do qual ele faz parte e, na resolução de seu conflito existencial, compreende que não pode destruir aquilo que lhe permite viver. E aí está a base do pensamento ecológico. A resolução de seu paradoxo chega quando lembra de uma cena de sua cunhada educando seus sobrinhos: as crianças, imersas na sua i-razão, ainda não podem compreender. Mas ele, agora, compreendia. A mãe, amorosamente, passa à lógica à criança. Uma lógica que para ela é ilógica. Mas essa lógica passada pela mãe é o que vai ajudar depois, na nossa própria construção de sentido, indicando que o sujeito não está separado de um todo. Tudo é importante: o processo é um todo e no todo tudo faz sentido, não só na parte individual tão valorizada nas sociedades individualistas.
       Ao ler o livro vejo a expressão mesma da subjetividade se organizando entre o pensar e o viver. Vejo a emoção entrando e dialogando com os simbólicos. Aprendo sobre a relação da subjetividade com a consciência e fortaleço toda a minha aprendizagem pessoal sobre a ecologia e a ciência em primeira pessoa.
       Impossível não registrar esse processo reflexivo. Impossível não aproveitar a viagem de Tolstói no século XIX, trazendo para nós tão vital saber para o século XXI. Grata, Tolstói! Liévin tinha conflitos com o divino e quando o resolve percebe que nas relações ele ainda é humano mas, em seu íntimo, já não o é mais.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Jung e o diálogo do coletivo com o individual

       Esse post começou a ser gestado em julho, agosto desse ano. E precisou ficar no forno por duas razões. A primeira, uma certa falta de tempo e oportunidade de estar sentada com o livro, numa mesa adequada e conseguir organizar minhas notas de leitura em um texto mais ou menos coerente. A segunda foi um total respeito à Jung e ao que ele falou. Não poderia ser leviana e colocar um post de Jung com superficialidade, com tentativas de me mostrar dominando o tema, com desrespeito ao que a leitura do livro O Eu e o Inconsciente me suscitou. Assim, considerando essas duas razões abro a permissão para falar sobre Jung e seus pensamentos.
       Eu acredito que compreendo o pensamento de Jung por ser uma jovem garota de 50 anos que estudou com bons professores e que já faz parte de um tempo novo nas linhas do conhecimento. Só por essa razão me atreveria a debater aqui suas ideias, pois ser especialista em ecologia humana me facilita a compreensão de muitos códigos.
       Eu estudei Jung mais profundamente para colocá-lo em nosso primeiro livro (A subjetividade social na escola, 1999), pois imaginava que ele poderia dialogar com a subjetividade de González Rey, e também por um respeito histórico a alguém que falou em inconsciente coletivo num tempo, o que me validaria estar falando em subjetividade social naquele meu hoje.
       Esse ano voltou um chamado para ler Jung e um encontro com esse livro na minha estante. Tenho uma coleção de livros de Jung que herdei de uma professora querida. Eu os tenho para ler quando tiver o tempo. Assim, vendo os muitos, resolvi retomar esse estudo por esse livro citado, cuja leitura me revelou coisas importantes, e que busco aqui-agora compartilhar.
       Estudar Jung esse ano foi como mergulhar nos mares que abriram as portas para o entendimento de uma psicologia transpessoal. Quando ele propõe que o inconsciente tem uma dimensão que é coletiva, ele proporciona uma amplificação ao sentido da personalidade, do psíquico e do diálogo do singular com o coletivo. A pessoa individual, formatada biologicamente pelo corpo, nasce una. Mas é engolida pelas ondas das matrizes arquetípicas que dão a este antropomórfico uma corrente de influências inconscientes que lhe ajudam a organizar o ser Eu no Todo do humano no mundo.
       Anterior a muitos outros, pois esses escritos são de 1916, 1928, ele ousa trazer ao científico o marginal subjetivo. Freud forjou o inconsciente do eu e colocou o objeto fora, no outro. Jung forjou o inconsciente criativo, pulsante de possibilidades, magnificamente compartilhado no tempo e no espaço, desde que o humano fez-se humano, e por onde e quando ainda for fazer-se. O inconsciente não como um depósito da história pessoal, mas como conteúdos psíquicos transpessoais não inertes ou mortos e que não podem ser manipulados à vontade, pois são entidades vivas e que exercem força de atração sobre a consciência (p. 20).
       Assim, estranhos caminhos pode seguir a personalidade ao tentar lidar com sua individualidade (temperamento?) e sua coletividade (caráter?). Completamente jogada no círculo sem fim dos pares de opostos, vive a tensão entre o ser lúcida e não ser. Ser Eu e não ser. E, por incrível que pareça, em Jung a morte do singular impede o avanço do coletivo. Transpessoal e paradoxal é a vivência do psíquico, pois existe um realizar de si mesmo que seria o mais singular. Se vou muito ao coletivo, alieno-me. Por outro lado, o coletivo precisa que eu faça esse caminho de individuação. O coletivo e o individual possuem um diálogo mágico de auto-criação e criação mútua.
       O individuação seria o processo de despojar-se (o si mesmo) dos invólucros falsos de uma persona e de poderes sugestivos de imagens primordiais. Seria a possibilidade de ser singular sabendo-se no e do todo.
       Para Jung o inconsciente e o consciente não operam por oposição e sim por um princípio dialético e o "si mesmo" é os dois em um. Para que isso fique claro, a pessoa precisa conhecer em si mesma esses conceitos e fazer o caminho do auto-conhecimento. Esse ponto é importante que eu traga, pois é um dos pontos de divergência com a teoria da subjetividade de González Rey, que prefere falar que o conhecimento de si é algo que não existe. E aqui cabe uma questão: o que seria o conhecer? Quem é o conhecedor? Onde habita o conhecimento?
       Outra questão importante, que não coloco como interrogação, mas como ponto de reflexão, é que encontro em Jung a menção à ciência em primeira pessoa. Em algum momento do texto ele ressalta: não basta ler minhas palavras (ou mesmo ouvi-las) para compreender os meus conceitos. Imprescindível vivê-los.
       Meu primeiro professor de Jung foi Doro, que foi também meu primeiro professor de psicoterapia e  foi a primeira pessoa que me levou ao processo de formação e conhecimento em primeira pessoa, então, posso afirmar que compreendo Jung, pois vivi em mim o processo da construção de si no todo. Os arquétipos, os mitos, a vida se misturando com o sonho, a plena incerteza de ser e até mesmo de estar, tudo em mim vivido e compreendido.
       Grata Jung! Grata Doro!
       Os estudos sempre continuam, mas a confirmação que certos saberes chegam somente em primeira pessoa é o que me anima a continuar e continuar a aprender e trabalhar. A difícil teoria de Jung nem precisa ser toda estudada e dominada para compreender que o que ele defendia era a integração do sujeito com o objeto e por aí devem seguir os caminhos de uma psicologia transpessoal. O viver é um jogo de espelho que mistura o individual com o coletivo e cada um deverá empenhar-se no seu próprio caminho de tradução de imagens que são realidades e de realidades que são meras imagens.
       Como tenho ainda um tanto de vida, ainda um tanto tenho para aprender sobre isso ...

JUNG, C. G. O eu o o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1971.
Um post de Dia de Reis. Agradeço ao momento de férias que me aproxima de meu blog.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A Crônica dos Gatos

Eu tenho duas gatas, a Mia e a Kira.
A Kira, mais nova, bate na Mia. Assim a Mia, mais velha, me inspira mais proteção. Além do mais, ela já estava aqui primeiro, nós já tínhamos estabelecido nosso diálogo e estávamos nos dando super bem. De noite eu a buscava e já a encontrava protegida em sua casinha, que ficava na área de serviço. Eu olhava nos olhos dela, ela soltava seu miado suave, eu dava boa noite, fechava a porta da cozinha e ia dormir. Tudo harmônico! Mas isso mudou.
Primeiro chegou o Tigre, nosso macho, que eu já sabia que se fosse prá ficar, era pra ser um castrado. Um outro que chegou para ser Mel, e virou Tigre. Eu já tinha perdido outros machos e já tinha aprendido essa lição. Tigre perdeu seus instintos de procriação, mas não perdeu os de territorialidade. Mas, tudo bem; eu tinha duas casinhas e tava tudo tranquilo. Tigre entrou na dança. Não tirou a Mia de sua casinha e ocupou uma outra. Como sua tia Mia, sofreu violência na infância, tem seu rabo quebrado e nos chegou já bem medroso. Tem um trauma biológico. (sua tia tem rabo quebrado e ficou manca) Apesar de traumatizado, é o macho pernóstico, que se sente no direito de vir sentar no meu colo, entre eu e meu computador, quando estamos os quatro aqui na minha salinha de produção, na qual as duas fêmeas já estão acomodadas na sua. (obviamente com a Mia mais perto de mim e a Kira deitada na almofada no chão).
Daí um dia chegou a Kira de carona numa van escolar. A terceira gata, a segunda fêmea. Chegou de surpresa, tentei mandá-la embora, mas não consegui. E daí tudo mudou mesmo. A Mia meio que se marginalizou, pois perdeu sua casinha. O Tigre pegou a dela, a Kira pegou a do Tigre, e não necessariamente nessa ordem. E a Mia começou a passar as noites na rua. Para mim me parece óbvio que meu instinto protetor aflorou total. Para tudo estou como defesa da Mia, tentando colocar a Kira no seu lugar de segunda.
Um dos problemas que te trazem os gatos é que eles são um tanto noturnos e seu ritmo de sono é bem diferente do nosso. Mas eu descobri que a Mia era capaz de passar a noite quietinha, dormindo bem no pé do meu lado da cama, super ciente de que meu casamento ela não podia atrapalhar. Por tudo isso, hoje ela pode dormir em nossa cama.
E eu enxoto a Kira.
Bem, a Kira também é adorável. Não era para ser minha, mas acabou sendo, pois sou eu que os alimento. E a Kira é muito singular. Talvez por não ter tido um trauma de infância como tiveram os outros dois, ela é muito mais saliente. Ela sobe nas basculantes e fica equilibrada na janela do meu quarto, que é uma fina plataforma que beira um abismo. Ela chegou num sistema já estabelecido e demorou para se aventurar no quintal, onde mora nossa cadela descontrolada. Assim, afiou suas unhas no sofá (relaxei, pois era velho e já fui elogiada pela veterinária que estou conseguindo preservar o mais novo); e Kira ficou sendo uma gata de casa (dá até para levá-la para um ap. de boa, pois é a que mais usa a caixinha de areia que fica dentro de casa).
Enfim, não é que eu não goste da Kira, mas eu tenho um cuidado muito maior com a Mia que, dentre outras, está mais velha e com algumas limitações inerentes à idade de uma gata manca.
Então é isso. Esses são os gatos, suas ações e nossas relações. Mas, o que podemos tirar disso tudo?
Talvez uma percepção de que nosso "centro baixo" nos governe na construção de nossas relações e com isso ajuda a coordenar uma dimensão afetiva, subjetiva. O encontro entre o objetivo e o subjetivo. A natureza e a cultura, a matéria e o imaterial. A ação concreta conjugando um processo subjetivo.
Eu vejo minha relação com a gata Mia, que é um ser vivo autopoiético, e compreendo uma configuração subjetiva arquetípica: a relação com as crias, com aqueles que amparamos e ajudamos a criar. Adoro os três gatos, mas minha afeição por cada um deles é distinta. Seria por isso que os pais são diferentes de um filho para o outro?
As circunstâncias, as histórias, os eventos, as identidades. Elementos que, ao se conjugarem, constroem aquilo que vivemos como real.
Essa é a crônica dos gatos!