Minha razão

Olá!!
Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Falar

Eu falo do outro como se não estivesse falando de mim mesma.
E esse é um problema muito grave.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O Eu virtual e o Cérebro (neuro)plástico

       A neuroplasticidade é a propriedade que possibilita ao cérebro modificar sua própria estrutura e seu funcionamento em resposta às atividades concretas e experiências mentais. São atividades concretas aquelas que entram no sistema via captores de externalidade. Audição, visão, olfato, paladar e toque, são as mais conhecidas, mas temos também o sentido proprioceptivo, um sistema multi-sensorial/sensitivo. A propriocepção existe por existirem sistemas sensoriais/sensitivos particularizados. Ela é um todo que não é igual à soma de suas partes. Ela integra o todo material e imaterial de nosso corpo. Localização, limiares, expressões, amplitudes, postura, movimento - ser aí no mundo sendo um cérebro neuroplástico em vida.
       A neuroplasticidade substitui a ciência do localizacionismo, sistema teórico que defende o cérebro como determinado, particularizado e fixo. Da mesma forma, com a neuroplasticidade alcançamos um sentido de Eu que perde o determinismo, a particularidade e a fixidez. Nesse universo o Eu passa a ser um todo formado por partes, sendo que as partes só existem por existir um todo e o todo só existe por existirem as partes. Este é, portanto, um Eu virtual, pois é não localizado, globalizado e inter-atuante.
       Os avanços dos estudos sobre a neuroplasticidade corroboram pensamentos teóricos de Freud, Jung e até mesmo de Reich e sua percepção corporal da formação do caráter. Há uma confirmação científica de que a construção do Eu, na relação com o outro, nos transforma em Eus virtuais. Somos imagem de Eu, não uma fonte emanadora de sentido exclusivo, mas um jogo de espelhos que não nos permite definir onde está o objeto. Somos todos loucos em um descontrolado looping cerebral e isso está ligado à nossa história pessoal e ancestral.
       Sabendo o Eu que não existe o que poderia acontecer?
       Esse conhecimento é a curva, a chance de ir para entropia ou anatropia. Daí a importância de inserir a discussão sobre a intenção e a consciência. Pelo que existe, precisamos ser um Eu para estar no mundo, compondo o mundo com uma multiplicidade de Eus.
      Temos na propriocepção, então, uma via de trabalho da auto-regulação, sendo este um trabalho fácil e difícil ao mesmo tempo. Transformarmos a nós mesmos e proporcionarmos nossa saúde tem na plasticidade neural sua benção e sua maldição. Entendi isso ainda mais neste janeiro de 2019 com a ajuda da leitura do livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti, da Cia. das Letras, 1997. Eu levei comigo para as férias o livro O cérebro que cura, de Norman Doidge (2016), pois queria aprofundar o estudo do Eu virtual e dos jogos de intenção e compor esse post. Todavia, chegou em minhas mãos o livro sobre o  auto-engano de surpresa e com a leitura desse livro fortaleço essa discussão, pois com ele compreendi que a propriocepção é um sistema montado sobre o auto-engano. E agora? Como trabalhar para que o Eu pare de se auto-enganar e possa, assim, se auto-regular? E mais: como fazer isso se não existe um Eu?
       Esse trabalho é complexo pois, de acordo com a neuroplasticidade, precisamos integrar neurônios que estão separados e separar neurônios que estão integrados. Precisamos despertar aqueles bons que estão adormecidos e adormecer os ruins que estão ativados. As dores derivam de plasticidades descontroladas, pois áreas que regulam certas atividades vitais foram sequestradas para processar o sinal da dor. Já falei em outra postagem sobre o cérebro ruidoso e, para que o entendimento se amplie, preciso compartilhar o tema do Eu virtual e provocar o debate defendendo que o Eu só será real quando estudarmos em ciência de primeira pessoa. Os estudos neuroplásticos confirmam que descobertas científicas são feitas quando os médicos profissionais se tratam (Doidge, 2016). Muitos avanços partiram de pessoas que adoeceram e fizeram ações concretas para a sua recuperação. Saúde, dor, neurose são campos de ação da neuroplasticidade e precisam de um Eu intencionado para se transformar. Se eu crio a dor, eu também a des-crio mas, sendo o Eu virtual, quem cria e des-cria?
       O Eu virtual, na verdade, começa com o corpo virtual. Temos uma imagem corporal formada na mente e representada no cérebro e daí, inconscientemente, projetada no corpo. É um corpo virtual, pois possui certa independência do corpo físico. É uma imagem construída a partir de múltiplos estímulos de diversos mapas cerebrais que envolvem principalmente a visão, o tato e a propriocepção, assim como de qualquer mapa que possua registro informacionais de sensitividade e emoções em nosso sistema neural. A imagem corporal representa "o conjunto dos diferentes estímulos dos vários sentidos para o cérebro, mas inclui também as ideias carregadas emocionalmente que a própria pessoa tem sobre seu corpo." (Doidge, 2016, pag. 48).
      O Eu é e não é em um corpo imaginário projetado no real. As construções que fazemos de saúde ou de doença são produtos dessa plasticidade do ser e não ser em projeção. O paradoxo está em que é no Eu virtual que reside a entrada e a saída do sistema. O Eu que é e que não é é quem vive e dita o que vai viver. Não somos loucos, não temos dores. A única coisa que temos é, talvez, um cérebro que tenha dificuldades de virar páginas. Sou um Eu virtual que acredita que vive o que vive. E quanto mais eu fixar, mais neurônios eu vou sequestrar para essa fixação.
      Para um outro post merecemos falar sobre a humanidade como um grande cérebro que tem um Eu virtual. Tal como os neurônios de nosso corpo, que estão todos interligados, os humanos também estão por suas tramas sociais e culturais-históricas. Mas isso é a delícia do tema da subjetividade social, que merece mesmo debates dialógicos próprios. Para finalizar, deixando o gancho, só peço com gentileza ao seu Eu virtual que se recorde que está no mundo e que o mundo existe. Ou não?
       E lembro que a psicologia ajuda cérebros a virar páginas. Esse tem sido o nosso trabalho cotidiano.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A liberdade é uma ilusão


       Muitos pensam que são livres, e querem garantir seu direito de ser livre. Mas, sinto dizer, não somos livres.
       Quando fui votar a primeira vez em urna eletrônica (e Brasília foi um dos primeiros lugares onde isso aconteceu) senti que estava atada.
       Na ocasião eu recebia em casa um amigo de São Paulo que vinha trabalhar na criptografia do Imposto de Renda do Banco Central e, com base nas nossas conversas, já na primeira vez que a mesária digitou meu número de título de eleitor e que me falou: “agora você pode ir ali votar” eu pensei, e falei em voz alta, pois sou impulsiva:  “Nossa! Meu voto não é mais secreto!”
       Hoje passo no posto de gasolina e o moço me pergunta: “quer pontuar premia, moça?”, assim, na primeira vez que digitei o CPF numa dessas máquinas falei: “agora meu CPF já está vinculado à minha senha na tua maquininha!” (e obviamente na rede da qual ela faz parte).
       E, ao abrir meu notebook hoje (instrumento de trabalho,) vejo que o Windows já me liga direto na minha conta Hotmail, e percebo que minha vida está rastreada. Por essa via é possível saber quem sou, por onde ando, quantos piratas e quantos originais eu tenho no meu computador, quem são minhas redes, meus gostos e preferências ... etc.
       Ao abrir meu instrumento de trabalho entro na internet automaticamente e, enquanto digito esse texto aqui no word, sinto a vulnerabilidade dessa experiência de liberdade.
       Então, me pergunto: de que liberdade falar?
       Não pode ser a liberdade do liberalismo, pois ela prevê que estou num mundo social e o mundo social está no mundo material, e nessa vivência material não me sinto livre mesmo!
       No meu entender é essa experiência material que nos afronta tanto e que nos leva a se posicionar ante um ou outro candidato nesse momento de nossa história. Ou mesmo se posicionar no nulo, no branco. É uma decisão pautada pelo nosso material do dia a dia. O dinheiro suado que ganho e o dinheiro fácil que é roubado dos cofres públicos numa nação em conflitos com a lei. O que posso ter ou não ter, quem pode ter ou não ter, o quanto um tem e o outros não tem.
       Daí eu penso: mas tem anos que minha vida é pautada pelo espiritual! Como me posicionar dessa forma frente a essa dura realidade tão material? Como compreender minha liberdade cerceada? As campanhas, os jingles, os marqueteiros – todos estão trabalhando com nossa suposta “liberdade” de escolha.
       Minha família é cristã católica, nasci nesse berço. E compreendo que Cristo era pelo comum, mas meu pai rejeitava o comunismo ao mesmo tempo que era tão cristão. Como isso é possível? Como lido com tanta contradição na minha base de formação? Liberalismo, comunismo ... e agora?
       E aí, como sempre, busco meu minuto de silêncio. Não oro, não peço. Só escuto, pois estou no silêncio e nele estou intencionada.
       E o silêncio me revela ...
       E sigo meu caminho!
Brasília, 23 de outubro de 2014.

05 de fevereiro de 2019 – encontro este texto de 2014. Merece publicação com revisão e adição de texto.
Não somos livres e temos uma inteligência artificial nos coordenando. Escrevi o texto acima em tempos de eleição que dividiam coxinhas e mortadelas. Hoje estamos novamente na dicotomia, só que mais extremada ainda: os bons e os ruins: os eleitos de Deus e os eleitos do Diabo. Definitivamente, livres não somos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O trabalho no caráter

       Somos seres desviados e desviantes. As restrições, que acontecem em multidimensionalidade (corporal, psicológica, social, cultural), impedem o fluir autônomo e saudável. As restrições funcionam como diques, obstáculos. Liberar é soltar o movimento das ondas e ajudar o corpo no auto-regular-se..
       Na terapia craniossacral usamos toques suaves para desmobilizar cistos energéticos. O cisto pode estar longe do ponto do trauma, pois ele se instala onde encontra uma resistência à propagação da onda energética do impacto. Se as mãos seguraram o corpo na hora da queda, o cisto pode estar instalado no ombro, ou no pescoço, ou até mesmo na cabeça, dependendo da força do impacto e da propagação.
       Quem trabalha com dor deve sempre lembrar que a dor é multifacetada e com mais de uma máscara. Uma dessas máscaras é a dor referida, ou seja, dói aqui, mas o foco é lá. Da mesma forma um cisto energético, que se instala onde a força da impacto é anulada pela força de resistência dos tecidos do corpo.
       Muitos cistos, muitas marcas, constroem o nosso caráter, tema que já pude trabalhar em outro post desse blog. O caráter é nossa armadura, nossa forma que formatou o fluido da configuração, onde estacionou a personalidade. É como um modelo pré-fabricado, um molde que nos coloca na síndrome da repetição, forma de expressão da neurose.
       No nosso trabalho com toques suaves e diálogos prospectivos vamos ajudando a expressão da consciência que dissolve os cistos. Na conscientização vamos saindo das resposta automáticas de nosso robô 0 ou 1 e permitimos a expressão da resposta espontânea mais natural, menos artificial.
       Uma resposta se difere de uma reação. A reação é automática, a resposta é espontânea. Quando a vida te colocou um desafio você teve uma reação ou uma resposta?
       Todos nós, no geral, somos muito reativos, pois atuamos a partir do caráter automaticamente, do modo como ele foi programado. Liberar os cistos é trabalhar na desprogramação, permitindo novas re-programações. Quanto mais reativo somos, mais basal, mais reptiliano, mais luta ou fuga, mais garantia de território e sobrevivência sou. Assim, dessa forma, para chegar a dar RESPOSTAS à vida, precisamos trabalhar o caráter. Precisamos trabalhar algumas das rotinas seguras, muitas delas contrárias à natureza, onde nos estabelecemos e fizemos nosso patamar, nosso alicerce.
       Na psicoterapia conjugada com a terapia craniossacral desenvolvemos  o sentido de viver a vida como um mistério e deixamos de entendê-la como algo a administrar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Para a Psicologia Comunitária e além

       Um dos campos que estudei com mais profundidade nos últimos quatro anos foi a Psicologia Social Comunitária. Esse campo de estudos e de ação (pois em meu entender pode ser considerado uma ciência aplicada) tem nuances desafiadoras, pois trabalha a integração entre a pessoa e seu espaço coletivo e/ou social.
       Para ampliar minha compreensão sobre esse tema da relação entre o singular e o coletivo plural tenho dedicado anos de estudos a alguns autores, dentre eles Edgar Morin, Humberto Maturana, Ilya Progogine, Fernando González Rey, dentre tantos outros. Recentemente tenho dado tempo de estudos à propriocepção e à neuroplasticidade, linhas complementares ao ser psicóloga. Atualmente estou em parceria com Francisco Varela e sua possibilidade de consolidação da ciência em primeira pessoa, estudos que fundamentam a defesa de minha tese da pedagogia de si em si. Talvez eu tenha entrado em campo obscuro, mas talvez eu esteja em campo muito fértil para os tempos atuais do viver humano. O que me faz sentir segurança é Capra e Luisi em seu "A visão sistêmica da vida", laço importantíssimo na tecitura dos nós e fios que sustentam a rede que me sustenta em meus saltos.
          As epistemologias de complexidade e subjetividade nos indicam vias de compreensão do funcionamento dos grupos e dos coletivos. A subjetividade é uma categoria que consegue reunir o todo no campo da psicologia e merece ser estudada para ser bem compreendida, reverberando isso na operacionalização do Todo. A complexidade é o tudo no todo e se auto-define. Eu as trago aqui como fundamento e plataforma.
       Por muito tempo a subjetividade foi tomada só pela singularidade e, portanto, sua compreensão como algo passível de abarcar o grupo demorou para acontecer. Todavia, atualmente já temos a categoria subjetividade colocada como possibilidade de compreensão do todo complexo e as conversas podem subir alguns tons e, quem sabe, algumas escalas.
       Quando falo de psicologia comunitária, falo de trabalho nos sistemas e falo em multidimensionalidades. Na ação concreta de profissional preciso conscientizar-me de qual sistema trabalho: se é o grupo ou a comunidade ou ainda, a sociedade. Esses agrupamentos possuem diferenças qualitativas, mas possuem semelhanças funcionais. Respondem aos mesmos princípios por serem sistemas, mas guardam sempre em si sua característica singular. Esse pensamento os colocam em semelhança, mas nunca em igualdade.
       Nós, como espécie humana, formamos grupos para a nossa sobrevivência e, enquanto grupo, precisamos nos autorregular. Da mesma forma que um sistema vivo se autorregula na sua singularidade (um corpo biológico), também um grupo se autorregula como unidade, como um corpo.
      Como integrante do grupo eu preciso visualizar o que o grupo precisa, para além do que o que eu preciso, ou melhor, do que o Eu precisa. É um exercício difícil conjugar o Eu no Todo sem perder o Eu e sem perder o Todo. E, como tensão inerente, o maior medo do Eu é perder-se para sempre no Todo. Aqui evidencio o que muitos autores colocam como "a morte do ego".
       Um dos tópicos que defendo é que nessas investigações de psiquismo é bom usar o "si mesmo" para descrever ou avaliar uma situação. A referência seria: qual a experiência do "si mesmo"?
       Em tempos de defesa de meu doutorado e não compreendia muito bem, mas hoje entendo por qual razão os doutores e doutoras de minha banca de defesa me interpelaram: que "si mesmo" é esse? - colocando no debate um tom de temor!
       Na minha inquietação sobre o si mesmo, que não pararam após minha defesa de tese, encontrei os debates sobre o self, categoria controvertida nos campos de pesquisas de meus pares. O self fala de si quando deveria falar do outro? Como falar do outro se não por meio do self? Como é possível considerar isso ainda científico? O self existe? Ou ele é um puro reflexo do Outro? Como validar um espelho sem ter clareza do objeto que produz a imagem?
       Aquilo que posso chamar de meu contexto histórico e cultural coloca na conversa assuntos curiosos do tempo contemporâneo em que percebo a Inteligência Artificial não mais como "ficção científica de filme", mas como realidade factual de nosso cotidiano. Ver eleições presidenciais sendo decididas em espaços de IA me indicam isso claramente. Temos ao nosso favor um espaço cognitivo que, cada vez mais, atua de forma interventiva no sentido de ser humano subjetivo no mundo. Estamos vivendo novos modos de subjetivação e ainda não conseguimos alcançar plenamente o que isso representa. A realidade está claramente manipulada e posta ao serviço do imaginário social.
       Então, a Psicologia Comunitária precisa se apropriar cada vez mais do entendimento do que são redes, do que são conexões, do que são tensões e processos, do que são os encapsulamentos, do  que são as ativações, do que é o conhecimento e qual sua relação com a ação, do que é o Todo e do que é o self.
     Como profissional da psicologia prefiro usar a categoria subjetividade à categoria comportamento. Comportamento é uma categoria da mente analítica e essa mente corre o risco de tomar a parte pelo todo. A subjetividade, por sua vez, coloca em evidência a parte, o todo, o passado, o futuro, o singular e o coletivo e auxilia na produção da mente não-analítica e não-linear.
       Subjetividade é o que vivemos agora e no agora está o sujeito. Sujeito, na teoria da subjetividade  de González Rey e também no pensamento de Touraine, é a tensão do singular com o social, algo inerente à condição de ser. Sujeito desperto é bom, mas não é fácil! Muitas vezes a pessoa defende estar posicionada em sua opinião, mas ela está sendo levada pelas tensões do Todo e do histórico-cultural. O estruturalismo defendeu que somos vividos pelo coletivo, que não tem sujeito, Mas a sociologia se curvou ao sujeito, dando seu lugar novamente após seu martírio científico. Como fazer para eu saber se sou sujeito ou se estou assujeitado?
       Nesse sentido, recomendo o espetáculo Nanette, de Hannah Gadsby, disponível na Netflix. A autora e intérprete mostrou seu trabalho com a tensão e fez uma leitura de mundo de impressionar. Seu trânsito pela subjetividade (social, para não perder o sentido de dialógica singular e todo) foi magistral. E ela apresenta o mundo em mudança e a relação da mudança com a resistência.
       Gostei muito desse espetáculo, pois como psicóloga, trabalho com tensão. E é só olharmos um mínimo mais atentos que vemos o quanto nosso mundo de hoje está em tensão. E tensão é espaço para emergência de sujeitos. Ou não!
       Na relação entre o singular e o todo, entre o pessoal e o social, existe um fenômeno que é:
- quanto maior o posicionamento do sujeito, maior a tensão. Essa tensão ou fará revolução ou fará o extermínio do sujeito. É aí que temos as histórias dos heróis, dos mártires e também dos anônimos que vivem um dia após o outro sob uma tensão coletiva que sisma em mover o curso da história.
       Lembro que o foco desse texto é a produção de uma mensagem para a psicologia comunitária. Lembro que não existe outra possibilidade de olhar o mundo que não seja a partir do Eu. Lembro que os estudos do Eu estão entrando nas vias da "mind with no self" e que o Eu precisa ser um agente duplo que transita entre o universo da mente e da não-mente, do ser e do não-ser, do todo e da parte.
       Quando falamos de revolução, de que REVOLUÇÃO estamos falando?
       Eu falo de revolução de percepção! O mundo irá mudar muito quando a percepção mudar. E precisamos considerar nosso lugar de Eu no todo e desenvolver os estudos em primeira pessoa e a partir daí validarmos nossas teorias, ou não.
      Reflexão, posicionamento, ação e conexão. Essas são nossas possibilidade enquanto elétrons disponíveis para um sistema maior. Essa é a dica que dou para os trabalhos sociais comunitários: trabalhar nessas quatro instâncias da circunstância: REFLEXÃO; POSICIONAMENTO; AÇÃO; CONEXÃO.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Notas sobre o filme Anticristo


Notas sobre o filme Anticristo[1]

Toda a história do filme e a escolha do título mostra a importância de primeiro questionar-se: o que é o Anticristo? Quem é o Anticristo?
Da mesma forma, ao perceber que se trata de um filme interessante para trabalharmos na ordem do simbólico, eu lançaria a questão: o que é o simbólico?
Esse é um filme que caracteriza bem a construção mental que mistura e conjuga o imaginário e o real. Os limites entre essas instâncias humanas são tênues e difusos, tal como nos retratou muito bem o filme em questão.
Nesse sentido, vale lançar mais uma pergunta: o que é o imaginário? Recordando que Castoriadis ressalta o quanto o imaginário individual mistura-se com o imaginário social.
O filme parte do corpo, da sexualidade e mistura vida, morte, dor, sofrimento e caos. Junto com todos esses elementos, agregam-se algumas construções simbólicas da humanidade, dentre elas a maternidade, o feminino, a loucura.
Um filme sempre passa pela construção de seu autor, que elabora um roteiro e constrói um enredo para apresentar um espaço reflexivo aos que assistem sua obra. Nossos estudos de psicologia se enriquecem muito com as possibilidades que os filmes nos trazem. No caso específico do filme Anticristo, encontrei os riscos que corremos em nossa profissão ao transitarmos no limite entre a sanidade e a loucura.
Mas, como se construiu o transtorno no filme?
A morte do filho entra como uma situação desencadeante de um quadro mais profundo. Não é ali que o transtorno começa, mas é ali que ele começa a se tornar insuportavelmente manifesto. E o companheiro, sendo um profissional da área psíquica, assume a empreitada de trazer sua mulher de volta ao mundo cotidiano, tentando ajudá-la na sua reconstrução.
O trabalho foi de conhecer-se confrontando seus medos, tentando racionalizar o irracional para poder traduzir a angústia emocional que se materializava em ansiedade corporal. A unidade entre o corpo, a mente, os processos simbólicos e as expressões emocionais são o campo da complexidade onde o profissional irá atuar.
Todavia, no quadro apresentado havia um particular: o profissional estava envolvido emocionalmente na circunstância. E ele corre um risco ao assumir o caso e tirar sua mulher da anestesia do remédio para defrontar seu quadro perturbador.
Em um diálogo que engloba o espaço de morar e o espaço de refúgio, monta-se aos poucos um cenário que culminará na tragédia. A constatação de que a lucidez, há muito, não estava presente, e de que a situação desencadeante da morte inesperada do filho era só uma ponta de um continente mais amplo do inconsciente, vai permeando um caminho. A escolha de um tema para a construção de uma tese de doutorado e a escolha de isolar-se para a produção da escrita acerca do tema, convergem como fonte de produção de sentido subjetivo sobre o ser mulher e estar no mundo, confundindo um pensamento crítico com uma adequação ao pensamento criticado. O ser mulher deixa de ser uma luta pela liberação do feminino para se converter na expressão do mal natural que há na mulher, algo do mais profundo arquétipo de uma sociedade patriarcal e machista. A mulher se converte na algoz de si mesma.
Muito mais do que uma discussão psicológica, o filme nos abre um diálogo aos espaços mais amplos do humano que envolvem o imaginário social e o simbólico. Unido a isso a construção do sujeito em espaços subjetivos de integração entre o sentir no corpo e na alma. As dores, os medos, as inseguranças, as incertezas.
O fenômeno da natureza entra no enredo do filme como o lugar do possível e do impossível. As cenas parecem indicar uma confusão entre o sonho e a realidade. O personagem que estava na busca de uma possível cura começa também a invadir e ser invadido pelo espaço da loucura. Seus sonhos começam a revelar as dinâmicas psíquicas inconscientes que podem ser dele mesmo, mas também dos dramas da mulher. A gazela que abortou seu filho, a raposa que devora a si mesma, o corvo que mostra a noite e o desespero da morte, todos como símbolos que se traduzem numa configuração subjetiva do transtorno de um, que se mistura com o transtorno de outro.
Por um momento parece que o corpo imolado será o do homem. Mas no desfecho, mais uma vez, o corpo imolado é o feminino que, já mutilado, é sufocado. Ao sufocar o feminino a angústia se dissipa no sonho do masculino, vendo-se cercado por pilhas de corpos femininos que transitam sem face, sem uma identidade, sem um destino claro.
A resolução da loucura acaba sendo a própria loucura, algo que desafia o pensamento de nós, psicólogas e psicólogos, que nem sempre alcançaremos a dimensão criativa da mente de um ser que transita nos limites incertos entre o real e o imaginário.
O simbólico é o que está associado ao real na construção de uma representação. O simbólico traduz em algo acessível o inacessível da mente. O imaginário é o espaço criativo de construção infinita. Local onde tudo é permitido, onde a lei não é clara, onde a ordem é e não é necessária.
Lidar com o humano, ser portador de dimensões complementares, ao mesmo tempo que antagônicas, é um desafio ao que se pode chamar de lucidez. Esses espaços que nos desafiam, que nos balançam, são aqueles possíveis do humano: o bem e o mal, a dor e o prazer, o medo e o amor que dá segurança. Saber onde um acaba e o outro começa não é tarefa fácil. Daí a importância de cada um se converter num pesquisador de si mesmo e traçar em si o mapa que poderá dar um suporte necessário ao trabalho nos labirintos da mente imaginária e produtora de sentidos subjetivos que integram a emoção e o simbólico em uma unidade subjetiva.
Assim, para finalizar, volto ao meu ponto de partida: o que é o Anticristo? O que representa simbolicamente em nossa sociedade a imagem do Anticristo? Em poucas palavras, a expressão do medo. Qual medo? O medo da morte. E quem no filme encarnou o Anticristo? Acredito que sociedade, a sociedade cultural-histórica. A sociedade que cria símbolos para o bem e para o mal. No caso em específico, o papel da mulher em nossa sociedade, ou seja, a mãe perfeita que não descuida de seu filho, a mulher passiva que dá prazer ao macho, a mulher que, ao sentir prazer, encarna em si o símbolo do mal, do pecado.



[1] Notas elaboradas pela Prof. Ana Maria Orofino Teles para compor a dinâmica do Núcleo de Estudos Psicologia e Arte, coordenado pelo Prof. João Reis, curso de Psicologia - IESB Oeste, Ceilândia, setembro/outubro de 2015. Filme debatido: Anticristo, de Lars Von Trier, 2009.

domingo, 14 de outubro de 2018

Partidos e partidas

"Eu parti seu coração!", ela falou com certa sensação de pesar. "Em dois!"
Eu respondi:
- Meu coração já é partido. Em quatro.
Meu DNA que é partido em dois.
Meu cérebro, partido em três.
Sou toda partida.
Não se preocupe