Minha razão

Olá!!
Criei esse espaço para postar subjetivações subjetivantes do sujeito que sou!
Filosofia, psicologia, educação.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Uma fala aos que se formam em psicologia

Esse ano fui paraninfa dos formandos de Psicologia. Construí uma fala especialmente para eles mas, chegando lá, percebi que precisava incluir na fala a pedagogia, pois a formatura era dos dois cursos. Assim, elaborei outros dizeres para aquele momento. Mas, para não perder aquilo que eu gostaria de realmente ter falado aos nossos novos psicólogos e psicólogas no mundo, compartilho aqui minhas ideias para que elas não se diluam na minha memória e se apaguem na cotidianidade da vida.   

       Agradeço aos queridos formandos e queridas formandas estar aqui os representado e traduzindo a fala de seu corpo docente, tarefa que não é fácil, haja vista a diversidade de áreas que compõem a psicologia.
       Para mim, formar-se em psicologia é momento de conscientização profunda de uma responsabilidade, pois significa formar-se para o trabalho do cuidado. Um cuidado que, em si, requer bastante cuidado, pois é ação que toca nas vias da dor, do medo, da raiva, da alegria, do espanto, dimensões do humano por vezes incontroláveis.
       Nesse lugar do cuidado eu preciso sempre lembrar que eu cuido do Outro e nesse ponto quero abrir caminho ao paradoxo central da psicologia: o Eu e o Outro. Paradoxo que nos deixa em contradição e em lugar de respeito, pois, o Eu e o Outro é a díade básica da formação psicológica de uma pessoa.
       Assim, como profissional da área psi, preciso estar atenta ao que de mim no encontro aparece, ao que do outro no encontro aparece. Preciso observar algumas questões como: onde nos ligamos? onde nos afastamos? quais nossos papeis?
       E não posso esquecer uma questão central: como cuido de mim, sendo eu um outro?
       Por essas questões tão inquietantes eu, como profissional, faço opção pelo estudo da subjetividade e da complexidade. E "subjetividade" é palavra-armadilha, pois tende a nos levar ao extremo do subjetivismo. Por isso precisamos ler a subjetividade em contextos concretos, integrando ao subjetivo, o objetivo, pautando-se no sujeito da ação.
       Lembro os momentos que as falas em sala de aula produziam um encanto. Esse encanto, acredito eu, deriva da possibilidade de transitar entre os extremos e de colocar díades dicotomizadas em diálogo, em movimento, tal como o Eu e o Outro, tão dicotomizados na ciência e também em algumas filosofias.
       Como aqui não posso tomar muito do tempo para ampliar esse pensamento,vou me restringir a trazer à memória de vocês algumas das dicotomias clássicas que a subjetividade nos auxilia a compreender integradas. Lembrem que pensar em subjetividade é pensar uma complexidade de dualidades em tensão e foi mais ou menos isso o que queria propor o clássico Jung, ampliando Freud.
Algumas delas são:

  • o eu e o outro
  • a consciência e a inconsciência
  • a biologia e a cultura
  • a história e o futuro
  • o racional e o irracional
  • o pensar e o sentir
  • a ação e a inação
  • a massificação e a singularização
  • o imaginário e o real
  • a mente e o cérebro
  • a carne e o espírito
  • o sujeito e o social
  • dentre outras possíveis ...
       Como dicas que sinto importantes na suas vidas profissionais trago agora:

  • Conseguir conjugar as diversidades; lembrar que todo absolutismo é cego e de que toda verdade soberana é ditadora.
  • Sejam fluidos como as águas, leves como o ar, sólidos como a terra e transformadores como o fogo. Treinem seus ouvidos. Escutem. Não sejam apressados. O tempo é nosso maior mestre.
    Psicologia é conhecimento ambíguo, paradoxal, contraditório. Daí desdobram-se algumas dificuldades que nos separam dentro de nosso campo do saber, pois nós ficamos presos no movimento tensional das diferenças. Entretanto, o que nos une é o humano como habitante do planeta terra e nosso fazer precisa avançar e dialogar com a ciência do século XXI. Portanto, estudem e atualizem sempre, para assim ajudar a serenar cada vez mais a tensão que nos afasta, integrando cada vez mais os nossos saberes. O caminho que vocês tem pela frente é um caminho de compromisso social, não se esqueçam disso. E espero que a saudade e as boas lembranças do curso sejam molas propulsoras ao constante capacitar-se.
         Boa sorte a todos e muito grata mais uma vez por poder estar aqui e agora junto com vocês.

Fala aos formando de psicologia do IESB Oeste - turma 2017.2 - 01 de fevereiro de 2018 - Ceilândia/Brasília


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A mente do caçador-coletor

       Nossa mente foi forjada no paleolítico, no corpo de um animal caçador-coletor. Essa mente  primordial clama, quer de volta, o coletivo. Quer de volta a relação com a vida pautada no trabalho pela sobrevivência.
       Todavia, essa postura é, na mente de hoje, negada, rejeitada. O sistema mental capitalista rejeita o espírito do coletivo, pois ele é a via de sua destruição.
       Compreender o humano pelas vias do neural facilita compreender essa dinâmica conflituosa e também ajuda a trabalhar em alguns ajustes necessários para tirar a mente do caçador-coletor do sofrimento subjetivo. Para isso, precisamos lembrar de nossas dualidades em tensão e precisamos lembrar que a saída está em construir vias novas que possam respeitar esse espírito coletivo que nasceu da busca pela sobrevivência.
       Podemos conjugar em harmonia a intenção do caçador-coletor, que trabalha pela sua sobrevivência e o sistema capitalista. Mas, para isso, temos que parar de trabalhar PELO e PARA o sistema capitalista. Isso sim. Ser cooperativo nas bases para ter forças nas competições maiores. Ter nação organizada em si para poder dialogar com outros coletivos igualmente organizados. Isso é o que significa a soberania nacional e é isso que o Brasil perde cada dia, a olhos vistos.
       Enquanto não houver compreensão de que o nosso TODO fica comprometido nessa brincadeira que é a política polarizada e falsa no Brasil, não vamos conseguir mudar nossa nação. Precisamos cada um, no seu particular, fazer as ações necessárias, transitar nos lugares seguros das organizações coletivas de base. Na ação, a (re)programação.
      Nosso cérebro tem todos os recursos necessários pela forja de um processo histórico. Basta acionar. Só que o controle social não deixa. Não deixa!!
       Seja coletivo! Seja solidário! Mude em suas ações! Mude no seu dia-a-dia. Não trabalhe pelo SISTEMA dominante, que é um sistema ALTERANTE. Trabalhe por um sistema NATURAL. Trabalhe pelo seu filogenético. Caso contrário você irá trabalhar pela extinção de sua espécie.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Liévin, um ser apaixonante

     
       Gosto de me inspirar nos livros que leio. Gosto de desdobrar pensamentos a partir do encontro com autores, dos mais diversos. Segue aqui mais uma construção derivada de um desses encontros marcantes: o meu com Liévin.
       Soube pelos e-mails de um dos grupos de pesquisa do qual faço parte, que González Rey havia indicado a leitura de Anna Kariênina para que o grupo compreendesse aspectos relevantes da teoria da subjetividade. Uma colega compartilhou a obra e salvei em meu tablet, para ler nas férias de verão, afinal, fiquei curiosa e estava sem tempo para atualizar as leituras mais técnicas desse grupo.
       Comecei a leitura nas férias e identifiquei-me com Anna, algo até fácil para outra Ana. E apreciei o início do livro. Mas, ao ler mais, encontrar história longa, perceber a amplitude da construção do autor e, também, pelo fato concreto de não ter conseguido ler toda a obra ao longo do período de férias de verão, abandonei a leitura. E abandonei acreditando que não a retomaria mais, afinal, a história ficou desinteressante também.
      Passa o semestre, vem recesso e saio de novo para um intervalo no trabalho. Ao pensar na leitura da viagem percebi que não queria carregar pesos e lembrei do livro que eu tinha no tablet, mas nesse momento não tinha mesmo intenção de retomar sua leitura, só fiquei tranquila, pois teria uma leitura.
       Foi no vôo de volta, após diálogos com a filha sentada ao lado, após alguns jogos de paciência, após verificar a revista à bordo e, percebendo que nos faltavam 30 minutos de viagem, resolvi abrir o livro. E a partir desse momento re-encadeei uma leitura da qual não consegui mais me apartar. Afloravam em meu pensamento compreensões interessantes sobre as configurações subjetivas que integram pensamentos singulares com circunstâncias sociais concretas, identificava aqui e ali situações que representariam produções de sentido e a emergência ou não de sujeitos e, por essas e por outras, não consegui largar o livro enquanto ele não chegou ao seu final. 
       E eis que chego aos finais da obra e encontro a questão existencial de Liévin, personagem que me encantou e cativou ao longo de toda a obra. A história de Anna, que envolve Kitty, Vrónski e Liévin, encontra seu centro: o conflito existencial de Liévin.
       Assim, nos capítulos XII e XIII da parte VIII, embarco na viagem reflexiva de Liévin e compreendo com ele várias das aprendizagens que pude reunir de meus mestres-professores ao longo de meu tempo de vida de estudos e construções. Dialeticamente a história de Liévin, que deve representar questionamentos existenciais do próprio autor, mistura-se com a minha, levando a mim mesma às produções de sentidos e à construção de novas zonas de sentido.
       Viver, pensar ... Liévin afirma que vivia bem, e pensava mal.
      Eu posso viver sem a consciência disso, de que vivo bem e penso mal. Posso viver sem ter a consciência de que a vida é binária, a fome é binária, é sim e não  ou mata e come, ou é comido e morto!   Liévin, então, compreende que vivia graças às suas crenças, e não graças às suas necessidades, pois, se vivesse pelas necessidades, mataria, usurparia, violentaria. E eu compreendo todo o desdobramento complexo dessa relação do pensar de Liévin sobre o seu viver.
       O conflito existencial de Liévin me conduz à compreensão de que o viver é binário e o pensar seria o elemento que monta um sistema ternário. O pensar não é a dialética com o viver, pois a dialética, ou dialógica, é a própria vida, ou a vida mesma. O pensar já é o terceiro elemento. E do pensar em dialógica com o viver binário, evidencia-se o elo que os vincula, o elo que os movimenta: o sentir. Então, o sentir monta um sistema quaternário. Com o quartenário possível, alcança-se o espiritual, o transcendente, que nos leva de volta ao uno, num ciclo sem fim do fluxo do ser, da consciência.
       Essa seria a resolução do conflito existencial de Liévin? Ele fala:
       "Procurei a resposta à minha pergunta. Mas tal resposta não poderia ser fornecida pelo pensamento - o pensamento e a pergunta são incomensuráveis. Foi a própria vida que me deu a resposta, com base no meu conhecimento do que é bom e do que é mau. E esse conhecimento eu não adquiri de coisa alguma, ele me foi dado junto com tudo o mais, e me foi dado porque eu mesmo não poderia obtê-lo em parte alguma."
       O personagem compreende que viveu graças às crenças em que foi educado. Sua compreensão significa que viveu ao todo, e não à fome da parte. Nessa resolução existencial compreendemos que o todo é complexo. O binário é movido pelo pensar ternário, que desencadeia o elo entre o viver e o pensar, que é o sentir, construindo o quaternário. Do quaternário, o pentagrama. O Humano é um pentagrama, já expresso por pensadores ancestrais. No pentagrama é onde acontece a organização da consciência. Para Liévin, foi o encontro com a fé como uma experiência única que está para além de toda e qualquer doutrina ou instituição. Em mim, encontro o todo. E só consigo isso, esse encontro com o todo, porque estou no mundo da troca, da inter-relação e da construção cultural-histórica humana.
       Liévin compreende que tem algo maior que o sustenta e do qual ele faz parte e, na resolução de seu conflito existencial, compreende que não pode destruir aquilo que lhe permite viver. E aí está a base do pensamento ecológico. A resolução de seu paradoxo chega quando lembra de uma cena de sua cunhada educando seus sobrinhos: as crianças, imersas na sua i-razão, ainda não podem compreender. Mas ele, agora, compreendia. A mãe, amorosamente, passa à lógica à criança. Uma lógica que para ela é ilógica. Mas essa lógica passada pela mãe é o que vai ajudar depois, na nossa própria construção de sentido, indicando que o sujeito não está separado de um todo. Tudo é importante: o processo é um todo e no todo tudo faz sentido, não só na parte individual tão valorizada nas sociedades individualistas.
       Ao ler o livro vejo a expressão mesma da subjetividade se organizando entre o pensar e o viver. Vejo a emoção entrando e dialogando com os simbólicos. Aprendo sobre a relação da subjetividade com a consciência e fortaleço toda a minha aprendizagem pessoal sobre a ecologia e a ciência em primeira pessoa.
       Impossível não registrar esse processo reflexivo. Impossível não aproveitar a viagem de Tolstói no século XIX, trazendo para nós tão vital saber para o século XXI. Grata, Tolstói! Liévin tinha conflitos com o divino e quando o resolve percebe que nas relações ele ainda é humano mas, em seu íntimo, já não o é mais.

sábado, 29 de julho de 2017

Pensando o sentido de currículo

       Tenho registros de estudos que fiz quando estava professora de Organização do Trabalho Pedagógico, no curso de Pedagogia do IESB Oeste. Trabalhar com essa disciplina era algo que muito me motivava, pois eu precisava pensar a organização da educação, não só dentro de sala de aula, mas também no tempo e no espaço. Nos trabalhos de pesquisa sobre os temas que precisava trabalhar, tais como planos, planejamentos, avaliação, o próprio sentido de educação, as bases de uma concepção mecanicista de educação, os pilares da educação para nos novos tempos, entre outros, encontrei materiais relevantes para dialogar com os aprendizes de educação.
       Um deles foi o filme "Vocacional", de Toni Venturi, lançado em 2011. O filme Vocacional é um documentário que mostra um projeto de escola no Brasil, dentre muito outros inovadores de um mesmo período histórico, pois os Ginásios Vocacionais de São Paulo não foram projetos isolados dentro de uma configuração subjetiva social mais ampla, que conseguiu materializar um sentido de educação muito efetivo.
       Estudando sobre currículo apurei nos autores que, quando falo de currículo, falo de projeção e desdobramentos de Projeto pedagógico. Um currículo seria um conjunto de saberes e práticas, conjunto este ligado a um momento histórico e social. Este momento, por sua vez, estabelece objetivos relacionados aos conhecimentos que se quer construir por meio de conteúdos diversos. Planejar um currículo seria definir coletivamente objetivos e estratégias, seria pensar os tempos, organizar os espaços, conhecer as diferentes necessidades nos e dos diferentes graus do processo de desenvolvimento humano.
       Como psicóloga, não posso deixar de ressaltar as particularidades do processo curricular de uma escola como o Ginásio Vocacional. A primeira coisa importante é: um currículo pautado na formação da personalidade. Não vemos isso hoje em dia, pois os currículos tendem a pensar no conhecimento humano como algo separado da pessoa singular.
       Além disso, tem outra diferença - de qual ciência partir? da natural? da exata? - tal como percebemos em muitos de nossos currículos hoje em dia? Pois bem, no Ginásio Vocacional havia um singular respeito em partir a construção do currículo a partir das ciências humanas e seus estudos sociais.
       Estávamos nos anos da década de 60 do século passado e já falavam em integração de saberes, em não focar nas disciplinas, mas nos núcleos educacionais, já trabalhavam com o saber contextualizado, com as decisões coletivas, tendo os estudantes como principais protagonistas, construindo uma escola que não se fechava em si mesma, que primava pelo processo reflexivo, que colocava os alunos como criadores e produtores, que precisavam compor sua auto-avaliação e que eram o tempo todo estimulados à autonomia.
       Então fica a pergunta o que é um currículo? Quais os desdobramentos de uma escolha curricular?
       Esse processo educacional terminou por conta de uma conjuntura política, que o abortou por completo. Ficamos sem os desdobramentos incríveis que esses projetos curriculares teriam produzido num país como o Brasil. Uma pena! Socializar no Brasil é crime e certas propostas de construção de uma nova sociedade se perdem por isso. Aborta-se a socialização e isso repercute no abortamento da ciência em primeira pessoa e do trabalho ecológico, pensamentos necessários à sociedade do século XXI.
       Portanto, fica aqui o registro, reciclando mais um papel manuscrito e reflexivo, dos tantos que já produzi. Algo que fica registrado para um outro tempo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Início de um trabalho pelo social

Eu já morei na Chapada dos Veadeiros.
Lá tive a chance de atuar em ONGs, em um tempo onde essa linguagem era emergente e inovadora.
Uma das ONGs que demandou meu trabalho na Chapada foi a WWF-Brasil. Eles me chamaram como psicóloga para construir um diagnóstico participativo.
Como a Chapada era muito visada naquele tempo, a TV estava sempre por lá buscando pautas. Com isso, aconteceram pautas muito apelativas e convivi com muitos amigos que tiveram a vida modificada pelas edições dos veículos de comunicação. Deturpações, sensacionalizações ...
Quando estávamos na Oficina de finalização do diagnóstico, apareceram repórteres por lá. Eles questionaram se poderiam registrar a Oficina e se eu poderia dar um depoimento para a matéria. Aceitei, com a condição de que a matéria fosse honesta com o real e não com os interesses das linhas de edição. Então a repórter falou que o programa era TV Cultura e não TV comercial, ou seja, iriam sim editar com respeito.
Assim permiti que filmassem o grupo e gravei um depoimento.
Hoje encontro essa matéria na internet. Importante linkar ela com o blog. Não sei por onde andam as filmagens, mas encontrar esse registro da matéria me deixa feliz.
Ela deve ter sido feita em 1998. Vão-se quase 20 anos.
Clicando aqui chega no site e na reportagem.
Na época foi vídeo. Foi bom, e curioso, encontrar omo texto. Realmente repórteres de respeito.
Que sempre viva a nossa TV Pública chamada Cultura!

sábado, 8 de julho de 2017

Trocas de ciclos

       Vida de docente é vida cíclica.
       Semestre após semestre.
       Nesses ciclos, tempos de reordenação de caos, para compor novas ordens.
       Papéis que vão, mas ideias que ficam.
       Ser docente de psicologia é mágico, pois lidamos com a magia do humano como ser que transita entre o real e o imaginário. Precisamos saber pilotar bem na brecha entre esses dois mundos, para poder vir a ajudar outros a pilotar bem essa brecha, essa transição, essa múltipla possibilitação.
       Nesse processo cíclico e reflexivo do docente de psicologia, aparecem esquemas registrados, resultados de conversas consigo mesmo, ou de conversa com outros.
       Tipo isso:
       Psicopatologia - Psicose (humor e delírio); Neurose; Social - Ciência legitimada - Epistemologia
       Relação entre as diversas psicologias.
       Complexidade.
       Um <---> Um


      E mais um pequeno papel se vai no tempo.
       E mais uma ideia que fica em um blog.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Jung e o diálogo do coletivo com o individual

       Esse post começou a ser gestado em julho, agosto desse ano. E precisou ficar no forno por duas razões. A primeira, uma certa falta de tempo e oportunidade de estar sentada com o livro, numa mesa adequada e conseguir organizar minhas notas de leitura em um texto mais ou menos coerente. A segunda foi um total respeito à Jung e ao que ele falou. Não poderia ser leviana e colocar um post de Jung com superficialidade, com tentativas de me mostrar dominando o tema, com desrespeito ao que a leitura do livro O Eu e o Inconsciente me suscitou. Assim, considerando essas duas razões abro a permissão para falar sobre Jung e seus pensamentos.
       Eu acredito que compreendo o pensamento de Jung por ser uma jovem garota de 50 anos que estudou com bons professores e que já faz parte de um tempo novo nas linhas do conhecimento. Só por essa razão me atreveria a debater aqui suas ideias, pois ser especialista em ecologia humana me facilita a compreensão de muitos códigos.
       Eu estudei Jung mais profundamente para colocá-lo em nosso primeiro livro (A subjetividade social na escola, 1999), pois imaginava que ele poderia dialogar com a subjetividade de González Rey, e também por um respeito histórico a alguém que falou em inconsciente coletivo num tempo, o que me validaria estar falando em subjetividade social naquele meu hoje.
       Esse ano voltou um chamado para ler Jung e um encontro com esse livro na minha estante. Tenho uma coleção de livros de Jung que herdei de uma professora querida. Eu os tenho para ler quando tiver o tempo. Assim, vendo os muitos, resolvi retomar esse estudo por esse livro citado, cuja leitura me revelou coisas importantes, e que busco aqui-agora compartilhar.
       Estudar Jung esse ano foi como mergulhar nos mares que abriram as portas para o entendimento de uma psicologia transpessoal. Quando ele propõe que o inconsciente tem uma dimensão que é coletiva, ele proporciona uma amplificação ao sentido da personalidade, do psíquico e do diálogo do singular com o coletivo. A pessoa individual, formatada biologicamente pelo corpo, nasce una. Mas é engolida pelas ondas das matrizes arquetípicas que dão a este antropomórfico uma corrente de influências inconscientes que lhe ajudam a organizar o ser Eu no Todo do humano no mundo.
       Anterior a muitos outros, pois esses escritos são de 1916, 1928, ele ousa trazer ao científico o marginal subjetivo. Freud forjou o inconsciente do eu e colocou o objeto fora, no outro. Jung forjou o inconsciente criativo, pulsante de possibilidades, magnificamente compartilhado no tempo e no espaço, desde que o humano fez-se humano, e por onde e quando ainda for fazer-se. O inconsciente não como um depósito da história pessoal, mas como conteúdos psíquicos transpessoais não inertes ou mortos e que não podem ser manipulados à vontade, pois são entidades vivas e que exercem força de atração sobre a consciência (p. 20).
       Assim, estranhos caminhos pode seguir a personalidade ao tentar lidar com sua individualidade (temperamento?) e sua coletividade (caráter?). Completamente jogada no círculo sem fim dos pares de opostos, vive a tensão entre o ser lúcida e não ser. Ser Eu e não ser. E, por incrível que pareça, em Jung a morte do singular impede o avanço do coletivo. Transpessoal e paradoxal é a vivência do psíquico, pois existe um realizar de si mesmo que seria o mais singular. Se vou muito ao coletivo, alieno-me. Por outro lado, o coletivo precisa que eu faça esse caminho de individuação. O coletivo e o individual possuem um diálogo mágico de auto-criação e criação mútua.
       O individuação seria o processo de despojar-se (o si mesmo) dos invólucros falsos de uma persona e de poderes sugestivos de imagens primordiais. Seria a possibilidade de ser singular sabendo-se no e do todo.
       Para Jung o inconsciente e o consciente não operam por oposição e sim por um princípio dialético e o "si mesmo" é os dois em um. Para que isso fique claro, a pessoa precisa conhecer em si mesma esses conceitos e fazer o caminho do auto-conhecimento. Esse ponto é importante que eu traga, pois é um dos pontos de divergência com a teoria da subjetividade de González Rey, que prefere falar que o conhecimento de si é algo que não existe. E aqui cabe uma questão: o que seria o conhecer? Quem é o conhecedor? Onde habita o conhecimento?
       Outra questão importante, que não coloco como interrogação, mas como ponto de reflexão, é que encontro em Jung a menção à ciência em primeira pessoa. Em algum momento do texto ele ressalta: não basta ler minhas palavras (ou mesmo ouvi-las) para compreender os meus conceitos. Imprescindível vivê-los.
       Meu primeiro professor de Jung foi Doro, que foi também meu primeiro professor de psicoterapia e  foi a primeira pessoa que me levou ao processo de formação e conhecimento em primeira pessoa, então, posso afirmar que compreendo Jung, pois vivi em mim o processo da construção de si no todo. Os arquétipos, os mitos, a vida se misturando com o sonho, a plena incerteza de ser e até mesmo de estar, tudo em mim vivido e compreendido.
       Grata Jung! Grata Doro!
       Os estudos sempre continuam, mas a confirmação que certos saberes chegam somente em primeira pessoa é o que me anima a continuar e continuar a aprender e trabalhar. A difícil teoria de Jung nem precisa ser toda estudada e dominada para compreender que o que ele defendia era a integração do sujeito com o objeto e por aí devem seguir os caminhos de uma psicologia transpessoal. O viver é um jogo de espelho que mistura o individual com o coletivo e cada um deverá empenhar-se no seu próprio caminho de tradução de imagens que são realidades e de realidades que são meras imagens.
       Como tenho ainda um tanto de vida, ainda um tanto tenho para aprender sobre isso ...

JUNG, C. G. O eu o o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1971.
Um post de Dia de Reis. Agradeço ao momento de férias que me aproxima de meu blog.